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Por que o escudo da seleção já teve um ramo de café?

Detalhe adicionado ao uniforme da seleção brasileira às vésperas da Copa do Mundo de 1982 envolveu uma controversa disputa com a Fifa

Seleção brasileira de 1982 - Crédito: Getty Images

Se você ainda não era nascido nos anos 1980, talvez não saiba que, naque tempo, o escudo da Seleção brasileira contava com um ramo de café. O detalhe foi adicionado às vésperas da Copa do Mundo de 1982 e envolveu uma grande e controversa disputa com a Fifa.

Como se deu essa decisão? Tudo começou por meio de uma iniciativa do Instituto Brasileiro do Café (IBC). A ideia era fortalecer a imagem do café brasileiro em um momento em que o produto enfrentava crescente concorrência internacional. A na época recém-criada CBF recebeu cerca de US$ 3 milhões para promover a marca.

Formalizada a parceria, a estatal responsável pela iniciativa fez questão de divulgar a novidade por meio de anúncios publicados nos principais jornais do país. “Café e futebol sempre se deram bem. Agora estão mais juntos do que nunca”, celebrava uma das campanhas, ilustrada por uma xícara de café e pelos jogadores da seleção.

Uma grande controvérsia

A mudança no brasão, no entanto, não foi recebida sem controvérsias. Como explica uma matéria do portal UOL, a Fifa, então presidida por João Havelange, rejeitou a ideia de permitir um patrocínio explícito no uniforme da Seleção durante o Mundial. O argumento era simples: nenhuma outra equipe participante exibia marcas comerciais em suas camisas.

A solução encontrada pelo presidente da CBF, o empresário Giullite Coutinho, foi engenhosa. Como o ramo de café já vinha sendo utilizado em outras partes do uniforme e corria o risco de ser vetado, decidiu-se incorporá-lo diretamente ao escudo da entidade. Para isso, a fabricante Topper foi encarregada de reformular completamente o brasão.

Foi assim que a tradicional cruz presente no símbolo deu lugar à Taça Jules Rimet, acompanhada pela sigla CBF, que substituía a antiga identificação da Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Em meio ao novo desenho, surgia discretamente o pequeno ramo de café.

Nem mesmo dentro do Brasil a alteração foi aprovada sem resistência e Coutinho precisou obter autorização do Conselho Nacional do Desporto, onde a proposta enfrentou questionamentos. No fim, os benefícios financeiros falaram mais alto.

Uniforme do Brasil contou com a presença de um ramo de café no escudo – Crédito: Getty Images

Uma transformação importante

Para especialistas, o episódio marcou uma transformação importante na relação entre esporte e publicidade no país. José Estevão Cocco, presidente da Associação Brasileira de Marketing Esportivo e profissional da área desde os anos 1980, considera a iniciativa um divisor de águas.

Segundo ele, aquele foi um dos primeiros momentos em que o marketing esportivo passou a ganhar força no Brasil. Até então, patrocinadores podiam associar suas marcas ao esporte de maneiras indiretas, mas ainda havia muitas restrições quanto à presença de publicidade nos uniformes.

O IBC já tinha experiência com esse tipo de estratégia. Afinal, desde os anos 1960, a estatal vinha investindo em campanhas ligando o café ao futebol. Grandes ídolos como Pelé e Garrincha chegaram a atuar como garotos-propaganda da bebida. Há até mesmo relatos de que Garrincha, que não apreciava café, precisasse participar de eventos promocionais consumindo várias xícaras do produto.

Durante a Copa de 1982, a campanha ganhou proporções ainda maiores. Outdoors espalhados pela Espanha e por Portugal exibiam Pelé promovendo o café brasileiro. Torcedores recebiam amostras do produto, enquanto hotéis utilizados pela delegação serviam cafezinho aos visitantes e convidados. No Brasil, a propaganda sugeria que cada xícara comprada ajudava a financiar a Seleção.

Transições dentro e fora de campo

O historiador Max Rocha, que estuda a Seleção de 1982, disse ao portal UOL que a iniciativa refletia um momento de transição vivido pelo Brasil. Afinal, explica, o país caminhava para o fim da ditadura militar, enquanto o futebol passava por um processo crescente de profissionalização e modernização administrativa.

A própria CBF buscava novas fontes de receita e modelos de gestão mais empresariais. Nesse contexto surgiram contratos com fornecedores esportivos, políticas de licenciamento de produtos oficiais e acordos comerciais como o firmado com o Instituto Brasileiro do Café.

Mas, apesar de todos esses esforços, a trajetória do “raminho” foi curta. Com a eliminação da Seleção nas quartas de final da Copa da Espanha, o grupo liderado por Giullite Coutinho acabou politicamente enfraquecido.

O símbolo até apareceu no uniforme durante a Copa do México, em 1986, mas sua presença já não contava com o mesmo respaldo financeiro — e ainda desagradava a Fifa. Pouco depois, o ramo desapareceria definitivamente do escudo.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.