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O diário medieval de 700 anos encontrado em latrina na Alemanha

Preservado em uma bolsa descoberta na Alemanha, o caderno de cera manteve inscrições em latim intactas mesmo após mais de sete séculos enterrado

Caderno medieval descoberto na Alemanha / Crédito: Divulgação/Archaeology for Westphalia/E. Daood

Um pequeno caderno de cera preservado por mais de 700 anos no interior de uma latrina medieval está oferecendo aos arqueólogos uma rara oportunidade de investigar aspectos da vida cotidiana na Alemanha durante a Idade Média.

A peça, protegida por uma bolsa de couro selada, foi encontrada durante escavações realizadas em Paderborn e chamou a atenção pelo excepcional estado de conservação: suas dez páginas permanecem intactas, com inscrições em latim ainda legíveis e a camada de cera praticamente preservada.

A descoberta foi feita por pesquisadores da Associação Regional de Vestfália-Lippe (LWL), que investigavam o terreno antes da construção de um novo edifício administrativo. O achado foi anunciado em maio e, segundo os especialistas, trata-se de um dos exemplos mais bem preservados desse tipo de objeto já encontrados.

“O estado de conservação da tabuleta surpreendeu a todos nós”, afirma a arqueóloga Sveva Gai, responsável pela escavação. “Descobertas como essa são extremamente raras e raramente foram preservadas no solo em condições tão impecáveis.”

Páginas do caderno / Crédito: Divulgação/LWL/ S. Brent Ieader

O acidente que atravessou séculos

Os pesquisadores acreditam que o caderno tenha sido perdido acidentalmente entre os séculos 13 e 14. A hipótese é que seu proprietário, possivelmente um estudante, membro do clero ou cidadão de posição social elevada, utilizava a latrina quando o objeto, guardado em uma pequena bolsa de couro, escapou de suas mãos e caiu no poço, permanecendo enterrado por mais de sete séculos.

O livreto mede aproximadamente 10 centímetros de altura por 7,5 centímetros de largura. Em seu interior, cada uma das dez páginas é formada por uma moldura de madeira preenchida com uma camada de cera, utilizada como superfície de escrita.

A madeira não estava deformada, a cera ainda estava intacta e a escrita ainda é claramente legível”, explica Gai. Segundo a pesquisadora, a conservação foi tamanha que “permitindo que as linhas apagadas sejam decifradas”.

Os estudiosos consideram que o objeto poderá oferecer novas informações sobre a alfabetização, os hábitos de escrita e as atividades administrativas na Alemanha medieval.

“É uma descoberta espetacular”, afirma Anna Willi, historiadora da Antiguidade e arqueóloga do Museu Britânico, que não participou da pesquisa. “Estou convencida de que se tornará ainda mais fascinante à medida que for estudada a fundo e revelar seus segredos.”

Escrita na Antiguidade

Os chamados cadernos de cera possuem uma longa tradição histórica. Sua utilização remonta ao terceiro milênio antes de Cristo, na antiga Mesopotâmia, e posteriormente se difundiu por civilizações como Egito, Grécia e Roma. Antes da ampla disseminação do papel na Europa, esses objetos constituíam um dos principais instrumentos para anotações, rascunhos e registros temporários.

No período romano, mosaicos já retratavam pessoas utilizando grandes tábuas de cera em tarefas administrativas, enquanto escavações arqueológicas revelaram exemplares confeccionados em madeira, metal e terracota. Os menores modelos, conhecidos como vitellianai, mediam cerca de 10 centímetros e, em alguns casos, eram oferecidos como presentes durante festividades.

Apesar da frequência com que aparecem nas fontes históricas, exemplares completos são extremamente raros. Em geral, os objetos encontrados chegaram aos dias atuais bastante degradados, sem a camada de cera e incompletos.

“Enquanto o pergaminho precioso [feito de peles de animais] era geralmente reservado para a versão final de um texto, as tábuas de cera, nas quais os erros podiam ser facilmente corrigidos, serviam para anotações e rascunhos”, explica Svea Janzen, historiadora de arte da Universidade Friedrich Schiller de Jena. “Sendo assim, as tábuas de escrita eram frequentemente usadas pelas administrações municipais ou para a contabilidade real.”

Uma das latrinas escavadas / Crédito: Divulgação/Denkmal3d/Heike Tausendfreund

Segundo Janzen, pequenos cadernos como o encontrado em Paderborn também serviam para registrar listas, cálculos, notas comerciais, poemas e orações.

A escrita era realizada com estiletes produzidos em materiais como osso, madeira, metal ou marfim. Uma das extremidades possuía ponta afiada para gravar o texto sobre a cera, enquanto a outra era achatada, permitindo nivelar a superfície e apagar as inscrições. Quando necessário, bastava aquecer levemente a cera para reutilizar completamente a página.

O cotidiano revelado

Na Alemanha medieval, objetos desse tipo costumavam circular principalmente entre pessoas alfabetizadas pertencentes às camadas sociais mais elevadas.

De acordo com Gai, isso indica que o proprietário “poderia ter sido um clérigo ou um cidadão de uma classe social mais alta, ou talvez um estudante que fazia exercícios no livro”.

A descoberta ocorreu em um terreno que, segundo pesquisas anteriores, abrigou um mosteiro fundado no início do século 11 e que posteriormente teve parte de suas instalações arrendadas para uso público.

Durante a escavação, os arqueólogos identificaram cinco antigas latrinas, além de diversos objetos preservados pelo ambiente constantemente úmido, entre eles sapatos, fragmentos de barris, partes de um arco, uma bainha de faca e pequenos pedaços de seda bordada, possivelmente utilizados como papel higiênico.

Uma das latrinas encontrava-se completamente selada. Segundo Gai, ela “ainda tinha um odor forte e fétido”.

A equipe escavou cerca de cinco metros de profundidade na lama antes de localizar a discreta bolsa de couro contendo o caderno. Após sua abertura, constatou-se que as páginas permaneciam praticamente intactas.

Bolsa de couro em que o caderno foi encontrado / Crédito: Divulgação/LWL/S. Bretzel

As inscrições estão escritas em latim e apresentam diferentes estilos caligráficos, sugerindo que mais de uma pessoa pode ter utilizado o objeto ao longo do tempo. A escrita também corresponde aos padrões encontrados em documentos produzidos na mesma época em outras regiões da Alemanha.

Os pesquisadores observam ainda que diversos objetos medievais preservados em boas condições foram encontrados anteriormente em antigas latrinas, justamente porque o ambiente úmido favorece sua conservação. Ainda assim, segundo Gai, “em nenhum desses casos, porém, foi encontrado um livreto completo em tão excelente estado de conservação”.

Outro detalhe chamou a atenção dos especialistas: a bolsa de couro que protegia o caderno apresenta estampas com motivos de lírios, símbolo tradicionalmente associado à pureza e frequentemente utilizado pela nobreza medieval, segundo o National Geographic.

Para Anna Willi, esse aspecto torna a história ainda mais intrigante. “Se caíram lá por acidente, o dono deve ter ficado muito irritado, mas não posso culpá-lo por não tentar recuperá-las.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.