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Dia D: As peculiaridades sobre os Desembarques na Normandia

Panetone, pombos e um jogo de pôquer: O que os livros de história não contam sobre o Dia D

Fotografia registra o Dia D
Fotografia registra o Dia D - Domínio Público

O “Dia D” foi pensado por anos, mas – em cima da hora – acabou influenciado por uma previsão meteorológica e por correntes marítimas imprevistas; por mensagens de pombos ou codificadas em poemas; por acreditar em mentiras e negar verdades. A guerra, afinal, nem sempre avança em linha reta; muitas vezes, ela se move entre chocolates amargos, doces panetones e, claro, o imprevisto.

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1. O meteorologista que evitou o “Dia D-esastre”

Poucos homens influenciaram tanto o curso da Segunda Guerra Mundial sem disparar um único tiro quanto o meteorologista britânico James Stagg. Reservado, meticuloso e frequentemente descrito como mal-humorado, ele carregava sobre os ombros uma responsabilidade gigantesca: determinar se o maior desembarque anfíbio da história poderia ou não ser realizado.

No início de junho de 1944, tudo estava pronto para a invasão da Normandia. Milhares de navios aguardavam ordens, centenas de milhares de soldados estavam embarcados e o general americano Dwight D. Eisenhower preparava-se para dar início ao “Dia D”. A data prevista era 5 de junho. Contudo, ao analisar os dados meteorológicos, Stagg apresentou um prognóstico alarmante: uma forte tempestade se aproximava do Canal da Mancha. Lançar a operação naquele momento seria arriscar uma catástrofe.

Desembarque na praia Omaha, junho de 1944 / Crédito: Domínio Público

Contra a pressão de muitos oficiais, Eisenhower ouviu o meteorologista e adiou a invasão por 24 horas. Foi uma decisão histórica. Stagg identificara uma estreita janela de aproximadamente 36 horas de tempo relativamente favorável em meio ao mau tempo que castigava a região.

Do outro lado, os alemães acreditaram que nenhuma invasão ocorreria sob aquelas condições. Convencido disso, o marechal de campo nazista Erwin Rommel deixou seu posto e viajou para visitar a esposa. Nada o relaxava como fazer amor.

Na madrugada de 6 de junho, os Aliados atravessaram o Canal da Mancha. Se James Stagg tivesse errado — ou se não tivesse sido ouvido — o “Dia D” poderia ter se transformado em um “Dia D-esastre”. Em vez disso, abriu as portas para a libertação da Europa Ocidental.


2. Quando a Inteligência Alemã foi burra

A costa da França não foi invadida apenas por navios, tanques e soldados. Antes que o primeiro aliado pisasse nas praias da Normandia, ela já havia sido “invadida” por uma avalanche de mentiras cuidadosamente arquitetadas. Aquele gigantesco teatro de ilusões recebeu o nome de Operação Fortitude e constituiu uma das mais brilhantes campanhas de engano da história militar. Como ocorreu?

Quatro milhões de mapas falsos, além de mensagens de rádio forjadas, relatórios inventados e movimentações fictícias, foram lançados contra a inteligência alemã. No sudeste da Inglaterra, um exército que, na realidade, não existia parecia preparar-se para cruzar o Canal da Mancha. Seu comandante aparente era o célebre general George Patton, a quem os alemães respeitavam e temiam, como se respeita e teme a todo louco. Diante deles, apontando para Calais, perfilavam-se divisões fantasmas, compostas por tanques de borracha, aeronaves infláveis e acampamentos cuidadosamente montados para serem vistos do céu.

A encenação foi tão convincente que, mesmo depois do desembarque de 6 de junho de 1944, Hitler permaneceu convencido de que aquele era apenas um ataque preliminar. O verdadeiro golpe, acreditava ele, viria em Calais, a cerca de 320 quilômetros das praias normandas. Por essa razão, manteve quinze divisões de elite estacionadas ali durante quase sete semanas, aguardando uma invasão que jamais aconteceu.

Enquanto os alemães esperavam um inimigo imaginário, os Aliados consolidavam sua cabeça de ponte na França. Assim, numa das maiores ironias da guerra, tanques de borracha, operadores de rádio e estrategistas da desinformação mostraram que a inteligência alemã também podia ser burra.


3. O primeiro francês morto foi morto por outro francês

Na manhã de 6 de junho de 1944, enquanto milhares de embarcações aliadas cruzavam o Canal da Mancha e a libertação da França começava a tomar forma nas praias da Normandia, um episódio quase simbólico revelava a complexidade daquela guerra. O primeiro francês morto no “Dia D” não caía pelas mãos de um alemão. Abatia-o outro francês.

O capitão Georges Masson, integrante do destacamento galo do Nº 4 Commando, desembarcou em Ouistreham às 7h32. Como tantos outros homens naquele amanhecer decisivo, avançava para reconquistar a terra de sua pátria. Havia esperado mais de mil dias por aquele momento. A França desastrada, humilhada e ocupada finalmente recebia de volta alguns de seus filhos armados.

