Livro lançado pela USP reúne mapas celestes indígenas
E-book gratuito lançado pela USP apresenta constelações da indígenas em imagens de alta resolução; confira!

A astronomia dos povos originários do Brasil ganhou um novo instrumento de preservação e divulgação. O Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP lançou o e-book gratuito O Céu dos Povos Originários: O Legado de Germano Afonso, uma obra que reúne mapas celestes indígenas em alta resolução e disponibiliza material didático voltado para educadores, pesquisadores e estudantes. O projeto também homenageia o pesquisador guarani Germano Bruno Afonso, considerado um dos pioneiros nos estudos da etnoastronomia brasileira.
Desenvolvido pela graduanda em Astronomia Gabriela Silva Salustiano e pelos professores Laerte Sodré Jr. e Vera Jatenco Silva Pereira, o livro responde a uma demanda antiga de escolas e editoras por representações visuais de qualidade sobre os conhecimentos astronômicos indígenas. Além de registrar o trabalho de Afonso, falecido em 2021 vítima da covid-19, a publicação busca tornar esse patrimônio cultural mais acessível ao público.
Constelações indígenas
Diferentemente da tradição astronômica ocidental, que costuma formar constelações a partir de agrupamentos de estrelas, os sistemas celestes dos povos guarani incorporam também regiões claras e escuras da Via Láctea, incluindo nuvens de poeira cósmica. Essas figuras funcionam como marcadores temporais, indicando mudanças sazonais e orientando atividades relacionadas aos ciclos da natureza.
A obra apresenta cinco grandes constelações associadas à tradição tupi-guarani: a Ema, o Homem Velho, a Anta do Norte, o Cervo do Pantanal e o Colibri. Cada uma delas está relacionada a momentos específicos do ano e a narrativas mitológicas transmitidas entre gerações. O surgimento dessas figuras no céu sinaliza fenômenos como a chegada das chuvas, o início das estações ou períodos importantes para o plantio e a colheita.
Para produzir as ilustrações, Gabriela utilizou fotografias digitais do céu profundo e softwares astronômicos especializados, como o Aladin Sky Atlas e o Stellarium. Com base nos registros deixados por Germano Afonso, ela reconstruiu manualmente os traçados indígenas, relacionando-os às estrelas e regiões celestes identificadas pela astronomia contemporânea. O resultado são imagens que sobrepõem as interpretações indígenas ao mapa celeste conhecido pela ciência ocidental, facilitando a compreensão e o uso pedagógico do material.
Segundo os pesquisadores, o lançamento dialoga diretamente com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e com a Lei 11.645/2008, que determina o ensino da história e da cultura indígena nas escolas brasileiras. Ao disponibilizar livremente as imagens e permitir sua reprodução para fins educacionais, o projeto pretende fortalecer a presença dos saberes originários em salas de aula de todo o país.
A iniciativa integra o projeto Telescópios na Escola, criado para ampliar a cultura científica entre estudantes da educação básica por meio da observação do céu e da realização de atividades práticas.