Matérias / Elizabeth Smith Friedman

Como Elizabeth Friedman decifrou códigos nazistas e salvou milhares de vidas

Durante décadas mantida em segredo, criptologista ajudou a derrotar redes de espionagem nazistas e revolucionou a decifração de códigos

Elizebeth Smith Friedman - National Security Agency

Durante muito tempo, o nome de Elizabeth Smith Friedman permaneceu praticamente desconhecido do grande público. Enquanto outros especialistas em criptografia receberam homenagens e reconhecimento oficial, a norte-americana trabalhou em absoluto sigilo, desempenhando um papel decisivo em alguns dos episódios mais importantes da história do século 20.

Sua atuação foi essencial para combater redes de espionagem, enfrentar organizações criminosas durante a Lei Seca e, posteriormente, ajudar os Estados Unidos na luta contra o regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Antes do Serviço Secreto

A trajetória de Friedman começou longe dos serviços de inteligência. Nascida em 1892, ela era apaixonada por literatura inglesa e, após concluir os estudos no Hillsdale College, em Michigan, procurava emprego quando entrou na Biblioteca Newberry, em Chicago, no verão de 1916. O que parecia ser apenas mais uma entrevista de trabalho acabaria mudando completamente sua vida.

Ao saber de seu interesse por Shakespeare, uma bibliotecária a indicou para George Fabyan, empresário e proprietário dos Riverbank Laboratories, centro privado de pesquisas localizado em Geneva, no estado de Illinois.

Fabyan acreditava que o filósofo inglês Francis Bacon seria o verdadeiro autor das obras atribuídas a William Shakespeare e buscava provar sua teoria por meio de supostos códigos escondidos nas peças e poemas do dramaturgo.

Embora a hipótese nunca tenha sido confirmada, a experiência ofereceu a Elizabeth algo muito mais valioso: o contato com métodos de identificação de padrões, análise de frequências e sistemas criptográficos que moldariam toda a sua carreira.

Da literatura a criptografia

Foi justamente nos Riverbank Laboratories que Elizabeth conheceu William Friedman, geneticista que também trabalhava na instituição. Os dois compartilhavam o ceticismo em relação à teoria defendida por Fabyan, mas desenvolveram um interesse crescente pela criptologia, área dedicada ao estudo da criação e da quebra de códigos.

Eles acabaram se casando em 1917, pouco antes da entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. Com o conflito em andamento, o laboratório assumiu uma função completamente diferente daquela imaginada por seu fundador.

O Riverbank Laboratories tornou-se a primeira instalação norte-americana capaz de decifrar mensagens militares criptografadas.

Antes mesmo da criação oficial do Departamento de Cifras do Exército dos Estados Unidos, em 1919, Elizabeth, William e uma pequena equipe eram responsáveis por praticamente toda a atividade de quebra de códigos realizada para diferentes setores do governo.

Elizabeth Smith Friedman colhendo flores em Riverbank por volta de 1917 – Museu Nacional de Criptologia

Além de resolver mensagens cifradas, o grupo também desenvolveu métodos e técnicas que continuariam sendo utilizados pelos serviços de inteligência nas décadas seguintes.

Após o fim da guerra, Elizabeth deixou temporariamente o trabalho ligado ao governo para dedicar-se à família. Durante esse período nasceram seus dois filhos: Barbara, em 1923; e John Ramsay, em 1926.

O combate aos contrabandistas na Lei Seca

O retorno de Elizabeth à criptografia ocorreu em um momento delicado da história americana. Durante a Lei Seca, organizações criminosas passaram a utilizar sistemas sofisticados de comunicação para coordenar o contrabando de bebidas alcoólicas por milhares de quilômetros da costa dos Estados Unidos.

Esses grupos empregavam transmissores de rádio e códigos complexos para escapar da fiscalização. Embora a Guarda Costeira interceptasse centenas de mensagens, não havia especialistas capazes de interpretá-las. Em 1925, Elizabeth Smith Friedman foi chamada para resolver o problema.

Ela se tornou a primeira decifradora de códigos do Departamento do Tesouro e da Guarda Costeira dos Estados Unidos. Inicialmente, contando apenas com lápis, papel e um único assistente, começou a analisar as mensagens interceptadas.

Nos anos seguintes, ela conseguiu decifrar mais de 12 mil comunicações utilizadas por organizações de contrabandistas. Além disso, defendeu a criação de uma unidade oficial de criptoanálise dentro da Guarda Costeira, treinou novos especialistas e atuou como testemunha técnica em mais de 30 processos federais relacionados ao contrabando de bebidas.

