A vida dupla do pai de Woody Harrelson como matador de aluguel

Charles Harrelson abandonou a família quando o astro de Hollywood ainda era criança, e chegou a afirmar que participou do assassinato de JFK

Harrelson capa
Charles Harrelson (à esq.) foi matador de aluguel e pai de Woody Harrelson (à dir.) - Getty Images

Quando o ator Woody Harrelson conquistou fama internacional em séries como Cheers e filmes como Assassinos por Natureza e Onde os Fracos Não Tem Vez, poucos imaginavam que sua história familiar parecia saída de um roteiro policial. Muito antes de se tornar um dos rostos mais conhecidos de Hollywood, o ator descobriu que seu pai era um assassino profissional, condenado por homicídios e envolvido em um dos crimes mais chocantes da história judicial dos Estados Unidos.

A trajetória de Charles Voyde Harrelson mistura crime organizado, julgamentos históricos, teorias da conspiração e uma complicada relação entre pai e filho. Sua vida atravessou décadas de violência e terminou atrás das grades, mas continua despertando fascínio por parecer mais ficção do que realidade.

O assassino Charles Harrelson

Nascido em 1938 na pequena cidade de Lovelady, no estado do Texas, Charles Harrelson cresceu em uma família que possuía ligações com forças de segurança e órgãos de aplicação da lei. Ainda jovem, serviu brevemente na Marinha dos Estados Unidos, mas acabou seguindo um caminho muito diferente daquele esperado para ele. Após deixar o serviço militar, envolveu-se em pequenos crimes, apostas e atividades ilícitas que gradualmente o colocaram no radar das autoridades.

Na década de 1950, casou-se com Diane Oswald, com quem teve três filhos: Jordan, Woody e Brett Harrelson. A família, porém, jamais viveu uma rotina estável. Charles passava períodos ausente e frequentemente enfrentava problemas com a Justiça. Em 1968, quando Woody tinha apenas sete anos de idade, abandonou definitivamente a esposa e os filhos. A partir daquele momento, Diane assumiu sozinha a criação das crianças.

O desaparecimento do pai da vida familiar coincidiu com uma escalada em sua carreira criminosa. Segundo relatos posteriores e investigações policiais, Charles passou a atuar como matador de aluguel. Embora diversas acusações tenham surgido ao longo dos anos, a primeira condenação relevante veio em 1973, quando foi considerado culpado pelo assassinato do empresário Sam Degelia Jr., um comerciante de grãos do Texas. De acordo com os promotores, Harrelson recebeu dinheiro para executar o crime. Condenado a 15 anos de prisão, acabou sendo libertado após cumprir cerca de cinco anos por bom comportamento.

A liberdade, no entanto, durou pouco.

Crime impactante

Poucos meses depois de deixar a prisão, Harrelson foi contratado para realizar aquele que se tornaria o crime mais famoso de sua carreira. O alvo era o juiz federal John H. Wood Jr., magistrado conhecido por aplicar penas severas contra traficantes de drogas. Por causa de sua reputação, havia recebido o apelido de “Maximum John” entre advogados e criminosos.

Segundo a acusação apresentada posteriormente nos tribunais, o traficante Jimmy Chagra ofereceu US$ 250 mil para que Harrelson assassinasse o juiz. Em 29 de maio de 1979, Wood foi morto a tiros do lado de fora de sua residência em San Antonio, Texas. O assassinato provocou enorme repercussão nacional por representar a primeira vez que um juiz federal em exercício era executado nos Estados Unidos.

O juíz John Wood Jr. – Getty Images

Após uma extensa investigação conduzida pelo FBI, Charles Harrelson foi localizado em 1980. Sua prisão ocorreu depois de um tenso cerco policial que durou horas. Sob efeito de cocaína, ele fez declarações confusas, ameaças e confissões extravagantes antes de finalmente se render às autoridades. Posteriormente, foi julgado e condenado pelo assassinato do magistrado, recebendo duas penas de prisão perpétua.

A descoberta de Harrelson

Foi justamente durante esse período que Woody Harrelson descobriu a verdadeira dimensão da vida do pai. Anos depois, o ator relataria que ouviu o nome “Charles V. Harrelson” em uma transmissão de rádio sobre o julgamento do assassinato do juiz. Intrigado, perguntou à mãe se aquele homem era seu pai. A resposta mudou para sempre sua percepção sobre a própria família.

Mesmo diante da gravidade dos crimes, Woody decidiu reaproximar-se do pai quando se tornou adulto. O ator visitava Charles regularmente na prisão e chegou a gastar milhões de dólares em tentativas de obter um novo julgamento para ele. Em entrevistas, Woody descreveu o pai como uma pessoa extremamente inteligente, articulada e carismática, embora reconhecesse que ele praticamente não participou de sua criação.

A figura de Charles Harrelson tornou-se ainda mais controversa quando ele passou a alegar ter participado do assassinato do presidente John F. Kennedy, ocorrido em 1963. A declaração foi feita durante um momento de instabilidade enquanto estava cercado pela polícia. Mais tarde, ele retirou a afirmação e admitiu que havia mentido. Ainda assim, a declaração alimentou teorias conspiratórias que persistem até hoje em determinados círculos. Nenhuma investigação oficial encontrou evidências que ligassem Harrelson ao assassinato de Kennedy.

Charles Harrelson morreu em 2007, vítima de um ataque cardíaco enquanto cumpria pena em uma prisão federal. Sua trajetória deixou um legado controverso: de um lado, tornou-se um dos assassinos por encomenda mais conhecidos da história americana; de outro, permaneceu ligado para sempre à biografia de um dos atores mais respeitados de sua geração.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.