A escultura de Cleópatra que desapareceu por um século e foi usada como lápide de cavalo

Escultura feita por artista americana em meados do século 19 estava sendo utilizada para marcar túmulo de cavalo

A Morte de Cleópatra, que retrata a rainha momentos após seu suicídio, é criação artística de Edmonia Lewis (à direita) - Crédito: Domínio público

Volta e meia ouvimos falar de obras que são redescobertas após anos desaparecidas. Em alguns casos, estão em jogo peças muito famosas e queridas pelo público. É o caso da esculturaA Morte de Cleópatra“, feita por Edmonia Lewis, uma mulher que viveu entre meados do século 19 e início do 20. A peça monumental teve sua história contada em um vídeo publicado no TikTok pela criadora de conteúdo Symantha Onyechi (@ooopolish), que já soma mais de 94 mil visualizações. Na publicação, ela apresenta a monumental escultura de mármore concluída por Lewis em 1876 e explica por que a representação da rainha egípcia se destaca entre tantas outras produzidas ao longo da história da arte.

Enquanto inúmeras pinturas e esculturas mostram Cleópatra como uma figura bela e pacífica após tirar a própria vida, Edmonia Lewis optou por um caminho diferente. Ela retrata a rainha morta, ainda sentada no trono. Apesar disso, sua postura transmite autoridade. Como destaca o portal All That’s Interesting, a ideia por trás disso é que a grande rainha do Egito seguiu sendo dona do próprio destino até seus últimos instantes.

Enfrentando preconceitos

A escultora por trás dessa interpretação nasceu em 1844, no estado de Nova York. Era filha de uma mulher de ascendência afro-americana e de um homem ligado ao povo indígena Mississauga Ojibwe e cresceu enfrentando preconceitos raciais e de gênero em uma sociedade profundamente marcada pela discriminação.

Mesmo quando começou a conquistar reconhecimento artístico, Edmonia Lewis ainda precisava provar constantemente sua capacidade. O motivo? Seu ateliê recebia inúmeros visitantes, mas muitos deles não estavam interessados apenas em admirar suas esculturas: queriam verificar se era realmente Lewis quem executava obras tão complexas em mármore, já que a ideia de que uma mulher negra pudesse produzir esculturas monumentais com alto grau de detalhamento parecia inacreditável para parte do público da época. Para enfrentar esse preconceito, Lewis passou a trabalhar frequentemente diante dos visitantes.

Para Roma

Antes da fama, a artista estudou no Oberlin Collegiate Institute, instituição que mais tarde se transformaria no Oberlin College. Mas sua trajetória acadêmica seria logo interrompida.

Acontece que, em 1862, Lewis foi acusada de envenenar duas colegas brancas. Não havia provas e as acusações acabaram sendo arquivadas. No entanto, o estrago já estava feito. Pouco depois, a jovem artista foi sequestrada e violentamente espancada por uma multidão branca. Embora tenha sobrevivido ao ataque, o episódio a marcou profundamente. Por isso, alguns anos depois, decidiu deixar os Estados Unidos e estabelecer-se em Roma, na Itália. Segundo relatos da época, Lewis costumava dizer que a chamada “terra da liberdade” não oferecia espaço para uma escultora negra desenvolver seu trabalho.

Em Roma, porém, sua carreira floresceu. Lá, integrando uma comunidade internacional de artistas, ela passou a produzir esculturas inspiradas em temas como a emancipação dos escravizados, a história afro-americana, a cultura indígena, bem como em personagens históricos. Mais tarde, em 1876, concluiu “A Morte de Cleópatra”, uma escultura em mármore de grandes proporções que chamou atenção do público durante a Exposição do Centenário, realizada na Filadélfia para celebrar os cem anos da independência dos Estados Unidos. Dois anos depois, a obra voltou a ser exibida na Exposição Interestadual de Chicago. Depois disso, porém, seu paradeiro tornou-se um mistério.

O destino da obra

As informações sobre o destino da escultura nas décadas seguintes são fragmentadas, mas acredita-se que ela tenha sido enviada para um salão antes de passar para as mãos de John Condon, um famoso apostador e proprietário de cavalos de corrida conhecido como “Blind John”.

A Pista de Corrida de Harlem em Forest Park, Illinois, em 1901 – Crédito: Domínio público

Condon tomou uma decisão bastante inusitada: utilizou a escultura como monumento funerário para sua égua favorita, chamada justamente Cleópatra. A peça foi instalada nas proximidades da arquibancada de um hipódromo localizado em Forest Park, nos arredores de Chicago.

A situação piorou com o passar do tempo. Quando o hipódromo foi transformado em campo de golfe, a escultura permaneceu no terreno e acabou servindo de alvo para jogadores. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos adquiriu a área para construir uma fábrica de torpedos da Marinha. Mais uma vez, a escultura foi removida e terminou abandonada em um ferro-velho.

Foi ali que chamou a atenção de Harold Adams, bombeiro aposentado e líder de escoteiros, que, impressionado com a imponência da peça, percebeu que aquela escultura merecia ser preservada. Adams e seu grupo tentaram restaurá-la por conta própria e chegaram a cobri-la com tinta branca, mas a iniciativa bem-intencionada acabou dificultando o trabalho dos restauradores profissionais anos depois.

Somente em 1994 a escultura passou a integrar a coleção do Smithsonian American Art Museum, onde recebeu um cuidadoso processo de conservação que recuperou parte de sua aparência original. Mas, apesar disso, ainda levaria um tempo até que a artista Edmonia Lewis fosse resgatada pela historiografia tradicional. Com sua morte, em 1907, seu ateliê desapareceu, e, assim, muitas de suas obras também foram levadas a destinos desconhecidos. Foi somente nos últimos anos que pesquisadores decidiram resgatar sua trajetória. Esse movimento culminou na exposição itinerante “Edmonia Lewis: Said in Stone”, dedicada à vida e à produção artística da escultora, que reúne algumas de suas principais obras. A exposição poderá ser contemplada no Museu de Arte da Geórgia e depois no Museu de Arte da Carolina do Norte, de agosto deste ano a julho de 2027.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.