Calafia, a lendária rainha que inspirou o nome do estado da Califórnia

Nome do estado da Califórnia teria sido inspirado em uma rainha fictícia, a soberana de uma ilha rica e misteriosa habitada apenas por mulheres negras

Rainha Calafia em mural no Mark Hopkins Hotel, em São Francisco; obra data de 1926 - Crédito: Domínio público

Alguns nomes de lugares possuem significados não muito complexos. São Paulo, por exemplo, vem do apóstolo que acompanhou Cristo — e Salvador recebeu esse nome em referência a Jesus. Mas você sabe de onde vem o nome do estado da Califórnia?

A resposta pode surpreender: ao tudo indica que um dos estados mais famosos dos Estados Unidos foi batizado em homenagem a uma personagem fictícia oriunda de um romance espanhol do século 16. Estamos falando de Calafia, uma rainha guerreira negra que governava uma ilha fantástica habitada exclusivamente por mulheres.

Como explica o site All That’s Interesting, a história surgiu por volta de 1510 nas páginas de “Las sergas de Esplandián” (“As Aventuras de Esplandián”), obra escrita pelo autor espanhol Garci Rodríguez de Montalvo. O livro fazia parte da popular série de romances de cavalaria Amadís de Gaula e acompanhava as aventuras de Esplandián, filho do herói Amadís.

Soberana da Califórnia

Na narrativa, Calafia é apresentada como a soberana da Califórnia, uma ilha rica e misteriosa localizada próxima ao Paraíso Terrestre. O lugar era habitado apenas por mulheres negras, descritas como guerreiras poderosas e independentes, semelhantes às lendárias amazonas da mitologia grega.

Montalvo retrata suas habitantes como mulheres de grande força física e coragem. Elas conviviam com criaturas fantásticas conhecidas como grifos, seres com corpo de leão e cabeça e asas de águia, que utilizavam em combate. No topo dessa sociedade estava Calafia, descrita pelo autor como uma líder excepcionalmente bela, inteligente e valente.

Segundo a trama, a rainha decide participar de uma guerra ao lado dos muçulmanos contra os exércitos cristãos liderados pelo rei Amadís e seus aliados. Durante a batalha, os grifos de Calafia fogem ao controle e passam a atacar indiscriminadamente combatentes dos dois lados. No final, as forças cristãs triunfam. A rainha converte-se ao cristianismo, casa-se com um cavaleiro cristão e retorna à sua ilha, que passa a aceitar também a presença de homens.

Embora hoje possa parecer apenas uma fantasia, a obra refletia temas muito presentes na Espanha da época. Montalvo havia vivido durante a Reconquista, processo que culminou na expulsão dos governantes muçulmanos da Península Ibérica em 1492. Por isso, questões ligadas à guerra religiosa, conquista e conversão aparecem de forma marcante em sua narrativa.

Retrato de Hernán Cortés e página de Las Sergas de Esplandián (As Aventuras de Esplandián) – Crédito: Domínio Público

Alguns estudiosos acreditam que Calafia possa ter sido inspirada em figuras reais. Uma das candidatas é Sayyida al Hurra, uma governante muçulmana do norte da África que ficou conhecida por sua influência política e por sua associação com atividades de pirataria após a expulsão de muçulmanos da Espanha.

Além disso, existe a hipótese de que o nome Calafia tenha origem na palavra árabe khalifa, ou califa, título utilizado por líderes do mundo islâmico. Outros pesquisadores apontam possíveis influências do poema medieval Canção de Roland, que menciona uma região chamada Califerne ou Califeira.

Mas como uma personagem de ficção poderia dar nome a um território real?

Uma possível explicação

De acordo com o All That’s Interesting, a explicação mais aceita envolve os exploradores espanhóis que chegaram à costa oeste da América do Norte poucas décadas após a publicação do romance. Um deles foi o conquistador espanhol Hernán Cortés.

Na década de 1530, Cortés financiou expedições em busca de uma ilha lendária repleta de riquezas. Alguns relatos da época descrevem essa busca como uma tentativa de encontrar uma terra abundante em ouro e pérolas, habitada por mulheres. A descrição lembra de forma impressionante a Califórnia imaginada por Montalvo.

Quando os exploradores alcançaram a região que hoje corresponde à Baixa Califórnia, no México, acreditaram inicialmente que se tratava de uma ilha. Pouco tempo depois, mapas e documentos espanhóis já registravam o local com o nome Califórnia.

Embora não exista um registro definitivo revelando quem aplicou o nome pela primeira vez, a maioria dos historiadores considera altamente provável que ele tenha sido inspirado diretamente no romance de Montalvo. Outras teorias sugerem origens em expressões latinas ou em palavras indígenas, mas nenhuma delas conquistou o mesmo grau de aceitação entre os especialistas.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.