Vítor Soares / Queda da Bastilha

A Queda da Bastilha: O dia em que o absolutismo ruiu

Entenda por que o marco da Revolução Francesa vai muito além dos mitos do senso comum

Pintura da Queda da Bastilha, por Jean-Pierre Houël (1735-1813)
Pintura da Queda da Bastilha, por Jean-Pierre Houël (1735-1813) - Bibliothèque nationale de France / Domínio Público, via Wikimedia Commons

O senso comum muitas vezes antagoniza o estudo da História. Isso acontece porque, antes de entrar em contato com a pesquisa histórica, muita gente enxerga o passado de forma determinista e narrativista. Ou seja, acredita que grandes acontecimentos são explicados por grandes causas, quase sempre únicas, simples e fáceis de contar. Uma guerra começaria por causa de um tiro. Uma revolução começaria porque uma prisão foi invadida. Uma nova era histórica começaria em uma tarde específica, com personagens bem definidos, vilões claros e uma multidão consciente de que estava mudando o mundo.

Mas basta pouco tempo estudando História para perceber que a realidade é bem mais complicada do que isso. Os grandes acontecimentos costumam nascer de uma combinação de fatores econômicos, políticos, sociais, culturais e até emocionais. Existem interesses contraditórios, medos coletivos, boatos, disputas internas, crises de autoridade e decisões tomadas no calor do momento. Esse é o caso da Revolução Francesa. Para muitos historiadores, ela marca o início da Idade Contemporânea, não porque o mundo inteiro mudou de uma vez, mas porque ali ganharam força debates que ainda organizam a política moderna: cidadania, direitos, soberania popular, igualdade jurídica, liberdade individual, república, propriedade, esquerda e direita.

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O peso dos símbolos

Reconhecer essa complexidade, porém, não significa diminuir a importância dos grandes eventos. Pelo contrário: significa entender melhor por que alguns acontecimentos se tornam símbolos tão poderosos. A Queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, é um ótimo exemplo disso.

A Bastilha era uma fortaleza medieval construída no século XIV e transformada em prisão no século XVII. Com o tempo, ela passou a ser vista como um símbolo do autoritarismo do Antigo Regime. Era associada ao poder arbitrário da monarquia, especialmente à possibilidade de prender pessoas por ordem do rei, sem os mesmos mecanismos de defesa que hoje associamos a um julgamento regular. Por isso, no imaginário político francês, a Bastilha era simbólica: representava a força de um Estado monárquico que podia agir acima da vontade popular.

Mitos e realidades

Só que aqui aparece a parte anticlimática da História. Quando a Bastilha foi tomada, ela abrigava apenas sete prisioneiros. O marquês de Sade, que muita gente associa à prisão, havia sido transferido poucos dias antes. Portanto, a Queda da Bastilha não foi importante porque libertou centenas de pessoas esquecidas nas masmorras. Sua importância está em outra coisa: ela condensou, em um único ato, uma crise muito maior.

Naqueles dias, Paris vivia um clima explosivo. A população enfrentava fome, carestia e insecurity. Ao mesmo tempo, circulavam rumores de que a aristocracia planejava esmagar a Assembleia Nacional, formada no contexto dos Estados Gerais. Também se espalhava a ideia de que nobres escondiam grãos enquanto o povo passava necessidade. Esses boatos não eram detalhes secundários. Em uma cidade em crise, eles alimentavam o medo e transformavam tensão social em ação política.

Paris fora de controle

A situação piorou quando chegou a notícia da demissão de Jacques Necker, ministro visto como popular e relativamente simpático às reformas. Para muitos parisienses, sua saída indicava que Luís XVI poderia se cercar de ministros autoritários e preparar uma reação contra o movimento revolucionário. Camille Desmoulins discursou no Palais Royal chamando a multidão à resistência. Jean-Paul Marat também agitava setores populares contra a aristocracia. Paris começava a sair do controle da monarquia.

Nos dias seguintes, manifestantes foram reprimidos, barreiras fiscais foram queimadas, depósitos de grãos foram atacados e milícias populares começaram a se organizar. Em 14 de julho, os insurgentes invadiram o Palácio dos Inválidos e conseguiram milhares de fuzis. Mas faltava pólvora e munição. A Bastilha, então, tornou-se também um alvo prático, pois havia rumores de que ali existiam armamentos.

O ponto de virada

Assim, a tomada da Bastilha misturou símbolo e necessidade. Ela foi, ao mesmo tempo, um ataque contra a imagem do absolutismo e uma ação concreta de uma população armada em busca de defesa. A prisão caiu, seu diretor foi morto, e a fortaleza acabou demolida. Suas pedras seriam depois vendidas como relíquias da liberdade.

Por isso, a Queda da Bastilha não explica sozinha a Revolução Francesa. Nenhum evento explica sozinho um processo dessa dimensão. Mas ela revela um ponto de virada: o momento em que a autoridade do rei deixou de parecer intocável. A partir dali, a Revolução não era mais apenas um debate em assembleias ou panfletos. Ela estava nas ruas, nos bairros, nas armas improvisadas e na ação direta de uma população que descobria sua própria força política.