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Rascunho original da Declaração de Independência é exibido nos EUA

Exposição na Biblioteca do Congresso revela o manuscrito original de Thomas Jefferson e as mudanças feitas antes da versão final

Litografia retratando a assinatura da Declaração da Independência dos EUA / Crédito: Divulgação/Biblioteca do Congresso

Thomas Jefferson escreveu o primeiro rascunho da Declaração de Independência dos Estados Unidos em 1776, mas o texto que entrou para a história passou por dezenas de alterações antes de sua aprovação definitiva. Agora, visitantes da Biblioteca do Congresso, em Washington, podem acompanhar esse processo de elaboração por meio da exposição “The Promise of the Declaration: A Revolutionary Idea”, que reúne o raro manuscrito original do documento ao lado de outros 120 itens históricos.

A mostra, inaugurada no mês passado, apresenta o rascunho completo redigido por Jefferson, permitindo observar as mudanças feitas ao longo do texto antes da versão final ser adotada pelo Congresso Continental. Entre os materiais exibidos estão livros, recortes de jornais, charges políticas e outros documentos considerados fundamentais para a formação dos Estados Unidos.

“Este é o rascunho completo de Jefferson”, afirmou Ryan Reft, curador principal da exposição, à CBS News. “É possível ver as mudanças de palavras ao longo do texto, e como o rascunho inicial foi sendo refinado até chegar à versão que conhecemos hoje.”

Embora Jefferson tenha sido o principal autor da Declaração de Independência, o texto passou por 86 revisões realizadas por figuras como Benjamin Franklin, John Adams e, posteriormente, pelos integrantes do Congresso Continental. Como resultado, a versão definitiva ficou várias centenas de palavras menor do que o manuscrito original.

Parte das alterações buscava tornar o texto mais claro ou conciso. Expressões como “neglected utterly” foram reorganizadas para “utterly neglected”, enquanto “a people who mean to be free” foi reduzida para “a free people”. Outras mudanças incluíram a substituição de “unremitting” por “repeated” e a retirada de advérbios considerados desnecessários.

Algumas revisões, contudo, tiveram consequências muito mais amplas. Na primeira versão, Jefferson afirmava que os direitos dos americanos eram “sagrados e inegáveis”, expressão posteriormente substituída por “autoevidentes”. Da mesma forma, o termo “súditos” deu lugar a “cidadãos”.

Uma das mudanças mais significativas foi a exclusão de um trecho inteiro que responsabilizava o rei George III pelo tráfico de pessoas escravizadas. No rascunho, Jefferson escreveu que a Coroa “travou uma guerra cruel contra a própria natureza humana, violando seus direitos mais sagrados à vida e à liberdade nas pessoas de um povo distante que nunca o ofendeu, capturando-os e levando-os à escravidão em outro hemisfério, ou para sofrer uma morte miserável em seu transporte para lá”, além de ter frustrado “toda tentativa legislativa das colônias de proibir ou restringir esse comércio execrável”.

Segundo a historiadora Jill Lepore, da revista The New Yorker, Jefferson atribuiu a retirada desse trecho aos delegados da Carolina do Sul e da Geórgia. Ela observa que “Jefferson sustentou que a supressão foi feita a pedido de delegados da Carolina do Sul e da Geórgia; historiadores sugeriram que foi necessária porque a passagem era tão patentemente hipócrita a ponto de ser constrangedora”. Lepore acrescenta ainda que “seu apagamento marcou o início de séculos de tentativas políticas de fingir que a escravidão nunca existiu.”

Poucos dias após a ratificação da Declaração, Jefferson escreveu a Richard Henry Lee demonstrando dúvidas sobre o resultado das modificações promovidas durante a elaboração do documento. “Você julgará se é melhor ou pior para os críticos”, escreveu ele, sem saber se as revisões haviam aperfeiçoado o texto.

Antigo jornal com texto final da Declaração da Independência, rascunho original do documento de Thomas Jefferson e cena do Massacre de Borton / Crédito: Divulgação/Biblioteca do Congresso

Outros itens da exposição

Além do manuscrito original, a exposição apresenta exemplares iniciais da versão aprovada da Declaração de Independência, incluindo uma cópia enviada por George Washington a John Hancock para ser lida às tropas reunidas em Nova York, repercute a Smithsonian Magazine.

A mostra também amplia o debate sobre os limites da promessa de igualdade presente na declaração. Entre os documentos expostos estão um rascunho do Discurso de Gettysburg, de Abraham Lincoln, a Declaração de Direitos de Susan B. Anthony, elaborada em defesa do sufrágio feminino, além de discursos produzidos e pronunciados por Martin Luther King Jr. e pelo deputado John Lewis durante o movimento pelos direitos civis.

Segundo Reft, a proposta da exposição vai além da apresentação de objetos históricos. “O objetivo da exposição é “não apenas mostrar itens interessantes, mas também lembrar a todos o que somos, quem somos e por que existimos”. “Neste caso específico, trata-se de uma conversa que começa em 1776 e chega até os dias de hoje.” A exposição permanecerá aberta ao público até julho do próximo ano.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.