Curiosidades / Estados Unidos

O amaldiçoado SS Great Eastern, o Titanic do século 19

Em 1858, não havia embarcação que sequer se aproximasse do colossal vapor britânico, no entanto, acabou tendo um fim deprimente

Pintura do SS Great Eastern
Pintura do SS Great Eastern - Wikimedia Commons

O maior navio de sua época, com fama de ser impossível de afundar. Um feito de engenharia, capaz de satisfazer os luxos dos passageiros mais exigentes. Essa não era a descrição do Titanic, mas do SS Great Eastern, de mais de 50 anos antes. Era o sonho do engenheiro Isambard Kingdom Brunel.

Incompreendido em vida, hoje ele é considerado um gênio que estava à frente de seu tempo. Brunel havia desenvolvido dois navios bem-sucedidos, o Great Western e o Great Britain, quando resolveu criar a embarcação mais colossal já feita. Morreria apenas um ano depois de o Great Eastern ser lançado.

O navio foi construído para levar 4 mil passageiros da Inglaterra até a Austrália sem parar para abastecer, um feito impossível a qualquer outro navio a vapor. Mas teve uma carreira meio azarada. A viagem para a Austrália nunca aconteceu, e acabaria limitado ao percurso entre Europa e Estados Unidos – onde seu tamanho não era vantagem nenhuma.

Não daria lucro no transporte de pessoas, e acabaria convertido em instalador de cabos telegráficos oceânicos em 1865 – de fato, o primeiro do mundo, instalando o primeiro cabo.

O Great Eastern tinha fama de maldito. Em sua carreira, somaram-se acidentes, incluindo uma explosão que deixou cinco vítimas fatais. 

O interior do navio

Como era comum nos vapores da época, o Great Eastern tinha velas além dos motores a vapor. Muitas velas, aliás: eram seis mastros, outro recorde. A ideia era usá-las ao mesmo tempo que os motores, para economizar combustível, mas, por erro de cálculo, isso não podia ser feito, já que as chaminés dos motores poderiam incendiá-las.

Segunda carreira

Em 1865, para compensar as perdas, o GE passou a ser usado para instalar os primeiros cabos de telégrafo ligando a Europa às Américas e à Índia. E essa seria sua melhor vocação: os cabos eram pesados e difíceis de manobrar dentro de embarcações menores.

O SS Great Eastern era maior do que qualquer outra embarcação já construída: duas vezes mais comprida e seis vezes maior em volume do que os recordistas da época, ela só seria superada em comprimento em 1899 e em peso em 1901.

Esse tamanho todo tinha um objetivo: ultrapassar os 20 mil quilômetros de autonomia de combustível, para chegar à Austrália sem escalas. Todavia, o maior desafio do projeto era reunir potência capaz de carregar as mais de 32 mil toneladas de deslocamento (isto é, o peso da água que ele precisa tirar do caminho para andar).

Para dar conta, foram construídos quatro motores a vapor, com 2 mil cavalos de força cada um, que moviam as pás laterais e uma hélice traseira. Logo na primeira viagem, uma explosão numa caldeira matou quatro tripulantes.

Beta do Titanic

O SS Great Eastern provocou polêmica por prever que o navio deveria ser inteiro de ferro. Achavam que iria ao fundo, mas foi uma aposta acertada: poucos anos depois, o Império Britânico abandonaria de vez os navios de madeira.

Outra inovação questionada foi o casco duplo, capaz de sobreviver a um rasgo na parte externa. Isso também se tornaria padrão mundial.

O navio tinha capacidade para 4 mil passageiros. Em caso de acidente, havia 20 barcos salva-vidas, capazes de retirar pouco mais de 1 mil pessoas. Lembra alguma coisa? Pois
é, é exatamente o mesmo descaso que ocorreria muitas décadas depois com o Titanic. Inclusive, em 1862, ele trombou numa rocha e ficou com um rombo de 25 metros. Só não afundou por causa do casco duplo.

Ao fim de sua vida útil o barco tinha se tornado um deprimente restaurante, casa de shows e outdoor ambulante. Terminaria sendo vendido como sucata em 1888.


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