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Estudo aponta tensão recorde em falhas geológicas da Califórnia

Pesquisa indica que as falhas de San Andreas e San Jacinto acumulam hoje o maior nível de tensão em mil anos

Falha Geológica de San Andreas - Reprodução: YouTube/EcoonChannel

A tensão acumulada nas falhas geológicas de San Andreas e San Jacinto, no sul da Califórnia, atingiu, e em alguns trechos, até ultrapassou, os maiores níveis registrados nos últimos mil anos, segundo um estudo publicado na revista científica Journal of Geophysical Research: Solid Earth. A pesquisa utilizou modelos computacionais para reconstruir aproximadamente um milênio de atividade sísmica na região e estimar quanta energia permanece atualmente armazenada nesses sistemas de falhas.

Apesar da descoberta, os autores fazem um alerta importante: o trabalho não representa uma previsão de terremotos nem indica quando um novo grande evento poderá ocorrer. Segundo a geofísica Liliane Burkhard, da Universidade de Berna, na Suíça, que liderou o estudo, os resultados mostram apenas que determinadas condições físicas favoráveis a um grande rompimento estão presentes atualmente.

Há décadas, a Califórnia convive com a expectativa do chamado “Big One”, nome popular dado ao grande terremoto esperado para a costa oeste dos Estados Unidos. A região analisada pela pesquisa concentra algumas das áreas mais povoadas do país, incluindo Los Angeles, além de cidades como San Bernardino, Riverside e o Vale de Coachella, onde fica Palm Springs.

Modelo reconstruiu mil anos de atividade sísmica

Mapa da falha Geológica de San Andreas – Reprodução: YouTube/EcoonChannel

Para chegar às conclusões, os pesquisadores desenvolveram um modelo capaz de simular como a tensão se acumula e é liberada nas falhas geológicas ao longo do tempo.

O sistema utilizou cerca de mil anos de registros sísmicos reconstruídos por meio de evidências geológicas, incluindo sedimentos deslocados e anéis de crescimento de árvores. A partir desses dados, o modelo estimou a quantidade de energia atualmente represada nas falhas.

Os autores destacam, porém, que os resultados representam estimativas computacionais, e não medições diretas realizadas no interior da Terra. Os cálculos dependem de fatores como a velocidade de deslocamento das placas tectônicas, a profundidade das áreas bloqueadas e as características das rochas presentes na região.

Segundo Burkhard, embora as placas do Pacífico e da América do Norte se movimentem continuamente alguns centímetros por ano, esse deslocamento não ocorre de forma uniforme. Em determinados trechos, o atrito mantém as rochas travadas por longos períodos, permitindo o acúmulo gradual de tensão.

Quando a resistência dessas rochas é finalmente superada, ocorre a ruptura, liberando parte da energia acumulada na forma de terremotos.

No trecho sul da falha de San Andreas, por exemplo, o último grande rompimento ocorreu em 1857, durante o terremoto de Fort Tejon, de magnitude 7,9. Desde então, não houve outro evento semelhante capaz de aliviar significativamente a tensão acumulada.

Cajon Pass concentra a principal preocupação

O estudo dedica atenção especial ao Cajon Pass, localizado a menos de 100 quilômetros a nordeste do centro de Los Angeles.

É nesse ponto que a porção sul da falha de San Andreas se aproxima da parte norte da falha de San Jacinto. Segundo os pesquisadores, essa região pode atuar tanto como uma barreira quanto como uma passagem para um rompimento que avance de uma falha para a outra.

De acordo com o modelo, quanto mais semelhantes forem os níveis de tensão entre os dois sistemas, maior poderá ser a facilidade para que um rompimento atravesse o Cajon Pass.

Burkhard explica que os níveis atuais de tensão nos dois lados estão se tornando cada vez mais parecidos, o que representa uma possibilidade física para esse tipo de propagação. Ainda assim, ela ressalta que isso não significa que o próximo terremoto necessariamente seguirá esse comportamento.

Os registros históricos mostram exemplos dos dois cenários. O terremoto de Fort Tejon, em 1857, interrompeu seu rompimento no Cajon Pass. Já o terremoto de Wrightwood, em 1812, com magnitude estimada em cerca de 7,5, pode ter atravessado a região e atingido ambas as falhas.

Segundo o modelo, um segmento da falha de San Jacinto alcançou tensão estimada em 3,6 megapascais, o maior valor registrado em toda a reconstrução dos últimos mil anos. Em uma área da San Andreas, o nível chegou a 2,8 megapascais, também acima dos picos anteriores.

Estudo reforça importância da preparação

Falha Geológica de San Andreas – Reprodução: YouTube/EcoonChannel

Caso um rompimento consiga atravessar o Cajon Pass e envolver as duas falhas, os pesquisadores estimam que o terremoto poderia atingir magnitude entre 7,4 e 7,8, afetando uma área maior do que um evento restrito a apenas uma das falhas.

Mesmo assim, os autores reforçam que essa estimativa depende das condições adotadas pelo modelo e não representa uma previsão de que um terremoto desse porte esteja prestes a ocorrer.

O estudo classifica alguns trechos das falhas como “criticamente carregados”, expressão utilizada para indicar que essas áreas apresentam níveis excepcionalmente elevados de tensão quando comparados aos registrados ao longo do último milênio.

Para Burkhard, a principal mensagem da pesquisa não é alarmar a população, mas incentivar o planejamento de longo prazo.

Segundo a pesquisadora, autoridades e equipes responsáveis pela gestão de emergências devem considerar a possibilidade de um terremoto envolvendo simultaneamente as falhas de San Andreas e San Jacinto na elaboração de estratégias de prevenção, incluindo medidas relacionadas à resistência de edifícios, estradas, sistemas de abastecimento de água e redes de energia.

Ela também esclarece que terremotos recentes registrados na Venezuela, no Japão e no norte da Califórnia não alteram essa avaliação. Como ocorreram em sistemas tectônicos distintos ou muito distantes da área analisada, seus efeitos sobre a tensão acumulada no sul da Califórnia seriam extremamente pequenos ou inexistentes.

Para a equipe, compreender como a tensão evolui nesses sistemas geológicos permite aperfeiçoar os estudos sobre risco sísmico e reforça a necessidade de preparação constante diante de um fenômeno natural cuja ocorrência, embora inevitável, continua impossível de ser prevista com precisão.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes