A Esposa Raposa: entre o folclore chinês e o fim de um império
Em entrevista, a escritora Yangze Choo fala sobre a influência da mitologia chinesa em seu novo romance: A Esposa Raposa

A escritora Yangsze Choo sempre foi fascinada pelas histórias de raposas sobrenaturais presentes no folclore do Leste Asiático. Leitora dessas narrativas desde a infância, ela cresceu cercada por lendas sobre criaturas capazes de assumir forma humana e transitar entre o mundo espiritual e o terreno. Décadas depois, esse interesse se transformou em A Esposa Raposa, romance que combina fantasia, mistério e ficção histórica ambientado nos últimos anos da dinastia Qing, período que marcou o fim do Império Chinês.
Em entrevista ao Aventuras na História, a autora explicou que a ideia de narrar uma história pelo ponto de vista de uma raposa surgiu muito antes da escrita do livro. Segundo Choo, o culto às raposas existe há séculos na cultura chinesa e ocupa um lugar importante na literatura e na mitologia de países como China, Coreia e Japão.
Eu pensava em escrever um livro do ponto de vista de uma raposa havia muito tempo”, afirmou. “Quando era criança, adorava ler essas histórias e sempre me perguntava por que essas criaturas tão perigosas e fascinantes insistiam em se aproximar dos humanos e como seriam suas vidas quando estavam longe de nós.”
As origens de A Esposa Raposa
A escritora conta que não elaborou um planejamento detalhado para a obra. Ao começar a escrever, a voz da protagonista, a raposa Snow, surgiu naturalmente e passou a conduzir a narrativa. Para ela, acompanhar esse processo foi uma das experiências mais divertidas durante a criação do romance.
Um dos aspectos que mais despertam o interesse da autora é a forma como o folclore chinês trata as criaturas metamórficas. Diferentemente de figuras populares da tradição ocidental, como os lobisomens — seres humanos que se transformam em animais —, as raposas da mitologia chinesa percorrem o caminho inverso.
“Elas são animais que assumem uma forma humana”, explicou. “Isso acontece também com outras criaturas do folclore asiático, como tigres e até guaxinins capazes de se transformar.”
Segundo Choo, essa característica está ligada às influências do taoismo, corrente filosófica na qual a transformação é vista como um processo natural e desejável. Nesse universo, mudanças constantes fazem parte da evolução dos seres.
“Uma cobra pode tornar-se um dragão. Uma pedra pode transformar-se em um macaco. A ideia da mutabilidade é bem-vinda, porque representa um caminho para alcançar um estado superior de existência”, afirmou.
Mesmo assim, a autora ressalta que procurou preservar a natureza essencialmente não humana das raposas durante toda a narrativa. Embora consigam imitar comportamentos humanos, elas continuam enxergando o mundo sob uma perspectiva diferente.
“Elas possuem uma aparência de humanidade, mas, no fundo, são outras criaturas. Eu queria que esse sentimento de alteridade estivesse sempre presente no romance.”
Um Império em ruínas
Outro elemento importante da obra é seu contexto histórico. A Esposa Raposa se passa durante os últimos anos da dinastia Qing, período marcado por profundas transformações políticas e sociais que culminaram no fim do império e no nascimento da China moderna.
Para Choo, esse cenário era o mais adequado para inserir personagens sobrenaturais como raposas e fantasmas, figuras que tradicionalmente aparecem em momentos de instabilidade nas narrativas chinesas.
“Essas criaturas costumam surgir em épocas de caos. Por isso achei que o final da última dinastia imperial seria o cenário ideal para a história”, explicou.

Inicialmente, a escritora cogitou ambientar o romance em uma época mais antiga, mas concluiu que o início do século XX oferecia possibilidades narrativas mais interessantes, especialmente diante das mudanças tecnológicas que começavam a transformar a sociedade.
Entre essas transformações, ela destaca o surgimento da fotografia e o fortalecimento dos registros burocráticos, elementos que levantam um problema curioso para criaturas praticamente imortais.
“No livro, as raposas discutem como tecnologias como a fotografia e a documentação oficial afetam seres que vivem durante séculos”, contou. “Parte do humor e também da tragédia da história está justamente no fato de que elas precisam lidar com burocracia, documentos e regras administrativas como qualquer outra pessoa.”
Embora o romance faça referência a figuras históricas, como a imperatriz viúva Cixi — uma das personagens mais influentes do fim da dinastia Qing —, Choo afirma que seus protagonistas não foram inspirados em pessoas reais.
“As raposas mencionam algumas figuras históricas, mas elas não se interessam muito pelos humanos, a menos que interfiram diretamente em suas vidas. Achei divertido mostrar esse olhar distante que elas têm sobre a sociedade humana.”
Além da fantasia e da ficção histórica, A Esposa Raposa também incorpora elementos típicos dos romances policiais. Leitora de Agatha Christie e P. D. James desde a juventude, Choo admite ter uma antiga paixão pelo gênero.
“Sempre adorei romances de detetive. Existe algo muito envolvente em acompanhar um mistério e tentar descobrir quem cometeu o crime”, disse.
Curiosamente, ela afirma que não planejou escrever uma história investigativa. Segundo a autora, percebeu que havia criado um detetive apenas enquanto escrevia.
“Foi quando digitei as palavras ‘o detetive’ que pensei: ‘Há um detetive neste romance’. Isso me deixou muito feliz.”
Para Choo, o gênero policial funciona como uma excelente ferramenta para conduzir o leitor por uma jornada de descobertas, algo que também combina com a personalidade curiosa das raposas de sua história.
“No fim das contas, o que torna uma narrativa interessante é a vontade de acompanhar os personagens em sua busca por respostas. O romance policial é um excelente veículo para isso. E, convenhamos, combina perfeitamente com a curiosidade incorrigível das raposas.”