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Amada Imortal: o caso de amor secreto de Beethoven

Após a morte de Beethoven, a descoberta de uma carta de amor secreta iniciou uma busca histórica pela identidade da "Amada Imortal" do músico

Pintura de Ludwig van Beethoven / Crédito: Domínio Público

A descoberta de uma correspondência afetiva em uma gaveta particular de Ludwig van Beethoven descortinou um dos maiores mistérios românticos da história da música.

O documento, redigido pelo compositor e preservado ao longo dos anos, revelou a intensidade e o sofrimento de uma paixão secreta direcionada a uma mulher cuja real identidade permanece sob investigação de pesquisadores e biógrafos há gerações.

Revelação do segredo

O célebre criador musical faleceu em 26 de março de 1827 sem deixar uma esposa. Na ocasião, uma grande quantidade de admiradores tomou as vias públicas para acompanhar o cortejo de despedida.

O mistério começou a se desenhar logo após o óbito, quando Anton Schindler, que atuava como secretário do músico, examinou os pertences da escrivaninha do antigo patrão. Entre os papéis, foi localizada uma carta passional e lírica que aparentemente nunca chegou a ser despachada.

No texto, o remetente não registrou o nome da mulher a quem se dirigia, tratando-a unicamente por meio da alcunha de “Amada Imortal“. As declarações contidas no papel expunham o nível de envolvimento emocional: “Só posso viver inteiramente contigo ou não viver de forma alguma”

Em outro trecho da mensagem, o compositor expressou suas intenções de futuro: “sim, estou decidido a vagar longe de ti por tanto tempo até que eu possa voar para os teus braços e dizer que estou realmente em casa, enviar minha alma envolta em ti para a terra dos espíritos.”

De acordo com as análises de Julia Ronge, que exerce a função de curadora das coleções da Beethoven-Haus Bonn, a linguagem empregada demonstra que o sentimento possuía reciprocidade, afastando a hipótese de uma admiração platônica ou distante. O matrimônio, contudo, nunca se concretizou.

Pintura representando Beethoven / Crédito: Getty Images

Buscas

A ausência de indicações nominais diretas pulverizou as suspeitas ao longo do tempo. O musicólogo John David Wilson, pesquisador sênior da Universidade de Viena, aponta que as finanças do artista eram superiores às de vários colegas de profissão, mas a instabilidade de sua rotina reduzia suas chances de casamento perante as famílias das pretendentes.

Ao todo, a curadora Julia Ronge contabiliza que pelo menos 13 mulheres foram apontadas como possíveis destinatárias nos últimos dois séculos.

Para refinar as investigações, os especialistas baseiam-se em três critérios fundamentais deixados nas entrelinhas do documento. O primeiro deles diz respeito à cronologia precisa do registro. Embora faltasse a indicação do ano, o autor organizou os trechos em uma segunda-feira, 6 de julho, e na terça-feira, 7 de julho.

Um estudo laboratorial da marca d’água presente no papel apontou o ano de 1812 como o período real de fabricação e escrita. Essa constatação cronológica invalida nomes de relacionamentos anteriores, como a nobre Giulietta Guicciardi, que recebeu a dedicatória da “Sonata ao Luar” no início do século 19.

O segundo ponto de análise é a movimentação geográfica dos envolvidos. Pouco antes de redigir o texto, o músico realizou um deslocamento de Praga para Teplitz, uma estância termal situada no território atual da República Tcheca.

Segundo Jan Caeyers, maestro e escritor da obra “Beethoven, Uma Vida”, o tom da carta indica que o casal vivenciou uma noite marcante em Praga. Posteriormente, eles se separaram, com o compositor se dirigindo a Teplitz e a mulher viajando em direção a Karlsbad (atual Karlovy Vary).

Por fim, devia existir um forte impedimento social para a relação. Na carta, o artista manifestava insatisfação com a impossibilidade de uma união plena, questionando: “Podes mudar o fato de que não és inteiramente minha, e eu não inteiramente teu?”

Para a comunidade de estudiosos, tal indagação sinaliza que a mulher em questão já se encontrava vinculada a um casamento legítimo. Diante desses parâmetros combinados, duas figuras históricas sobressaem-se nas pesquisas contemporâneas.

Antonie Brentano

Nascida no ano de 1780, Antonie Brentano era consorte de Franz Brentano, um abastado empresário do setor comercial. O casal estabeleceu laços de amizade e suporte financeiro com o compositor a partir de 1810.

