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Duplo sepultamento ibérico antigo e incomum aponta possível punição ritual

Estudo revela enterro incomum de mais de 2.200 anos com dois homens mortos de forma violenta e seis chifres de veado, sugerindo punição ritual na Idade do Ferro

Fotografia do sepultamento com os restos mortais descobertos no Cerro de las Cabezas, na Espanha / Crédito: Herrerín, J. et al., Research Square (2026)

Uma descoberta arqueológica na Espanha está oferecendo novas pistas sobre práticas de punição, rituais e controle social entre comunidades da Península Ibérica durante a Idade do Ferro.

Pesquisadores identificaram o sepultamento de dois homens mortos de forma violenta nos arredores do antigo assentamento de Cerro de las Cabezas, em Ciudad Real, acompanhado por seis grandes chifres de veado-vermelho. Segundo a equipe responsável pelo estudo, a combinação entre os corpos e os chifres não encontra paralelo conhecido no registro arqueológico ibérico.

O depósito foi encontrado durante escavações no ópido de Cerro de las Cabezas, próximo à cidade de Valdepeñas, e data do fim do século 3 ou do início do século 2 a.C., período correspondente aos últimos anos de ocupação do assentamento.

Sepultamentos incomuns

Diferentemente do costume funerário predominante entre os povos ibéricos da época, os dois homens não foram cremados. Seus corpos foram depositados intactos junto à muralha defensiva sul da cidade, sem qualquer estrutura funerária, cova identificável ou objetos associados ao enterro.

Entre os séculos 6 e 1 a.C., a cremação era a prática funerária mais comum nas comunidades ibéricas. As cinzas dos mortos costumavam ser colocadas em urnas e enterradas em cemitérios segundo rituais consolidados. Por isso, a presença de esqueletos completos fora desse contexto chamou imediatamente a atenção dos arqueólogos.

Os pesquisadores observaram que os corpos permaneciam em posição anatômica, indicando que foram enterrados pouco depois da morte. A disposição dos esqueletos sugere que o sepultamento ocorreu de forma rápida e sem cuidados cerimoniais, com o local sendo coberto logo em seguida, descrevem os pesquisadores em estudo publicado no Research Square.

As análises osteológicas revelaram que ambos morreram de forma violenta. O chamado Indivíduo A, com idade estimada entre 35 e 45 anos, apresentava sinais de ter sobrevivido por algumas semanas a um forte golpe na testa antes de sofrer o ferimento fatal. Sua morte ocorreu após um golpe de arma branca atingir o fêmur direito, causando um corte profundo no osso, rompendo importantes vasos sanguíneos e provocando uma hemorragia letal. As marcas deixadas no esqueleto indicam que a arma permaneceu presa no osso antes de ser retirada.

Já o Indivíduo B, com idade entre 40 e 59 anos, foi decapitado imediatamente antes ou logo após a morte. O crânio, a mandíbula e as primeiras vértebras cervicais ainda permaneciam ligados por tecidos moles quando foram enterrados. A cabeça foi posicionada aproximadamente 40 centímetros distante do restante do corpo, apoiada sobre o braço esquerdo, na parte superior do depósito. De acordo com os pesquisadores, essa disposição não poderia ser resultado de movimentações naturais após o sepultamento.

Fotografia aérea do sítio arqueológico, com o círculo vermelho indicando a localização das descobertas / Crédito: Herrerín, J. et al., Research Square (2026)

O estudo também permitiu reconstruir a sequência do enterro. Inicialmente, diversos chifres de veado foram colocados no solo. Em seguida, o corpo do Indivíduo A foi depositado sobre eles. Depois, o Indivíduo B foi colocado parcialmente sobre o primeiro homem. Novos chifres foram adicionados sobre os corpos antes que a cabeça decapitada fosse cuidadosamente posicionada.

Os seis grandes chifres de veado-vermelho representam um dos aspectos mais incomuns da descoberta. Alguns ultrapassavam um metro de comprimento. Na sociedade ibérica da Idade do Ferro, os chifres possuíam valor simbólico e também eram utilizados na fabricação de ferramentas e objetos de prestígio.

Depósitos semelhantes já haviam sido identificados em sítios celtas e celtibéricos, geralmente associados a fundações de edifícios ou muralhas como oferendas de proteção. No entanto, esta é a primeira vez que chifres aparecem diretamente relacionados a corpos humanos em um contexto ibérico.

Além das análises arqueológicas, a equipe examinou isótopos estáveis preservados nos ossos e dentes dos indivíduos. Os resultados indicaram que o Indivíduo A manteve, da adolescência à vida adulta, uma dieta rica em proteína animal, com pouca variação ao longo do tempo.

Já os isótopos de oxigênio revelaram que os dois homens consumiram água proveniente de áreas com assinaturas isotópicas diferentes, sugerindo trajetórias de vida distintas. Ainda assim, ambos permaneceram dentro da faixa considerada normal para a região, sem indícios de que fossem estrangeiros.

As alterações observadas nos ossos do Indivíduo A também sugerem que ele percorria longas distâncias com frequência. Em conjunto com as evidências isotópicas, os pesquisadores levantam a hipótese de que ele pudesse trabalhar com gado, embora ressaltem que os dados disponíveis ainda não sejam suficientes para confirmar essa interpretação, segundo o Archaeology News.

Morte ruim?

Considerando todas as evidências reunidas, os arqueólogos concluem que o depósito corresponde a um único evento cuidadosamente planejado, e não a um sepultamento convencional.

A combinação entre mortes violentas, exclusão do cemitério comunitário, localização ao lado da muralha defensiva e presença dos chifres simbólicos se enquadra no conceito de uma “morte ruim”, expressão utilizada para descrever o que acontecia com indivíduos que, por terem morrido violentamente ou por não atenderem às normas sociais, eram privados dos ritos funerários tradicionais.

Segundo os pesquisadores, o sepultamento também pode ter desempenhado a função de advertência pública ou integrar um ritual relacionado à proteção do assentamento. A descoberta oferece uma oportunidade incomum para compreender como punição, simbolismo ritual e organização social estavam profundamente conectados nas comunidades ibéricas durante os séculos finais que antecederam o domínio romano sobre a Península Ibérica.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.