Tiros em Kent State: quando estudantes foram mortos por protestar contra a guerra

Em maio de 1970, integrantes da Guarda Nacional de Ohio abriram fogo contra estudantes que protestavam contra a Guerra do Vietnã, matando quatro jovens

Imagem mostra tiroteio em Kent State - Crédito: Getty Images

Em 4 de maio de 1970, um protesto organizado por estudantes contrários à Guerra do Vietnã foi reprimido de maneira violenta. Naquele dia, integrantes da Guarda Nacional de Ohio abriram fogo contra manifestantes reunidos no campus da Universidade Estadual de Kent, matando quatro estudantes e ferindo outros nove. O episódio sangrento logo ganharia repercussão internacional e inspiraria de documentários a músicas, como a famosa canção “Ohio”, lançada poucas semanas depois pelo grupo Crosby, Stills, Nash & Young.

O contexto que levou ao confronto começou alguns dias antes. Em abril, o presidente Richard Nixon anunciou que tropas americanas haviam iniciado operações militares no Camboja para combater forças ligadas ao Viet Cong. A decisão de ampliar a guerra havia sido tomada justamente em um momento em que parte da população esperava uma redução da participação dos Estados Unidos no conflito.

A juventude reage

A reação da juventude foi imediata e universidades de todo o país passaram a registrar atos de protesto. Em Kent State, no estado de Ohio, estudantes organizaram uma mobilização em 1º de maio. Embora a manifestação inicial tenha sido pacífica, a situação se deteriorou durante a noite, quando confrontos entre jovens e policiais tomaram conta do centro da cidade. Algumas lojas sofreram danos na ocasião.

Diante do agravamento da situação, lembra a BBC, o prefeito de Kent solicitou auxílio ao governador de Ohio, que autorizou o envio da Guarda Nacional para a cidade. Nos dias seguintes, os confrontos prosseguiriam. Um prédio utilizado pelo Corpo de Treinamento de Oficiais da Reserva (ROTC) foi destruído por um incêndio, embora nunca tenha ficado claro quem iniciou o fogo.

Guardas nacionais mascarados disparam gás lacrimogêneo contra a multidão de manifestantes no campus da Kent State University – Crédito: Getty Images

Mortes no campus

Na manhã de 4 de maio, milhares de estudantes se reuniram para mais um protesto. Apesar da presença dos militares no campus e da proibição oficial de manifestações, estima-se que cerca de 3 mil pessoas estavam presentes na data. Muitos afirmaram posteriormente que sequer tinham conhecimento da proibição.

Por volta do meio-dia, os guardas nacionais ordenaram que a multidão se dispersasse. O que veio em seguida continua sendo motivo de controvérsia. Algumas testemunhas relataram que estudantes lançaram pedras contra os militares. Houve uso de gás lacrimogêneo e sucessivos momentos de tensão. Em determinado instante, soldados da Guarda Nacional dispararam munição real contra a multidão.

O resultado foi devastador. Quatro estudantes (a saber: Allison Krause, Jeffrey Miller, Sandra Scheuer e William Schroeder) morreram e outros nove ficaram feridos.

Então surgiu uma enorme onda de indignação, que refletiu no que é considerado o maior movimento estudantil da história dos Estados Unidos, quando centenas de universidades entraram em greve. Por todo o país, milhões de estudantes participaram de protestos e vigílias. Desses eventos, surgiram registros impactantes. É o caso de uma imagem feita pelo fotógrafo John Filo, que mostra uma jovem ajoelhada e gritando ao lado do corpo de Jeffrey Miller. Publicada em jornais de todo o país, a cena se tornaria um dos registros mais emblemáticos do século 20.

Uma cidade dividida

Meses mais tarde, uma equipe da BBC visitou Kent para avaliar as consequências do ocorrido. As entrevistas revelaram que a cidade seguia dividida e que, enquanto alguns moradores consideravam os estudantes vítimas de uma ação injustificável, outros acreditavam que os manifestantes haviam provocado o confronto.

Ginny Rickard, testemunha ocular dos disparos, contou que muitas pessoas a princípio não acreditaram que os soldados haviam utilizado balas de verdade. A seriedade da situação só ficou evidente quando os corpos começaram a ser levados para ambulâncias.

Você via corpos sendo colocados em macas em uma ambulância, acho que foi aí que as pessoas realmente acreditaram que aquilo tinha acontecido, e foi aí que começaram a desmoronar. As garotas se mexiam chorando histericamente e o principal que você ouvia eram pessoas gritando ‘por quê?'”, disse.

Por outro lado, alguns moradores de Kent seguiram defendendo a atuação das autoridades. Eles diziam que os protestos dos dias anteriores haviam ultrapassado os limites e que os manifestantes eram radicais que ameaçavam a ordem social.

Nas décadas seguintes, diversas investigações, audiências e processos judiciais foram realizados. Mas, no fim, ninguém foi condenado pelas mortes.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.