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Ilhas do Canal: o único território britânico controlado pelos nazistas

Desmilitarizadas pelo Reino Unido em 1940, as Ilhas do Canal foram ocupadas pela Alemanha nazista sem resistência

Nazistas Ilhas do Canal capa
Ocupação nazista nas Ilhas do Canal (1941) - Getty Images

As Ilhas do Canal ocupam um lugar singular na história da Segunda Guerra Mundial. Localizado no Canal da Mancha, entre a costa sul da Inglaterra e a Normandia francesa, o arquipélago tornou-se o único território pertencente à Coroa Britânica ocupado pela Alemanha nazista durante todo o conflito. A invasão ocorreu em junho de 1940, após uma decisão do governo britânico de desmilitarizar as ilhas e retirar suas forças, considerando que a região era indefensável diante do avanço alemão.

As maiores ilhas do arquipélago — Jersey e Guernsey —, além de Alderney, estavam situadas a poucos quilômetros da costa francesa, posição considerada estratégica para os planos militares de Adolf Hitler. Antes da chegada das tropas alemãs, Londres ofereceu a retirada dos moradores que desejassem deixar o território, mas uma parcela significativa da população optou por permanecer em suas casas.

Além da evacuação parcial, as autoridades britânicas declararam as ilhas como “cidades abertas”, indicando que não haveria resistência militar à invasão. Quando as tropas alemãs desembarcaram em 30 de junho de 1940, encontraram um território completamente desprotegido. Segundo registros históricos, os próprios militares nazistas esperavam enfrentar combates e haviam preparado uma operação de invasão com batalhões e equipamentos pesados. A ausência de qualquer reação surpreendeu os invasores, que inicialmente chegaram a suspeitar de uma emboscada.

A ocupação das Ilhas do Canal

Durante quase cinco anos de ocupação, as Ilhas do Canal passaram a integrar a chamada Muralha do Atlântico, gigantesco sistema defensivo construído pela Alemanha ao longo da costa atlântica da Europa para impedir uma eventual invasão aliada. Milhares de fortificações, bunkers, trincheiras, baterias de artilharia e obstáculos antitanque foram erguidos, transformando o arquipélago em uma importante posição militar.

Nos primeiros meses da ocupação, os alemães procuraram transmitir uma sensação de normalidade, mantendo cinemas e teatros em funcionamento. Com o prolongamento da guerra, porém, o cotidiano dos moradores mudou drasticamente. A censura passou a controlar a imprensa local, alimentos tornaram-se escassos e diversas normas impostas pelo regime nazista passaram a fazer parte da rotina da população.

A situação foi ainda mais dramática em Alderney, onde os alemães instalaram campos de concentração destinados principalmente a prisioneiros oriundos da União Soviética e da Europa Oriental. O complexo de Lager Sylt ficou sob responsabilidade da SS e é considerado o único sistema de campos de concentração nazistas instalado em território britânico durante a guerra.

Pesquisas históricas apontam que os presos viviam em condições extremamente precárias, submetidos a trabalhos forçados na construção das fortificações da Muralha do Atlântico. A superlotação era constante, com cada detento dispondo de cerca de 1,5 metro quadrado de espaço. Relatos posteriores descrevem espancamentos, execuções e punições exemplares. Uma testemunha contou à revista National Geographic ter visto um homem permanecer enforcado durante dias na entrada do campo, com um cartaz indicando que havia sido executado por roubar pão.

Os efeitos locais

Enquanto isso, parte da população local desenvolveu formas discretas de resistência. Moradores repassavam informações aos Aliados, sabotavam instalações militares e utilizavam dialetos tradicionais das ilhas — como o jersês, o dgèrnésiais e o auregnais — apesar da proibição imposta pelas autoridades alemãs.

Outro episódio controverso envolveu a deportação dos três últimos judeus residentes nas ilhas. Segundo historiadores, as remoções ocorreram com conhecimento das administrações locais e sem oposição efetiva das autoridades britânicas, fato que posteriormente gerou críticas sobre a atuação do governo durante a ocupação.

A construção das fortificações também utilizou milhares de trabalhadores submetidos à Organização Todt, responsável pelas grandes obras de infraestrutura do Terceiro Reich. Muitos eram prisioneiros de guerra ou civis recrutados à força, obrigados a trabalhar em condições degradantes na abertura de túneis, instalação de bunkers e construção de barreiras defensivas.

O número exato de mortos em Lager Sylt permanece desconhecido. Estimativas indicam que mais de mil pessoas morreram no complexo, mas a ausência de documentação completa impede um levantamento definitivo. Parte dessa dificuldade decorre do fato de que, após o conflito, o Reino Unido entregou à União Soviética os arquivos relacionados às vítimas de origem soviética, dificultando investigações posteriores.

A libertação das Ilhas do Canal ocorreu apenas nos momentos finais da guerra. Jersey e Guernsey voltaram ao controle britânico em 1945, enquanto Alderney foi libertada em 9 de maio, um dia após a rendição oficial da Alemanha nazista na Europa.

Atualmente, o período da ocupação continua sendo lembrado como um dos capítulos mais delicados da história britânica durante a Segunda Guerra Mundial. Todos os anos, moradores de Alderney realizam cerimônias em homenagem às vítimas dos campos de concentração, preservando a memória daqueles que sofreram sob o domínio nazista em um território que, apesar de pertencer à Coroa Britânica, permaneceu isolado durante quase cinco anos de ocupação.


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