Porto Rico: um território estratégico na Segunda Guerra
Terra americana desde 1898, Porto Rico abrigou importantes bases navais, enviou dezenas de milhares de soldados ao conflito

Embora os principais combates da Segunda Guerra Mundial tenham ocorrido longe do Caribe, Porto Rico desempenhou um papel relevante na estratégia militar dos Estados Unidos. Na década de 1940, quando ainda era um território não incorporado americano, a ilha tornou-se um dos principais centros de apoio logístico da Marinha dos Estados Unidos no Atlântico, servindo como base para operações, treinamento de tropas e manutenção de embarcações que atuavam tanto no Caribe quanto em outras frentes do conflito.
Na época, Porto Rico possuía aproximadamente 1,9 milhão de habitantes. Sua posição geográfica, na entrada do Mar do Caribe e próxima às principais rotas marítimas do Atlântico Ocidental, fez da ilha um ponto estratégico para a defesa das Américas. Uma das principais instalações militares era a Roosevelt Roads Naval Station, localizada na costa leste, que funcionava como centro de treinamento, reparo de navios e apoio logístico às operações navais. A base permaneceu em atividade até 2004 e atualmente abriga o Aeroporto José Aponte de la Torre.
O apoio aos Aliados
A contribuição porto-riquenha também foi expressiva em termos de efetivo militar. Estima-se que entre 53 mil e 72 mil porto-riquenhos tenham servido nas Forças Armadas dos Estados Unidos durante a guerra. A diferença nas estimativas decorre da inclusão, em alguns levantamentos, de cidadãos de origem porto-riquenha que já residiam no território continental americano antes do conflito.
Grande parte desses militares integrou o tradicional 65º Regimento de Infantaria, unidade composta majoritariamente por soldados porto-riquenhos, além da Guarda Nacional da ilha. Os combatentes participaram de missões tanto no teatro europeu quanto no Pacífico, desempenhando funções de combate, segurança e apoio às operações aliadas.
Antes mesmo da guerra, muitos oficiais e soldados haviam sido preparados dentro dos estudos estratégicos conhecidos como War Plan Orange, um conjunto de planos desenvolvidos pelo Exército e pela Marinha dos Estados Unidos para um eventual conflito contra o Japão. O país mantinha diferentes planos de contingência para possíveis confrontos com diversas potências estrangeiras, identificadas por cores, e o “Plano Laranja” era dedicado especificamente ao cenário de guerra no Pacífico.
A relação entre Porto Rico e os Estados Unidos já havia se fortalecido décadas antes. Em 1917, o Congresso americano aprovou o Jones-Shafroth Act, legislação que concedeu automaticamente a cidadania americana às pessoas nascidas na ilha. A medida teve impacto direto sobre o serviço militar, já que os porto-riquenhos passaram a estar sujeitos ao alistamento obrigatório nas mesmas condições dos cidadãos nascidos nos estados continentais. Até então, a obtenção da cidadania frequentemente era um dos incentivos para o ingresso nas Forças Armadas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, homens porto-riquenhos puderam ocupar diferentes funções militares, chegando inclusive a posições de comando em algumas unidades. As mulheres também contribuíram para o esforço de guerra, embora, como ocorria em praticamente todas as forças armadas da época, estivessem limitadas principalmente aos serviços de enfermagem, administração e apoio logístico, sem autorização para atuar diretamente em combate.
A anexação de Porto Rico
A presença americana em Porto Rico remonta ao fim do século XIX. Em julho de 1898, durante a Guerra Hispano-Americana, tropas dos Estados Unidos desembarcaram na ilha, então uma colônia espanhola. O conflito terminou poucos meses depois com a assinatura do Tratado de Paris, pelo qual a Espanha cedeu Porto Rico, Guam e as Filipinas aos Estados Unidos, além de renunciar à soberania sobre Cuba.
No caso das Filipinas, Washington concordou em pagar à Espanha uma indenização de 20 milhões de dólares, enquanto Porto Rico e Guam foram transferidos como parte dos termos do tratado. A aquisição desses territórios marcou uma mudança significativa na política externa americana, consolidando o país como uma potência com possessões ultramarinas e reduzindo ainda mais a influência colonial espanhola.
Ao longo do século XX, Porto Rico desenvolveu uma relação política singular com os Estados Unidos. Desde 1952, a ilha é oficialmente um Estado Livre Associado (Commonwealth), com governo próprio e autonomia para administrar assuntos internos, embora permaneça sob soberania americana. Seus habitantes são cidadãos dos Estados Unidos, mas o território continua com um status constitucional distinto dos cinquenta estados da federação, situação que permanece objeto de debate político até os dias atuais.
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