A tecnologia avançada dos capacetes militares sassânidas utilizados pelo Império Persa
Novo estudo aponta que os antigos metalúrgicos persas trabalhavam com latão bem antes, e de maneiras muito mais variadas, do que se pensava

Um estudo realizado por pesquisadores do Museu Britânico e da Universidade de Cambridge revelou que os antigos metalúrgicos persas trabalhavam com latão muito antes, e de maneiras muito mais variadas, do que se pensava. A análise de artefatos metálicos do Império Sassânida, produzidos entre os séculos 4 e 7 d.C., identificou o uso do material em joias, acessórios e até capacetes militares, o que indica, de acordo com os especialistas, um conhecimento sofisticado sobre o comportamento das ligas metálicas.
Os pesquisadores examinaram objetos encontrados em duas importantes cidades sassânidas: Merv, no atual Turcomenistão, e Nínive, no Iraque. Embora o uso do latão pelos romanos e bizantinos já tivesse sido estudado, o papel desse metal no mundo sassânida permanecia pouco compreendido.
Diferente do bronze, produzido a partir da mistura de cobre e estanho, o latão combina cobre e zinco. Sua fabricação na Antiguidade exigia técnicas complexas. Antes da destilação do zinco, artesãos produziam o metal por meio de um processo chamado cimentação, no qual cobre, minério de zinco e carvão vegetal eram aquecidos juntos, permitindo que o vapor de zinco penetrasse no cobre. Esse método normalmente gerava ligas com menos de 30% de zinco.
As escavações em Merv revelaram fragmentos metálicos pertencentes a vários períodos de ocupação sassânida. Como destacou o portal Archaeology News, entre os objetos dos séculos 4 e 5 estavam partes de pulseiras, anéis, acessórios e um grampo de cabelo decorado com lápis-lazúli e vidro colorido. Muitos desses itens haviam sido moldados por fundição.
Análise química
A análise química realizada pelos profissionais mostrou grandes variações no teor de zinco nos artefatos, oscilando entre cerca de 2% e 27%. Segundo a equipe, isso indica reaproveitamento de metais antigos, a mistura de latão com bronze e o uso de suprimentos irregulares de matéria-prima. Além disso, algumas peças continham chumbo, um elemento que facilitava o fluxo do metal durante a fundição.
O estudo também destacou que, nesse período inicial, o latão parece ter sido valorizado principalmente por sua aparência dourada e por seu prestígio social, o que o tornava ideal para joias e objetos de exibição.
Já os artefatos sassânidas dos séculos 6 e 7 revelam um uso mais prático do material. Contas, acessórios e peças moldadas a partir de chapas marteladas mostram que os artesãos exploravam a maleabilidade do latão. Ligas com teor moderado de zinco eram mais fáceis de trabalhar do que o bronze, permitindo cortar, moldar e perfurar o metal com menor risco de rachaduras.

Técnicas cuidadosas
Os exames científicos revelaram técnicas de construção bastante cuidadosas. Um dos capacetes de Nínive possuía placas de ferro revestidas por finas chapas de latão dobradas sobre as bordas do metal. Rebites e tiras de latão ajudavam a manter toda a estrutura unida. Em algumas áreas, partes ausentes do metal estavam escondidas sob bandas de suporte, sugerindo planejamento detalhado e preocupação em evitar desperdícios.
A presença do latão em equipamentos militares também aparece em outras descobertas arqueológicas. Capacetes semelhantes encontrados no norte do Irã contêm peças do mesmo material. O mesmo padrão é observado em relação a uma armadura em escamas de latão descoberta em Qasr-e Abu Nasr, próximo a Shiraz. Além disso, uma cabeça de maça (arma antiga) preservada no Museu Britânico também combina núcleo de ferro com revestimento de latão.
Os pesquisadores acreditam que esses achados indicam um papel militar mais amplo para a nobreza sassânida durante os últimos séculos do império. Isso estaria relacionado à existência de um exército grande e dependente de equipamentos padronizados, sistemas de reparo e fornecimento contínuo de matérias-primas. A demanda militar por latão em larga escala provavelmente exigia produção regular e possivelmente algum controle estatal sobre recursos e fabricação.
Novo valor social
A equipe também comparou os objetos sassânidas com peças de latão do período islâmico encontradas em Merv e datadas do século 9. Constatou-se que os artefatos islâmicos apresentavam níveis mais altos de zinco, menos impurezas e sinais de produção mais padronizada, sinais de que o latão havia se tornado mais comum e refinado.
Essa transformação também alterou o valor social do material. Durante o período sassânida, o latão parece ter sido relativamente raro, conferindo status aos objetos produzidos com ele. Já no período islâmico, sua maior disponibilidade reduziu esse prestígio.