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As contribuições da Escócia para os britânicos na Segunda Guerra

Primeira região do Reino Unido a ser bombardeada pelos nazistas, a Escócia desempenhou um papel estratégico durante o conflito

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Mobilização de trabalhadores durante o bombardeio de Glasgow - Getty Images

A posição geográfica da Escócia, voltada para o Mar do Norte e próxima às rotas marítimas do Atlântico, transformou o país em um dos pilares da estratégia britânica durante a Segunda Guerra Mundial. Além de fornecer tropas, navios e infraestrutura logística, a região abrigou centros de treinamento de agentes secretos, fortalezas costeiras e projetos militares ultrassecretos, incluindo experimentos com armas biológicas que permaneceram em sigilo durante décadas.

O envolvimento escocês no conflito começou logo nos primeiros meses da guerra. Em 16 de outubro de 1939, pouco mais de um mês após a invasão da Polônia pela Alemanha, a Luftwaffe realizou o primeiro bombardeio contra território britânico. O alvo principal foi a base naval de Rosyth, localizada no estuário do rio Forth, na costa leste da Escócia. A ofensiva também atingiu áreas próximas a Edimburgo e marcou o início da campanha aérea alemã contra o Reino Unido.

Os ataques contra a Escócia

Nos meses seguintes, os ataques tornaram-se mais frequentes, principalmente contra cidades industriais e portuárias. O episódio mais devastador foi o chamado Clydebank Blitz, realizado em março de 1941. Durante dois dias de bombardeios intensos, aproximadamente 35 mil pessoas ficaram desabrigadas, cerca de 12 mil residências foram destruídas ou severamente danificadas e mais de 500 moradores morreram. A BBC descreveu a destruição afirmando que praticamente nenhum estabelecimento comercial da cidade escapou dos ataques.

Outras localidades escocesas também sofreram bombardeios significativos. Greenock registrou cerca de 280 mortes durante os ataques de maio de 1941, enquanto Aberdeen, Dundee e outras cidades industriais também foram atingidas, embora em menor escala.

A importância estratégica da Escócia, contudo, ia muito além da resistência aos bombardeios. O país tornou-se um dos principais centros de defesa do Reino Unido. Ao longo da guerra, fortalezas costeiras, baterias antiaéreas e sistemas de vigilância foram instalados em pontos estratégicos para proteger a costa contra possíveis invasões.

Entre as contribuições tecnológicas, destaca-se o trabalho do engenheiro escocês Robert Watson-Watt, considerado um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do radar moderno. A tecnologia desempenhou papel decisivo na Batalha da Grã-Bretanha ao permitir a detecção antecipada das aeronaves alemãs. Outro escocês de destaque foi Hugh Dowding, comandante do Fighter Command da Royal Air Force (RAF), cuja liderança foi fundamental para impedir a superioridade aérea da Luftwaffe sobre o território britânico.

Implicações para o país

No campo político, a guerra também provocou profundas mudanças internas. Em 1941, Winston Churchill nomeou Tom Johnston como secretário de Estado para a Escócia. Sob sua administração, foram ampliados os investimentos em hospitais, infraestrutura e políticas públicas voltadas ao esforço de guerra.

O rígido sistema de racionamento implantado pelo governo britânico acabou produzindo um efeito inesperado: a melhora das condições nutricionais de parte da população. Estudos posteriores apontaram aumento na saúde infantil e no desenvolvimento físico de crianças e adolescentes durante os anos do conflito, resultado de uma distribuição mais equilibrada dos alimentos disponíveis.

Enquanto isso, nas Highlands escocesas, longe dos centros urbanos, funcionava uma das instalações mais secretas da guerra. Em meio às montanhas do Parque Nacional de Cairngorms operava o STS 26, uma das escolas clandestinas do Special Operations Executive (SOE), organização criada por Churchill em 1940 para coordenar espionagem, sabotagem e apoio aos movimentos de resistência nos territórios ocupados pelos nazistas.