Masson, logo que tocou o solo normando, porém, foi atingido por um disparo de precisão. O projétil não partira de um soldado nazista, mas de um atirador francês que combatia ao lado do Terceiro Reich. O franco-atirador pertencia à Legião de Voluntários Franceses Contra o Bolchevismo, unidade formada por traidores franceses que escolheram vestir o uniforme alemão e lutar sob as bandeiras de Hitler.

Comandos Royal Marine caminham pela Praia Sword, 6 de Junho de 1944 – Evans J L

Assim, antes mesmo que a batalha se desenrolasse plenamente, a França viveu, em miniatura, o atroz drama que a ocupação havia produzido. Em uma mesma praia encontravam-se franceses que vinham libertar seu país e franceses que, covardemente, haviam escolhido defender a genuflexão ante o ocupante.

A morte de Georges Masson parece recordar que o “Dia D” não foi apenas um confronto entre nações. Em certos momentos, foi também uma guerra civil silenciosa, travada dentro da própria e ambivalente alma da França, onde compatriotas se encontraram em lados opostos da História e apontaram suas armas uns contra os outros.


4. O erro que foi vantagem

Entre as cinco praias do “Dia D”, a de Utah Beach foi a que apresentou o menor número de baixas. Enquanto em Omaha cerca de 2.500 aliados morreram, foram feridos ou desapareceram, em Utah as perdas ficaram em torno de 197 homens. A diferença foi tão grande que parece resultado de um planejamento perfeito. Na realidade, nasceu de um erro. E da decisão de um homem.

Na madrugada de 6 de junho de 1944, as fortes correntes marítimas desviaram a primeira onda de desembarque norte-americana aproximadamente dois quilômetros ao sul do local previsto. Em circunstâncias normais, isso poderia ter provocado confusão, atraso e até uma catástrofe. Contudo, o oficial que acompanhava a operação era o brigadeiro-general Theodore Roosevelt Jr., filho do ex-presidente dos EUA Theodore Roosevelt (parente de quinto grau do então presidente americano Franklin Delano Roosevelt).

Ao perceber o forçado equívoco, ele avaliou rapidamente a situação e, em vez de tentar reposicionar as tropas sob fogo inimigo, tomou uma decisão que entraria para a história. Com notável sangue-frio, declarou: “Vamos começar a guerra daqui mesmo”.

O acaso mostrou-se favorável. O trecho onde os soldados haviam chegado era menos defendido pelos alemães do que o setor originalmente escolhido. Aquilo que parecia um erro do acaso transformou-se numa vantagem decisiva: milhares de homens puderam desembarcar com perdas muito menores do que as previstas.

Trinta e seis dias depois, o homem que corrigiu o erro das correntes marítimas, Roosevelt, morreria de ataque cardíaco (algumas fontes apontam, equivocadamente, que ele caiu no desembarque). Por sua coragem e liderança exemplar, recebeu postumamente a Medalha de Honra, a mais alta condecoração militar dos Estados Unidos.


5. Do chocolate americano ao panettone alemão 

A invasão da Normandia não foi travada apenas com fuzis, tanques e artilharia. Também a travaram os estômagos dos soldados. Em ambos os lados da frente de batalha, a comida desempenhou um papel importante na resistência física e moral dos combatentes, embora de maneiras bastante diferentes.

Os norte-americanos desembarcaram levando as famosas rações de combate, entre elas a chamada ‘Ração D’: uma barra de chocolate especialmente desenvolvida para situações de emergência. Não era um doce destinado ao prazer, pelo contrário. Os fabricantes receberam a orientação de torná-la pouco apetitosa, extremamente dura e amarga, para que os soldados não a consumissem rápido ou sem necessidade. Além disso, sua composição provocava intensa sede, levando o combatente a beber água e sentir-se saciado por mais tempo.

Do lado alemão, muitos soldados carregavam consigo algo mais reconfortante: pedaços de Stollen, o tradicional bolo natalino alemão, rico em frutas secas e calorias. O marechal Erwin Rommel acreditava que uma alimentação adequada ajudava a preservar a moral das tropas, sobretudo em momentos de grande tensão.

A guerra, porém, produzia situações inesperadas. Não era raro que soldados americanos, cansados das barras de chocolate militares, trocassem cigarros por fatias de bolo oferecidas por prisioneiros alemães. Assim, em meio ao maior confronto do século XX, um simples pedaço de panetone alemão podia atravessar as linhas inimigas e lembrar a todos que, antes de serem soldados, eram homens. Famintos.


6. Os pombos condecorados venceram os falcões assassinos

Naquele gigantesco esforço para libertar a Europa ocupada, os Aliados recorreram a uma tecnologia tão antiga quanto confiável: os pombos-correio. Durante a Operação Columba, cerca de 16 mil dessas aves foram lançadas de paraquedas sobre a França rendida. Muitas levavam recipientes especiais contendo formulários, instruções ou mensagens destinadas à resistência francesa. Outras tinham a missão de trazer informações de volta à Inglaterra.

