Governo Trump é pressionado a investigar banco suíço em razão de contas ligadas aos nazistas

Banco suíço UBS está sendo acusado de dificultar esforços do Congresso dos Estados Unidos para esclarecer ligações históricas da instituição com o Nazismo

Marcha da Schutzstaffel na Alemanha Nazista / Crédito: Foto por German Federal Archive pelo Wikimedia Commons

O governo Trump está sendo pressionado a investigar o banco suíço UBS por supostamente dificultar esforços do Congresso dos Estados Unidos para esclarecer ligações históricas da instituição com o regime nazista. As acusações envolvem contas bancárias associadas ao saque de bens judaicos durante a Segunda Guerra Mundial e possíveis conexões com rotas de fuga utilizadas por oficiais da SS para escapar rumo à Argentina após o conflito.

De acordo com o New York Post, a pressão partiu do senador republicano Chuck Grassley, presidente do Comitê Judiciário do Senado, que enviou uma carta ao embaixador e rabino Yehuda Kaploun pedindo apoio para avançar em uma investigação bipartidária sobre o caso. No documento, Grassley classificou a conduta do banco como “uma vergonha histórica” e afirmou que as apurações realizadas nos anos 1990 não foram suficientes para trazer justiça plena às vítimas do Holocausto. O senador também copiou na correspondência o secretário de Estado Marco Rubio, o secretário do Tesouro Scott Bessent e o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell.

Segundo Grassley, a investigação busca esclarecer a atuação do antigo Credit Suisse, adquirido pelo UBS em 2023 por cerca de 3 bilhões de dólares. O senador afirma que o banco suíço estaria se recusando a cooperar plenamente com o Congresso ao reter documentos relacionados a contas ligadas ao regime de Adolf Hitler.

Em 1999, o Credit Suisse participou de um acordo de 1,25 bilhão de dólares com sobreviventes do Holocausto e familiares de vítimas, após acusações de ter ajudado a transferir ativos judaicos para contas vinculadas aos nazistas. Apesar disso, investigações posteriores indicaram que parte das conexões do banco com o Terceiro Reich nunca foi completamente esclarecida.

Possíveis vínculos

Em 2020, o Centro Simon Wiesenthal identificou possíveis vínculos entre até 12 mil nazistas refugiados na Argentina e contas ligadas a um banco predecessor do Credit Suisse. A descoberta levou à abertura de uma nova investigação independente.

O responsável por essa revisão, o investigador Neil Barofsky, revelou neste ano que cerca de 890 contas apresentavam possíveis relações com os esforços de guerra nazistas. Em depoimentos enviados ao Senado, Barofsky afirmou ainda que o UBS estaria retendo ou censurando milhares de páginas de documentos relevantes para as investigações.

Segundo o investigador, aproximadamente 23 mil páginas ligadas às finanças do Terceiro Reich teriam sido ocultadas inicialmente. Em correspondência posterior enviada a Grassley, o número subiu para 27,4 mil páginas. Barofsky também acusou o banco de fazer declarações “falsas e enganosas” sobre contas anteriormente identificadas como relacionadas a ativos judaicos transferidos à força para clientes alemães associados ao nazismo.

Além disso, o investigador afirmou que sua equipe teria sido impedida de seguir pistas consideradas “críveis” sobre supostos vínculos do banco com a SS e com as chamadas “ratlines”, redes clandestinas usadas para ajudar nazistas a fugir para a América Latina após a guerra.

Durante audiência pública realizada em fevereiro, Barofsky declarou que foi afastado da investigação entre 2022 e 2023 por se recusar a “suprimir a verdade” sobre os vínculos históricos dos bancos predecessores do UBS com o regime nazista.

Na mesma audiência, o rabino Abraham Cooper afirmou que as investigações anteriores sobre bancos suíços deixaram de examinar profundamente contas ligadas a nazistas, empresas de fachada e estruturas financeiras utilizadas para ocultar recursos obtidos pelo regime durante a guerra.

O UBS, por sua vez, rejeita as acusações de obstrução. Em comunicado apresentado ao Senado em 21 de maio, o banco afirmou ter fornecido ao investigador acesso a cerca de 16,5 milhões de páginas de documentos, retendo menos de 0,1% do total para proteger informações cobertas pelo sigilo advogado-cliente relacionado ao acordo firmado nos anos 1990 com vítimas do Holocausto.

A instituição também afirmou que não está ocultando documentos históricos da época da Segunda Guerra Mundial e ressaltou ter investido mais de 250 milhões de dólares, desde 2021, em uma revisão voluntária de contas potencialmente ligadas ao nazismo. O banco acrescentou ainda que possíveis ameaças judiciais do Centro Simon Wiesenthal influenciaram sua decisão de preservar determinados registros confidenciais.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.