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Como Agatha Christie ajudou a preservar a Missa em latim?

A escritora Agatha Christie esteve entre mais de cem intelectuais que pediram ao Papa Paulo VI a manutenção da Missa Tridentina

Agatha Christie
Fotografia de Agatha Christie - Getty Images

Muito antes das discussões envolvendo o Papa Leão XIV e os padres da Fraternidade São Pio X sobre a celebração da Missa Tridentina, uma mobilização internacional de escritores, artistas e intelectuais já havia influenciado o Vaticano a preservar o antigo rito em determinadas circunstâncias. Em 1971, a romancista britânica Agatha Christie liderou simbolicamente um abaixo-assinado que reuniu mais de uma centena de personalidades em defesa da continuidade da missa tradicional em latim, celebrada segundo o missal anterior ao Concílio Vaticano II.

O documento foi encaminhado ao Papa Paulo VI em outubro daquele ano, em meio às mudanças promovidas pela reforma litúrgica iniciada pelo Concílio Vaticano II. Pouco tempo antes, em abril de 1969, o pontífice havia promulgado o Novus Ordo Missae, consolidando uma ampla reformulação da liturgia católica. Entre as principais novidades estavam a autorização para o uso das línguas nacionais durante as celebrações e a adoção de um novo missal, oficialmente apresentado em 1970.

As transformações provocaram forte resistência entre setores do clero, teólogos e fiéis que defendiam a preservação da liturgia anterior, conhecida como Missa Tridentina. Paralelamente, surgiram manifestações de apoio vindas também de pessoas sem vínculo com a Igreja Católica, que enxergavam no rito latino um patrimônio histórico e cultural da civilização ocidental.

Petição de Agatha Christie

Foi nesse contexto que nasceu a petição assinada por escritores, músicos, historiadores e outras figuras de destaque da cultura internacional. O texto argumentava que a eventual eliminação da Missa Tridentina representaria uma perda comparável à destruição de importantes monumentos históricos, já que inúmeras obras da literatura, da música, da arquitetura e das artes plásticas haviam sido inspiradas por aquela tradição litúrgica ao longo dos séculos.

Os signatários afirmavam que o rito romano tradicional transcendia sua dimensão exclusivamente religiosa. Segundo o documento, seu texto em latim havia servido de inspiração para poetas, filósofos, músicos, pintores, escultores e arquitetos de diferentes épocas, tornando-se parte integrante do patrimônio cultural da humanidade. Em um período marcado pelo avanço da sociedade tecnocrática e materialista, defendiam que extinguir aquela tradição significaria empobrecer uma das expressões mais refinadas da cultura ocidental.

A carta fazia questão de destacar seu caráter “ecumênico e apolítico”. Entre os mais de cem assinantes estavam nomes consagrados da literatura e das artes, como Graham Greene, Robert Graves, Cyril Connolly, Iris Murdoch, Nancy Mitford, Jorge Luis Borges, o historiador Kenneth Clark, o violinista Yehudi Menuhin, o musicólogo Marius Schneider e o político Joseph Grimond.

Embora Agatha Christie fosse membro da Igreja da Inglaterra, e não da Igreja Católica, sua participação acabou se tornando a mais lembrada. A autora já era uma das escritoras mais conhecidas do mundo e também retratava em sua obra personagens ligados ao catolicismo, como o detetive Hercule Poirot, apresentado como um católico devoto.

O pedido foi entregue ao Vaticano pelo cardeal John Carmel Heenan, então arcebispo de Westminster. Em 5 de novembro de 1971, Paulo VI autorizou oficialmente uma exceção para que a Missa Tridentina pudesse continuar sendo celebrada ocasionalmente na Inglaterra e no País de Gales. A decisão foi formalizada por meio de uma carta assinada por monsenhor Annibale Bugnini, considerado o principal responsável pela reforma litúrgica.

Segundo relatos preservados pela tradição católica, ao ler a lista de assinaturas o pontífice teria interrompido a leitura ao encontrar o nome da romancista e exclamado: “Ah! Agatha Christie!”. O episódio deu origem ao apelido pelo qual a autorização passou a ser conhecida: o “Perdão de Agatha Christie“.

Nos anos seguintes, a flexibilização seria ampliada. Em 1984, o Papa João Paulo II concedeu um indulto que permitiu a celebração da Missa Tridentina em diversas partes do mundo. Décadas depois, o Papa Francisco manteve a possibilidade do rito antigo, mas estabeleceu restrições, determinando que celebrações públicas dependessem de autorização expressa dos bispos locais ou da Santa Sé.

Apesar de pertencer ao anglicanismo, Agatha Christie manteve ao longo da vida forte interesse por temas religiosos. Em sua autobiografia, recordou com orgulho ter financiado a instalação de um vitral na igreja paroquial de Churston Ferrers utilizando os lucros de um de seus romances. A escritora acompanhou pessoalmente o projeto artístico e escolheu representar o Bom Pastor como figura central da composição, cercado por cenas dos Evangelhos. Segundo ela, desejava criar uma obra alegre, capaz de ser apreciada pelas crianças durante as celebrações dominicais, oferecendo à comunidade um presente que esperava resistir ao tempo.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.