Pedra da Gávea: Os fenícios realmente estiveram no Brasil?

Teorias dizem que Pedra da Gávea é símbolo da presença dos fenícios no Brasil. Entenda o caso!

Foto da Pedra da Gávea e suposto busto de Badezir
Foto da Pedra da Gávea e suposto busto de Badezir - Créditos: Getty Images e Reprodução/Imagem/X/@Davif_p

Localizada na Cordilheira da Tijuca, a Pedra da Gávea é uma montanha monolítica na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Com 842 metros de altitude, seu topo é coberto por uma camada de 150 metros de granito (datado de 450 milhões de anos atrás). Já a parte de baixo é feita de gneisse (de mais de 600 milhões de anos).

A Pedra da Gávea é uma das montanhas mais altas do mundo junto de margens oceânicas; sendo resultado de rochas granitoides neoproterozoicas mais jovens e finos diques de diabásio do Cretáceo que penetram em rochas metasedimentárias meso-neoproterozoicas mais velhas.  

Muito mais do que sua beleza natural e cartão postal do Rio de Janeiro, a Pedra da Gávea também é alvo de interesse arqueológico. Afinal, circulam teorias de que ela provaria que os fenícios estiveram no Brasil.

As teorias

Conforme as teorias, antes mesmo de Pedro Álvares Cabral pisar nas terras tupiniquins, outro povo da Eurásia já tinha marcado sua presença por aqui: os Fenícios. A principal prova? A Pedra da Gávea, devido à sua semelhança com o busto do Rei Fenício Badezir e à suposta presença de uma inscrição fenícia em sua lateral. Mesmo o pai da arqueologia e da paleontologia brasileira, o dinamarquês Peter Lund (1801-1880), já defendia essa teoria.

Suposta escrita Fenícia no lado da Pedra da Gávea – Créditos: Reprodução/Imagens/X/@Davif_p

Mas afinal, essa história toda é verdadeira? Eles realmente conseguiram atravessar o Atlântico? E o que é a Pedra da Gávea?

Origens da teoria

Em 1869, Peter Lund explorava possíveis fósseis de animais extintos em Lagoa Santa, Minas Gerais, quando conheceu Onfroy de Thoron, que escrevia sobre as supostas viagens do rei Salomão da Judeia ao rio Amazonas no século 10 a. C. Porém, mais do que uma criação de Thoron, essa teoria remonta a um mito medieval.

Conforme o portal Ensinar História, um arcebispo de Porto Cale, atual cidade do Porto, estava fugindo das invasões dos mouros quando se refugiou em uma ilha além-mar. Nesta nova localização fundou uma civilização chamada Sete Cidades. 

Fato é que a lenda se espalhou e as supostas ilhas começaram a aparecer em mapas da Península Ibérica e, posteriormente, em toda a Europa. De qualquer modo, os territórios do arcebispo ficaram famosos e começaram a ser agregados às demais ilhas míticas como Atlântida, mencionada por Platão, a Tule greco-romana e a ilha de Hy Brazil.

Inclusive, essa ilha de Hy Brazil (ou Hy Bressail, Hy Breasil, Hy Breazil, Bracil, Bersil, Brazir, Bracir e Brasil, em suas variações), foi altamente investigada pelo Império Português mas não foi encontrada até hoje. Parte considerável do re-batismo da Terra de Santa Cruz para o Brasil advém dessa teoria.

Até meados do século 16 a tal Ilha Brasil apareceu em mapas cartográficos e, justamente por sua alegada proximidade com a Europa, muitos apontaram que a região poderia ter sido alcançada pelos fenícios.

Pouso Alto e os fenícios

Por aqui, as teorias se fortaleceram em 1872, a partir do marquês de Sapucaí, então presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Naquela época, ele havia recebido uma cópia de inscrições gravadas em uma pedra encontrada em Pouso Alto, no Vale do Paraíba, por Joaquim Alves da Costa.

Diante da informação bombástica, Ladislau de Souza Mello Netto, que era diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro e doutor em Ciências Naturais pela Sorbonne, se dispôs a procurar a inscrição e decodificá-la. Foi assim que as chamadas “primeiras inscrições fenícias”, datadas de 3.000 anos, foram encontradas no Brasil.

Contudo, logo descobriram que a mensagem anônima era, na realidade, uma grande mentira. Não existia Pouso Alto, nem mesmo Joaquim Alves da Costa. Na verdade, a inscrição realmente era fenícia, mas havia sido copiada de outro texto já conhecido pela comunidade científica. Ladislau Netto reconheceu ter sido vítima de uma fraude, registrando o ocorrido em um artigo publicado em 8 de junho de 1875 no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro.

Além disso tudo, houve ainda uma confusão relacionada ao nome da rocha. Acontece que, por estar localizada no Vale do Paraíba (que se estende entre São Paulo e Rio de Janeiro), a Pedra de Pouso Alto é também conhecida como “Pedra do Paraíba”, mas acabou sendo confundida como a “Pedra da Paraíba”, que fica localizada no nordeste. Supostamente, a pedra referenciada seria a Itacoatiara de Ingá.

Naquela instância, inscritos rupestres foram reconhecidos como representações de escritos fenícios — e o austríaco Ludwig Schwennhagen, professor de História e Filologia, disse ter observado claros indícios das Sete Cidades, que seriam sede do império colonial fenício de além-mar. De acordo com a professora Joelza Ester Domingues, em artigo ao Ensinar História:

Schwennhagen percorreu, nas décadas de 1910 e 1920, o Piauí, o Ceará, o Rio Grande do Norte, a Paraíba e Pernambuco – onde os sertanejos o conheciam como ‘Doutor Ludovico Chovenágua’, pela dificuldade de pronunciar seu nome austríaco.”

Nesse sentido, ainda disse que as línguas tupis tinham uma clara semelhança com as semíticas, sem muitas  provas. A partir daí, outros profissionais escreveram possíveis relações sobre o Brasil e o mundo semítico. Por exemplo, o cônego cearense Raymundo Ulysses de Pennafort que argumentou em seu livro “Brasil Pré-Histórico, memorial encyclographico” (1900, Fortaleza), que a Amazônia, é o País de Ophir e de Parvaim, locais mencionados na Bíblia como regiões de onde se extraía ouro, prata e madeira para o rei Salomão.

Pedra da Gávea e inscrições

Assim, por volta de 1925, Silva Ramos, estudioso de Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, começou a tentar identificar quais eram as inscrições localizadas na “orelha” da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro. Na versão dos conspiracionistas, estaria escrito na pedra “Jetbaal, fenício de Tiro, primogênito de Badezir” e o tal Badezir seria o homem representado na pedra.

Nesse sentido, para esses grupos, toda a Pedra da Gávea seria então uma esfinge construída há milênios e que possuía uma antropomorfizarão em sua faceta e um corpo de quimera.

Quimera Fenícia e Pedra da Gávea, possível semelhança - Créditos: Reprodução/Imagem/Site/Saga Transcarioca
Quimera Fenícia e Pedra da Gávea, possível semelhança – Créditos: Reprodução/Imagem/Site/Saga Transcarioca

Contudo, ainda que a Pedra da Gávea realmente tenha uma caracterização antropomorfizada, é impossível para os antigos fenícios, longe de sua terra natal, tenham feito uma escultura maior que dezenas de Cristos Redentores.

Com a tecnologia e o entendimento atual, os arqueólogos, linguistas, geólogos e demais profissionais, apontam que a formação na Pedra da Gávea é uma marca de erosão construída por milhares de anos de chuvas.

Mesmo assim, a cada década aparecem “profissionais” que trazem a teoria novamente à tona. Só para exemplificar, podemos citar Cyrus H. Gordon, da Universidade de Brandeis, em Massachusetts.

Conforme Gordon, os judeus e os fenícios atravessaram o Atlântico ainda na Antiguidade — com qual equipamento náutico não se sabe — e realmente deixaram e escrita na Pedra da Paraíba, do Brasil.

Dessa forma, todo um mito se proliferou sobre a presença dos fenícios no Brasil. Justamente por sua insuficiência e falta de comprovação, profissionais de todas as áreas nem sequer se atentam a debater essa teoria.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: