Família Ovitz: os ‘sete anões’ que sobreviveram a Auschwitz graças a líder nazista
Artistas judeus presos em Auschwitz, a família Ovitz foi submetida a experimentos e sobreviveram graças ao "Anjo da Morte" nazista, Josef Mengele

A história da família Ovitz ocupa um lugar singular entre os relatos de sobrevivência do Holocausto. Formado por 12 pessoas, o grupo foi deportado para o campo de concentração e extermínio de Auschwitz em 1944 e, apesar das baixíssimas chances de escapar com vida, todos os seus integrantes sobreviveram até a libertação do complexo, em janeiro de 1945.
O destino incomum da família esteve diretamente ligado ao interesse do médico nazista Josef Mengele, que os submeteu a diversos experimentos médicos enquanto, ao mesmo tempo, os manteve protegidos da execução.
Dos palcos da Transilvânia à perseguição nazista
A trajetória dos Ovitz começou na Transilvânia, na Romênia. O patriarca da família, Shimson Eizik Ovitz, era um rabino respeitado que apresentava nanismo. Casado duas vezes, ele teve dez filhos, dos quais sete nasceram com a mesma condição física: Rozika, Franzika, Avram, Freida, Micki, Elizabeth e Perla. Os outros irmãos — Sarah, Leah e Arie — não eram anões.
Após a morte de Shimson, em 1923, a viúva passou a buscar formas de garantir o sustento dos filhos. Como o nanismo limitava a possibilidade de trabalharem em atividades agrícolas ou com criação de animais, ela incentivou o grupo a seguir carreira artística.
Assim surgiu a companhia musical e teatral conhecida como “A Trupe Lilliput“. Os irmãos com nanismo atuavam nos espetáculos, enquanto os demais familiares assumiam funções de bastidores, cuidando dos figurinos e dos cenários. Durante aproximadamente 15 anos, a companhia percorreu diferentes regiões da Europa Central, apresentando espetáculos que alcançaram grande sucesso.
O início da Segunda Guerra Mundial alterou completamente esse cenário. Com o avanço do regime nazista, os judeus passaram a ser perseguidos sistematicamente em toda a Europa ocupada. Paralelamente, pessoas com deficiências físicas também se tornaram alvo das políticas de extermínio promovidas pelo Terceiro Reich.
Durante alguns anos, a família conseguiu escapar da captura utilizando documentos falsificados que ocultavam sua origem judaica. A estratégia, porém, deixou de funcionar em 1944, quando os Ovitz foram presos e deportados para Auschwitz.

Confinamento em Auschwitz
A chegada da família ao campo despertou imediatamente o interesse de Josef Mengele, o “Anjo da Morte” nazista. Conhecido pelos experimentos realizados com prisioneiros, o médico nazista mantinha especial interesse por gêmeos, pessoas com características físicas incomuns e indivíduos com nanismo.
Assim que foi informado sobre a presença da família, Mengele foi ao encontro dos recém-chegados.
Nos meses seguintes, os Ovitz passaram a viver uma situação paradoxal dentro de Auschwitz. Diferentemente da maioria dos prisioneiros, receberam um tratamento relativamente privilegiado. Permaneceram em alojamentos próprios, puderam utilizar suas próprias roupas e tinham acesso a uma alimentação melhor do que a oferecida aos demais detentos.
Esse tratamento, entretanto, tinha um objetivo específico: preservar os integrantes da família para que servissem de objeto de estudo. Durante aproximadamente oito meses, Mengele realizou uma série de experimentos médicos sobre os Ovitz, atingindo especialmente as mulheres do grupo.
“Os experimentos mais terríveis de todos foram os ginecológicos”, recordou Elizabeth Ovitz mais tarde. “Eles injetavam substâncias em nosso útero, extraíam sangue, faziam incisões, perfuravam-nos e removiam amostras. A dor era insuportável… é impossível descrever em palavras a dor insuportável que sofremos, que persistiu por muitos dias após o término dos experimentos.”
Além desses procedimentos, Mengele extraiu dentes, retirou amostras de medula óssea, coletou grandes quantidades de sangue e realizou repetidos exames para detectar sífilis. Os integrantes da família também foram submetidos a testes físicos e intelectuais.
Cordialidade e crueldade extrema
Apesar da violência dos experimentos, Mengele manteve os Ovitz protegidos da morte. Em mais de uma ocasião, impediu que fossem enviados para execução, preservando-os para continuar suas pesquisas.
Essa relação produziu uma convivência marcada por contradições. Segundo relatos posteriores, os integrantes da família dirigiam-se ao médico como “Vossa Excelência” e, em determinadas ocasiões, cantavam para ele músicas de sua preferência.
Mengele, por sua vez, demonstrava um comportamento cordial em alguns momentos. Costumava elogiar Frieda e, quando ela deixava de usar maquiagem, comentava: “Você está de mau humor hoje? Por que não usou seu lindo batom vermelho?”
Também levava doces e brinquedos para a família. Em uma dessas ocasiões, o pequeno Shimshon, então com apenas 18 meses, caminhou em direção ao médico chamando-o de “Papai, papai”. Mengele respondeu sorrindo: “Não, eu não sou seu pai, sou apenas o tio Mengele“.

Esses episódios, contudo, coexistiam com demonstrações extremas de crueldade.
Em determinado momento, Mengele obrigou toda a família a tirar as roupas diante de uma plateia composta por integrantes da SS. Em outra ocasião, ordenou que outros anões fossem mortos para que seus esqueletos fossem fervidos e posteriormente exibidos em um museu.
Libertação e marcas da memória
Durante todo o período em Auschwitz, os Ovitz viveram sob a constante expectativa e receio de que sua execução poderia acontecer a qualquer momento.
Essa realidade só terminou em janeiro de 1945, quando as tropas aliadas libertaram o campo. Mengele fugiu antes da chegada dos soldados, enquanto os 12 integrantes da família deixaram Auschwitz vivos.
Após o fim da guerra, os Ovitz retomaram a carreira artística. Mais tarde, emigraram para Israel, onde adquiriram duas salas de cinema. Já Josef Mengele conseguiu escapar da captura e estabeleceu-se na América do Sul, inclusive no Brasil, onde morreu afogado em 1979.

Mesmo após a guerra, a figura do médico permaneceu marcada por uma profunda ambiguidade na memória da família.
Embora reconhecessem os abusos, os experimentos e o sofrimento imposto por ele, os sobreviventes também sabiam que sua intervenção havia impedido que fossem mortos durante o período em que permaneceram em Auschwitz.
“Se os juízes tivessem me perguntado se [Mengele] deveria ser enforcado, eu teria dito para o libertarem”, recordou Perla Ovitz em entrevista posterior. “Fui salva pela graça do diabo; Deus dará a Mengele o que lhe é devido.”
Em seu livro ‘Gigantes: Os Anões de Auschwitz: a História Extraordinária da Trupe Lilliput’, Perla refletiu sobre o papel que o nanismo desempenhou em sua sobrevivência.
Enquanto milhões de judeus foram assassinados nas câmaras de gás, a condição física da família despertou o interesse científico de Mengele e acabou adiando indefinidamente sua execução, repercute o All That’s Interesting.
“Se eu fosse uma garota judia saudável, [com 1,78 m de altura], teria sido morta em uma câmara de gás como as centenas de milhares de outros judeus no meu país”, disse ela. “Então, se eu alguma vez me perguntasse por que nasci anã, minha resposta seria que minha deficiência, minha deformidade, foi a única maneira que Deus encontrou para me manter viva.”
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