Conheça as beguinas, mulheres que, na Idade Média, viviam de uma forma alternativa
Até o século 13, as mulheres europeias tinham apenas duas opções de escolha: o casamento ou o convento; as beguinas, no entanto, trouxeram uma terceira possibilidade

Você já ouviu falar nas beguinas? Elas foram mulheres religiosas que, em vez de fazerem votos formais, reuniam-se em comunidades e dedicavam seus dias à oração, ao trabalho e ao serviço ao próximo. Dessa forma, não abriam mão completamente de sua autonomia, isso em uma época em que a maioria das mulheres tinha poucas possibilidades de escolha: casar-se com um homem ou entrar para um convento.
Apesar da ideia frequente de que as mulheres medievais tinham participação limitada na sociedade, a realidade era mais complexa. Na verdade, ao longo da Idade Média, elas desempenharam funções na agricultura, na produção têxtil, na fabricação de cerveja, nos serviços domésticos e nos negócios familiares. Além disso, quando ficavam viúvas, muitas também passavam a administrar propriedades e empresas. Essas possibilidades no entanto não eram para todas.
As chamadas beguinagens, ou seja, as casas onde se reuniam as beguinas, surgiram a partir do século 13, justamente para oferecer uma terceira possibilidade às mulheres. Como explica a criadora de conteúdo Neloo Naderi, em um vídeo que ultrapassou 312 mil visualizações no TikTok, muitas dessas comunidades independentes passaram a ser vistas em cidades como Bruges, Gent e Antuérpia, localizadas na atual Bélgica.
As comunidades eram organizadas em torno de pequenas casas distribuídas ao redor de jardins e pátios compartilhados. Porém, diferentemente dos conventos, as beguinagens permitiam que suas integrantes levassem uma rotina relativamente flexível. Primeiro que as beguinas sustentavam-se por meio do próprio trabalho. Muitas dedicavam-se à tecelagem, ao cuidado de doentes, à educação de crianças e a outras atividades úteis para a população local. Paralelamente, cuidavam da manutenção das comunidades e participavam de momentos de oração e reflexão religiosa.
De acordo com o portal All That’s Interesting, o que mais distinguia esse modo de vida era a ausência de votos permanentes. Enquanto as freiras faziam compromissos irrevogáveis de pobreza, obediência e castidade, as beguinas apenas prometiam manter a castidade enquanto permanecessem na comunidade. Além disso, podiam possuir bens, administrar propriedades e, caso desejassem deixar a comunidade para se casar, eram livres para fazê-lo.
Desconforto na Igreja
O sucesso das beguinagens fez com que elas se espalhassem rapidamente pela Alemanha, pelo norte da França, pelos Países Baixos e por outras regiões da Europa. No entanto, seu crescimento também despertou desconfiança dentro da Igreja.
No início do século 14, parte das autoridades eclesiásticas passou a associar algumas beguinas a movimentos considerados heréticos, especialmente à chamada Heresia do Espírito Livre. Durante o Concílio de Vienne, realizado entre 1311 e 1312, determinados grupos foram acusados de disseminar ideias incompatíveis com a doutrina cristã e de influenciar negativamente os fiéis.
Uma das figuras mais conhecidas ligadas a esse contexto foi a mística francesa Marguerite Porete. Autora da obra O Espelho das Almas Simples, ela defendia uma profunda união espiritual entre a alma humana e Deus. Suas ideias foram consideradas heréticas pelas autoridades religiosas. Porete foi julgada e condenada à fogueira em 1310, enquanto grande parte das cópias de seu livro acabou destruída.
Um período de mudanças
A repressão provocou medo entre diversas comunidades de beguinas, mas não significou o desaparecimento imediato do movimento. Na verdade, a própria decisão papal emitida após o Concílio de Vienne deixou margem para interpretações. Em uma bula publicada pelo papa Clemente V, ficava claro que mulheres piedosas que desejassem viver em humildade e penitência não estavam necessariamente proibidas de permanecer em suas comunidades.
Essa brecha permitiu que muitas beguinas continuassem existindo por séculos. Sem uma estrutura centralizada, porém, diversas comunidades preferiram dissolver-se para evitar perseguições. Outras optaram por integrar ordens religiosas já reconhecidas, como os dominicanos e os franciscanos.
Nos séculos seguintes, mudanças políticas, sociais e religiosas contribuíram para o enfraquecimento gradual das beguinagens. A ampliação das possibilidades de atuação feminina reduziu a necessidade desse modelo de vida, enquanto a ocupação francesa em diversas regiões da Europa levou ao fechamento de comunidades e ao confisco de seus bens.
Mas a tradição perdurou muito além da Idade Média: uma mulher conhecida como a última beguina faleceu apenas em 2013. Além disso, mesmo que a tradição tenha desaparecido, diversas beguinagens sobreviveram ao tempo e atualmente integram a lista de Patrimônio Mundial da UNESCO.