A luta secreta contra a espionagem nazista

No fim da década de 1930, Elizabeth e sua equipe passaram a concentrar seus esforços nas comunicações da Alemanha nazista.

Segundo o Smithsonian, seu grupo foi o primeiro dos Estados Unidos a conseguir romper códigos produzidos pela máquina Enigma, equipamento utilizado pelos alemães para proteger mensagens militares.

O sistema funcionava por meio de rotores que alteravam continuamente as combinações das letras, tornando as mensagens extremamente difíceis de serem decifradas.

Com base nesse trabalho, a Guarda Costeira começou a fornecer informações estratégicas ao Exército, à Marinha e ao Departamento de Estado norte-americano sobre redes de espionagem que monitoravam embarcações e rotas marítimas dos Aliados.

A partir de 1940, Elizabeth passou a interceptar transmissões enviadas por estações de rádio localizadas tanto na América do Sul quanto nos próprios Estados Unidos.

Inicialmente semelhantes às mensagens usadas pelos contrabandistas da Lei Seca, elas se revelaram parte de uma ampla rede de inteligência nazista que transmitia informações sobre produção industrial norte-americana e movimentações marítimas.

No fim de 1941, ela e sua equipe, composta por 23 analistas, foram transferidas para a Marinha dos Estados Unidos, onde passaram a liderar uma operação de contraespionagem voltada para desmontar a atuação alemã no Hemisfério Ocidental.

O trabalho que salvou milhares de pessoas

Uma das operações mais importantes ocorreu em março de 1942.

Ao analisar comunicações alemãs, Elizabeth descobriu que submarinos nazistas estavam rastreando o RMS Queen Mary, navio responsável pelo transporte de tropas aliadas durante a Segunda Guerra Mundial.

Segundo as mensagens decodificadas, Adolf Hitler havia prometido uma recompensa milionária caso a embarcação fosse afundada.

Máquina projetada por Edward Hebern para criptografar e decifrar mensagens – Museu Nacional de História Americana

As informações chegaram ao comandante do navio a tempo de permitir uma mudança de rota, evitando o ataque. A operação salvou mais de 8 mil pessoas que estavam a bordo.

Ao longo da guerra, a unidade liderada por Elizabeth decifrou cerca de 4 mil mensagens e conseguiu romper os códigos de três máquinas Enigma utilizadas pelos alemães.

Reconhecimento que demorou décadas

Apesar de sua enorme contribuição, Elizabeth Smith Friedman permaneceu praticamente invisível durante boa parte da vida.

Grande parte de seu trabalho permaneceu classificada como ultrassecreta até o início dos anos 2000. Como era funcionária civil, seu nome aparecia raramente em documentos oficiais, sendo identificado apenas pelas iniciais “ESF” ao final das mensagens decodificadas.

Enquanto seu marido, William Friedman, recebeu importantes condecorações e passou a ser conhecido como um dos pais da Agência de Segurança Nacional (NSA), Elizabeth recebeu apenas um aumento salarial pelo trabalho realizado durante a guerra.

Consciente da pouca visibilidade de sua atuação, ela chegou a dar ao rascunho de suas memórias o título Footnote to History (“Nota de Rodapé para a História”), expressão que simbolizava tanto sua discrição quanto o anonimato imposto pelo sigilo militar.

Após a morte do marido, em 1969, Elizabeth dedicou seus últimos anos à organização de documentos, correspondências e registros relacionados à carreira dos dois. Hoje, esse acervo está preservado na Fundação George C. Marshall, na Virgínia.

Elizabeth Smith Friedman morreu em 1980. Suas cinzas foram espalhadas sobre o túmulo compartilhado com William, no Cemitério Nacional de Arlington.

Na lápide do casal, uma frase resume o legado construído por ambos ao longo da vida: “Knowledge is Power” (“Conhecimento é Poder”, em tradução livre).

O legado de uma pioneira

Somente após a desclassificação de documentos oficiais foi possível compreender a verdadeira dimensão da contribuição de Elizabeth Smith Friedman para a história da criptografia e da inteligência norte-americana.

Elizabeth Smith Friedman – Agência de Segurança Nacional.

De estudiosa da literatura inglesa a pioneira na quebra de códigos, sua atuação ajudou a moldar técnicas modernas de criptoanálise, combater o crime organizado e desarticular redes de espionagem nazistas.

Durante décadas, seu trabalho permaneceu escondido pelo sigilo militar; hoje, sua trajetória é reconhecida como uma das mais extraordinárias da história da inteligência dos Estados Unidos.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli