Pintura de Rembrandt teve alterações feitas depois de séculos
Obra de Rembrandt redescoberta em leilão teve elementos modificados, incluindo a substituição de um turbante por um gorro holandês

Uma pintura recentemente atribuída ao mestre holandês Rembrandt revelou ter passado por intervenções significativas ao longo de sua história. Entre as alterações identificadas está a substituição de um turbante usado por um dos personagens da cena por um tradicional gorro holandês, além da inclusão de roupas em uma criança que havia sido originalmente retratada nua pelo artista.
A obra foi descoberta em 2014 durante um leilão realizado na Alemanha, onde estava catalogada apenas como uma pintura produzida na Holanda no século XVII. Após anos de estudos e análises, especialistas concluíram que o quadro é de autoria de Rembrandt. Agora, a peça será colocada novamente à venda em leilão marcado para 1º de julho, com estimativa de alcançar entre 8 milhões e 12 milhões de libras.
Mudanças em Rembrandt
Na composição, Rembrandt retrata uma multidão reunida, composta por diferentes personagens que representam, entre outros grupos, as tradições cristã e judaica. Entre essas figuras encontra-se o homem que originalmente usava um turbante, posteriormente substituído por um gorro típico dos Países Baixos durante uma intervenção realizada após a conclusão da obra.
Outra mudança identificada pelos especialistas diz respeito a uma criança que aparecia despida na versão original do quadro. Em algum momento posterior, o personagem infantil recebeu vestimentas adicionadas por outro artista ou restaurador, modificando a concepção inicial da pintura.
De acordo com o historiador de arte Andrew Graham-Dixon, as características da obra dialogam com o período em que Rembrandt mantinha proximidade com os Remonstrantes, grupo religioso conhecido por defender ideias de tolerância e aceitação em um contexto marcado por intensas disputas confessionais.
Em declaração ao jornal The Guardian, Graham-Dixon afirmou que a pintura retrata uma multidão em torno de Cristo acolhendo crianças e famílias, uma representação que teria sido considerada controversa na época em que foi produzida. Segundo o historiador, a cena evidencia uma postura humanitária adotada pelo pintor.
Para o especialista, o conjunto da obra ultrapassa o aspecto puramente artístico e reflete convicções pessoais de Rembrandt. Na avaliação de Graham-Dixon, a pintura pode ser entendida como uma manifestação da posição moral do artista, reforçando valores ligados à inclusão, à compaixão e à convivência entre diferentes grupos religiosos, elementos que teriam motivado, séculos depois, algumas das alterações realizadas sobre a tela.