Entre elas destacou-se um pequeno pombo chamado Gustav. Quando a manhã do desembarque na Normandia ainda estava em seus primeiros momentos, ele transportou para a Grã-Bretanha uma das primeiras mensagens vindas da invasão: “Estamos a 20 milhas da praia”. Para cumprir sua missão, voou cerca de 240 quilômetros em pouco mais de cinco horas, enfrentando ventos contrários e os perigos do céu em guerra.

Pela façanha, Gustav recebeu a Medalha Dickin, considerada o equivalente animal da Cruz Vitória britânica. E não foi o único. Ao longo do conflito, mais pombos receberam condecorações por bravura do que muitos soldados.

O valor dessas aves era tão reconhecido que o Exército britânico mantinha unidades especializadas em sua criação e treinamento. Os alemães, por sua vez, levavam a ameaça a sério: chegaram a utilizar falcões treinados para interceptar e abater pombos aliados. Era uma guerra travada também entre asas.


7. O “D” não era um código, era rotina

Muita gente imagina que o “D” de “Dia D” significava Deliverance (Libertação), Doom (Destino) ou alguma outra palavra grandiosa. Na realidade, não era nada disso. Tratava-se apenas de uma designação militar utilizada repetidamente para indicar a data de início de uma operação, qualquer uma cujo dia exato ainda deveria permanecer em segredo. Faltava o número, por isso havia uma letra, o “D”. Não era um código, era uma rotina.

Uma das fotos que eternizou o Desembarque na Normandia / Crédito: Wikimedia Commons

Da mesma forma que existia a “Hora H” para marcar o instante preciso de uma ação, o “Dia D” servia apenas como referência. Houve inúmeros “Dias D” durante a Segunda Guerra Mundial. O que tornou aquele “Dia D” diferente dos demais foi sua dimensão histórica. A operação foi tão vasta, tão decisiva e tão bem-sucedida que acabou eclipsando todas as outras.

Assim, com o passar do tempo, a expressão deixou de designar uma data qualquer e passou a identificar esse acontecimento único, o mais célebre desembarque militar da história e um momento decisivo do século XX.


8. O paraquedista que foi salvo pelo pôquer

Na guerra, homens morrem por decisões de generais, por erros de cálculo, por um segundo de distração. Mas, às vezes, sobrevivem por causa de uma simples partida de pôquer.

Foi o que aconteceu com John Steele, paraquedista da 82ª Divisão Aerotransportada norte-americana durante o “Dia D”. Na noite anterior ao desembarque, o acaso entrou discretamente em cena. Após perder uma partida de cartas para um companheiro, Steele precisou trocar de avião com ele: essa era a aposta. Parecia uma contrariedade sem importância. Contudo, o destino escondia nessa derrota nos naipes uma improvável vitória na guerra.

Na madrugada de 6 de junho de 1944, enquanto centenas de paraquedistas saltavam sobre a Normandia, o avião que deveria transportá-lo foi abatido. Os homens que estavam a bordo enfrentaram um destino terrível. Steele, porém, encontrava-se em outra aeronave.

Sua sorte, entretanto, ainda seria posta à prova. Durante o salto sobre a pequena cidade francesa de Sainte-Mère-Église, seu paraquedas ficou preso no campanário da igreja local. Suspenso a dezenas de metros do chão, tornou-se um alvo perfeito. Sem poder escapar, fingiu-se de morto enquanto a batalha rugia abaixo dele. Durante cerca de duas horas, ouviu tiros, explosões e gritos, balançando ao vento como uma estranha figura entre a vida (real) e a morte (atuada).

Sobreviveu. E sua história tornou-se uma das mais célebres daquele dia. Até hoje, a igreja de Sainte-Mère-Église mantém um boneco de paraquedista pendurado em sua torre, lembrando aos visitantes que, por vezes, a História muda de rumo por causa de um ás de espada mal jogado numa mesa de pôquer.


9. Não era um poema, era um aviso de morte

Uma noite antes, a de 5 de junho de 1944, a poucas horas do maior desembarque anfíbio já visto, uma das mensagens mais importantes da guerra não foi transmitida por generais nem por diplomatas. Foi recitada pelo rádio, em forma de poesia.

Às 21h15, a BBC levou ao ar a primeira estrofe do poema Chanson d’Automne, de Paul Verlaine: “Os longos soluços dos violinos do outono…” Para milhões de ouvintes, eram apenas versos melancólicos. Para a Resistência Francesa, porém, constituíam um sinal combinado: a invasão aliada ocorreria dentro das próximas 48 horas.

O mais surpreendente é que os alemães interceptaram a mensagem. Seus serviços de inteligência compreenderam o significado do código e transmitiram o alerta aos escalões superiores. Mas, nos corredores do Alto Comando, a advertência foi recebida com ceticismo. Os oficiais acreditaram tratar-se de uma manobra de desinformação, mais uma entre tantas que circulavam naquele período.

Quando a Normandia entrou em chamas na madrugada seguinte, milhares de soldados alemães nunca mais escutariam aquele poema, na realidade aquele aviso de morte…


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