Notícias / Ciência

Estudo revela por que algumas espécies sobreviveram ao pior aquecimento da Terra

Pesquisa mostra como animais marinhos mais resistentes ao calor sobreviveram à maior extinção em massa registrada no planeta

Fóssil de Crinóide - Getty Images

Há cerca de 250 milhões de anos, a Terra passou pelo maior evento de extinção em massa de sua história. Conhecida como extinção do fim do Permiano, a catástrofe eliminou aproximadamente 80% das espécies que viviam nos oceanos e 70% dos animais terrestres. Agora, um novo estudo revela por que alguns grupos conseguiram sobreviver melhor às mudanças extremas que transformaram completamente os ecossistemas do planeta.

Publicado na revista científica PNAS, o trabalho indica que animais marinhos que atualmente dominam os oceanos, como moluscos e peixes, tiveram vantagem durante aquele período porque seus organismos suportaram melhor as condições provocadas pelo aquecimento global intenso e pela redução do oxigênio nas águas.

A pesquisa foi coordenada por Andres Marquez e Erik Sperling, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e reuniu informações de diferentes fontes, incluindo experimentos de laboratório, análises da biodiversidade atual e dados sobre os grupos de animais que enfrentaram a extinção do final do Permiano.

A maior crise da vida na Terra

A extinção do fim do Permiano foi ainda mais devastadora do que o evento que levou ao desaparecimento dos dinossauros. Naquela época, grandes grupos de animais marinhos desapareceram, principalmente aqueles pertencentes ao que os cientistas chamam de “fauna paleozoica”, formada por organismos que dominaram os oceanos durante milhões de anos.

Entre esses animais estavam os crinoides, parentes distantes das estrelas-do-mar, e os braquiópodes, criaturas com conchas duplas semelhantes às dos mariscos, mas com estruturas corporais diferentes. Embora esses grupos ainda existam atualmente, eles perderam espaço após a grande extinção.

Segundo os pesquisadores, a fauna paleozoica perdeu quase 80% de suas famílias durante a crise. Já os grupos chamados de “fauna moderna”, mais parecidos com os animais marinhos atuais, tiveram uma redução inferior a 30%.

A diferença estaria relacionada principalmente à capacidade desses organismos de lidar com as novas condições ambientais.

Aquecimento extremo mudou os oceanos

Os cientistas acreditam que a extinção foi causada por enormes erupções vulcânicas na região onde hoje fica a Sibéria. A atividade liberou grandes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera, intensificando o efeito estufa e provocando um aquecimento global acelerado.

Além do aumento das temperaturas, os oceanos enfrentaram outros problemas: perda de oxigênio e maior acidez da água. Em algumas regiões, a temperatura dos mares chegou a ficar 11°C mais elevada.

Esse cenário criou uma combinação perigosa para os seres vivos. A água mais quente dificulta a dissolução do oxigênio, enquanto o metabolismo dos animais aumenta com o calor, elevando a necessidade de absorver esse elemento.

Além disso, a acidificação dos oceanos dificultou a formação de conchas e estruturas protetoras, afetando especialmente animais que dependiam desses elementos para sobreviver, repercute a Folha de S. Paulo.

Experimentos revelam vantagem dos sobreviventes

Para entender por que alguns grupos resistiram melhor, os pesquisadores analisaram como organismos atuais relacionados aos animais do Permiano respondem ao aumento da temperatura e à diminuição do oxigênio.

Os cientistas compararam o comportamento do marisco Glycymeris septentrionalis, associado à fauna moderna, com o braquiópode Terebratalia transversa, representante de um grupo ligado à fauna paleozoica.

Os testes mostraram que o braquiópode apresentou uma pequena vantagem em situações de baixa disponibilidade de oxigênio quando estava em repouso. Porém, o molusco demonstrou maior capacidade de lidar com o aumento da temperatura.

Quando os pesquisadores analisaram diferentes espécies dos dois grupos em seus ambientes naturais, o padrão ficou mais evidente: os animais da fauna moderna apresentavam maior tolerância ao aquecimento dos oceanos.

Um sistema circulatório fez a diferença

De acordo com os pesquisadores, uma das principais explicações para essa sobrevivência está no desenvolvimento do sistema circulatório desses animais.

Organismos da fauna moderna possuíam estruturas mais eficientes para transportar gases e nutrientes pelo corpo. Essa característica ajudava a compensar o aumento do metabolismo provocado pelas temperaturas mais altas.

Com isso, esses animais conseguiram enfrentar melhor uma das maiores transformações ambientais já registradas na história da Terra.

O estudo mostra que, durante grandes crises climáticas, não basta analisar apenas a intensidade das mudanças. A capacidade dos organismos de responder rapidamente às novas condições também pode definir quais espécies sobrevivem e quais desaparecem.

A descoberta ajuda cientistas a compreender como a vida responde a períodos extremos de aquecimento e pode oferecer pistas importantes para avaliar os impactos das mudanças ambientais atuais.


*Sob supervisão de Éric Moreira