A profundidade dos sentimentos de Antonie pelo artista ficou registrada em um documento familiar de 1811, no qual ela admitia que “venerava profundamente” o músico. Na mesma mensagem, ela acrescentou que o compositor “caminha como um deus entre os mortais”.

A professora Sylvia Bowden, vinculada à Universidade de Southampton, defende a tese de que Antonie é a destinatária mais provável. A linha de evidências sustenta que ela esteve em Praga e partiu para Karlsbad em julho de 1812. O matrimônio dela com um amigo próximo do compositor configurava o obstáculo social mencionado no texto.

O falecido pesquisador Maynard Solomon também apoiou essa teoria, sustentando que os sentimentos do artista colidiam com o receio de quebrar a lealdade devida ao amigo. Em contrapartida, John David Wilson pondera que não existem dados documentais que comprovem uma ligação amorosa além dos limites da amizade familiar.

Josephine Brunsvik

Uma parcela expressiva de pesquisadores enxerga traços mais contundentes em outra personagem. Julia Ronge avalia que os indícios direcionam-se majoritariamente para Josephine Brunsvik.

O primeiro contato ocorreu em 1799, quando ela tinha 20 anos e passou a receber instruções de piano do músico. A proximidade intensificou-se anos depois, durante o período de viuvez da jovem. Entre 1805 e 1807, ambos trocaram 14 cartas de teor romântico nas quais surgiam palavras afetuosas idênticas às da mensagem de 1812, como “anjo” e “amada”.

Essa conexão, inclusive, afetou a produção artística do mestre musical. Jan Caeyers ressalta que certas composições foram estruturadas especificamente para ela, contendo recados cifrados. O exemplo mais notório é a obra “Andante favori”, cuja melodia inicial assemelha-se à métrica fonética do nome de Josephine.

Documentos e diários resgatados pela musicóloga Rita Steblin reforçam que ela atendia aos pré-requisitos: possuía união matrimonial ativa em 1812, pertencia à aristocracia e encontrava-se em Praga na data mencionada.

O contraponto à tese reside na falta de registros de diálogos ou cartas entre os dois após o ano de 1807. Sylvia Bowden também reforça que não há comprovação de que Josephine tenha visitado Karlsbad no período correspondente ao verão de 1812. No entanto, o cenário conjugal de Josephine, cujo segundo casamento (iniciado em 1810) enfrentava severa crise, deixa aberta a possibilidade de um reencontro mantido sob sigilo para preservar o nome da família nobre.

Antonie Brentano, Beethoven e Josephine Brunsvik / Crédito: Domínio Público

Herança genética

A investigação sobre Josephine ganhou um elemento extra com base nas datas de nascimento de seus descendentes. Separada do cônjuge em julho de 1812, ela deu à luz uma menina nove meses após o período da suposta carta. Minona von Stackelberg nasceu em 9 de abril de 1813, registrada como descendente de Christoph von Stackelberg.

Rita Steblin sugeriu indícios de uma paternidade oculta a partir do nome da criança, que lido de forma inversa assemelha-se a “Anonim”, além de fazer alusão à filha de um músico nos escritos de Ossian, poeta admirado pelo compositor. De modo análogo, Antonie Brentano também deu à luz um menino, Karl Josef Brentano, em 8 de março de 1813, cerca de oito meses após a redação do bilhete misterioso.

Jan Caeyers aponta que uma eventual validação biológica depende do confronto do DNA dessas linhagens com o mapa genético de Beethoven, decodificado no ano de 2023 por meio de amostras de cabelos guardadas.

Os restos mortais de Minona repousam no Cemitério Central de Viena, enquanto os de Karl Josef ocupam o jazigo dos Brentano em Frankfurt. Contudo, barreiras legais para exumações impedem o avanço dessas análises, mantendo o enigma sem uma conclusão definitiva, segundo o National Geographic.

A preservação e o debate em torno desse mistério servem para humanizar a figura histórica do compositor. Na visão de John David Wilson, o revés sentimental coincidiu com a época em que o músico perdeu as perspectivas de constituir um lar tradicional, fazendo com que ele concentrasse suas energias inteiramente nas criações artísticas. Para a musicologia, o teor da carta desconstrói a imagem do gênio isolado, mostrando que ele compartilhou das mesmas paixões e frustrações afetivas comuns à experiência humana.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.