O centro de treinamento funcionava em Drumintoul Lodge, antiga propriedade de caça adaptada para preparar agentes que seriam enviados a missões extremamente perigosas. O complexo fazia parte de uma rede de instalações que incluía também Glenmore e Forest Lodge, cada uma dedicada a habilidades específicas.

Os recrutas aprendiam técnicas de explosivos, sabotagem, tiro, sobrevivência, comunicações clandestinas e combate corpo a corpo, incluindo métodos de eliminação silenciosa de adversários. O objetivo era capacitá-los para operar atrás das linhas inimigas, muitas vezes sem qualquer possibilidade de reforço ou resgate.

Entre os agentes treinados nessas instalações estavam integrantes da Companhia Independente Norueguesa, responsável pela célebre Operação Gunnerside, que sabotou a usina de Vemork, na Noruega ocupada, comprometendo a produção de água pesada utilizada pelo programa nuclear alemão.

A eficiência do SOE irritava profundamente Adolf Hitler. Em 1942, o líder nazista determinou que agentes capturados fossem executados imediatamente, sem julgamento, por meio da chamada Kommandobefehl, a “Ordem dos Comandos”, que desrespeitava as normas internacionais sobre prisioneiros de guerra.

Comandos do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial/ Crédito: War Office official photographer/Wikimedia Commons

O SOE também ficou conhecido pelo elevado número de mulheres empregadas em missões secretas, especialmente na França ocupada. Embora fossem minoria em relação aos homens, diversas agentes desempenharam papéis decisivos na organização da resistência, no envio de informações estratégicas e em operações de sabotagem.

A guerra ainda levou o Reino Unido a adotar medidas inéditas em relação à mobilização feminina. Em 1941, mulheres solteiras passaram a ser convocadas para o serviço nacional obrigatório, podendo atuar em fábricas, serviços auxiliares das Forças Armadas, defesa civil e outras atividades consideradas essenciais para o esforço de guerra.

No front militar, a Escócia também contribuiu com algumas das unidades mais tradicionais do Exército Britânico. A 51ª Divisão Highland participou das campanhas do Norte da África, da Normandia e da libertação da Europa Ocidental. Outros regimentos escoceses, como a Scots Guards e o Royal Scots Regiment, combateram em diferentes frentes do conflito.

Segundo estimativas históricas, aproximadamente 57 mil escoceses morreram durante a Segunda Guerra Mundial. Além das perdas humanas, os portos de Glasgow e Leith desempenharam papel essencial na movimentação de tropas, armamentos e suprimentos vindos da América do Norte e destinados às forças aliadas na Europa.

Polêmica com Antraz

Entretanto, um dos capítulos mais controversos da participação escocesa permaneceu oculto por décadas. Em 1942, o governo britânico adquiriu a pequena ilha de Gruinard, na costa noroeste da Escócia, para realizar testes secretos com armas biológicas.

Ali foi conduzida a chamada Operação Vegetarian, coordenada por cientistas de Porton Down, centro britânico especializado em pesquisas químicas e biológicas. O plano previa contaminar bolos de linhaça com esporos de antraz e lançá-los sobre áreas de criação de gado na Alemanha. A expectativa era que os animais fossem infectados e transmitissem a doença aos seres humanos por meio do consumo da carne contaminada.

Os testes realizados em Gruinard utilizaram dezenas de ovelhas e comprovaram o alto potencial letal da bactéria. Embora milhões de iscas contaminadas tenham sido produzidas, o plano jamais foi executado. O avanço das forças aliadas após o Dia D reduziu a necessidade da operação, que acabou sendo abandonada antes de entrar em prática.

Como consequência dos experimentos, a ilha permaneceu contaminada por décadas. O acesso foi proibido pelo Ministério da Defesa britânico até que um amplo processo de descontaminação fosse concluído. Apenas em 1990 Gruinard foi oficialmente declarada segura para visitação.

Hoje, a participação da Escócia na Segunda Guerra Mundial é lembrada tanto por sua importância estratégica quanto pelos dilemas éticos que marcaram o conflito.


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