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Estava sendo ‘assado vivo’: os relatos da primeira pessoa a aparecer na TV

William Taynton era um jovem de 20 anos quando foi recrutado às pressas para fazer parte de um experimento; naquele dia, ele se tornaria a primeira pessoa a aparecer na TV

John Logie Baird demonstra seu "televisor", em 1926 - Crédito: Getty Images

No dia 2 de outubro de 1925, o jovem William Taynton, então com 20 anos de idade, foi recrutado às pressas por um inventor escocês obcecado por transformar ficção científica em realidade. Ali, naquele laboratório improvisado no bairro do Soho, em Londres, o rapaz se tornaria a primeira pessoa a aparecer na TV. Isso mesmo. Décadas antes da popularização da televisão, cientistas já tentavam desenvolver formas de transmitir imagens à distância. Mas foi John Logie Baird, um inventor excêntrico que trabalhava com sucata, motores antigos e peças reaproveitadas, quem conseguiu tornar a ideia viável.

Um cientista inspirado

Filho de um pastor, Baird enfrentou problemas de saúde durante praticamente toda a vida e chegou a ser considerado inapto para servir na Primeira Guerra Mundial. Enquanto trabalhava em uma companhia elétrica, alimentava projetos mirabolantes inspirados pelo escritor de ficção científica HG Wells. Em uma de suas tentativas mais ambiciosas, tentou criar diamantes artificiais usando enormes cargas elétricas, conseguindo apenas causar um apagão parcial em Glasgow. Também fracassou ao desenvolver uma suposta cura caseira para hemorroidas.

Apesar dos tropeços, Baird acumulou algum dinheiro com pequenos negócios de meias e sabão e, em 1923, alugou um espaço simples em Hastings, no sul da Inglaterra. Foi ali, segundo a BBC, que começou seus experimentos mais sérios com televisão. Seu laboratório parecia mais um depósito improvisado: fios espalhados, motores velhos, discos de papelão, lentes de bicicleta e caixas reaproveitadas formavam o equipamento.

A engenhoca de Baird

O sistema criado por Baird funcionava com um grande disco giratório que escaneava imagens linha por linha usando luz intensa e fotodetectores. Os sinais eram transmitidos e reconstruídos em outro aparelho, produzindo imagens em movimento. Quando conseguiu transmitir a silhueta de um objeto, percebeu que estava próximo de concretizar o sonho que cientistas perseguiam havia décadas.

Após sofrer um choque elétrico em Hastings, Baird decidiu se mudar para Londres. Instalado em um apartamento no número 22 da Frith Street, em Soho, montou um novo laboratório. O aparelho, no entanto, emitia tanto calor que se tornava quase impossível para uma pessoa permanecer diante dele por muito tempo. Por isso, seus primeiros testes eram feitos com um boneco de ventríloquo apelidado de Stooky Bill.

Tudo mudou quando Baird precisou de um rosto humano para captar movimentos reais. Foi então que chamou William Taynton, um rapaz de 20 anos que trabalhava no andar de baixo.

William Taynton e Margaret Baird, esposa de John Logie Baird, em 1963 – Crédito: Getty Images

Anos depois, Taynton relembraria o episódio em entrevista à BBC:

O Sr. Baird desceu correndo cheio de empolgação e quase me arrastou para fora do meu escritório para ir ao seu pequeno laboratório. Acho que ele estava tão animado na época que as palavras não saíram. Ele quase me agarrou e quis que eu subisse o mais rápido possível”, contou.

Ao entrar no local, Taynton ficou assustado com a precariedade da instalação. Havia fios pendurados no teto, motores antigos funcionando e um emaranhado de peças espalhadas pelo chão.

“O aparelho que ele usava naquela época era um caos” recordou. “Quer dizer, ele tinha discos de papelão com lentes de bicicleta e coisas dentro, e lâmpadas de todo tipo, baterias antigas e alguns motores muito antigos que ele usava para fazer o disco rodar”, explicou.

Um calor insuportável

Sentado diante do transmissor, Taynton começou rapidamente a sentir o calor insuportável das luzes. Enquanto isso, Baird corria até o receptor para verificar se a imagem aparecia.

“Entrei em foco, mas não pude parar por mais de um minuto por causa do calor intenso dessas lâmpadas, então me afastei.” Neste momento, Baird colocou meia coroa (dois xelins e seis pences) na mão de Taynton e o convenceu a voltar à posição.

Mesmo desconfortável, ele permaneceu parado o máximo possível. Baird então pediu que ele mostrasse a língua e fizesse caretas para registrar movimento na imagem transmitida. Cada vez mais apavorado, Taynton gritou que estava “sendo assado vivo”.

Ele gritou de volta: ‘Aguente mais alguns segundos, William, alguns segundos se puder.’ Então eu fiz, e realmente parei o máximo que pude até não conseguir mais parar, e saí do foco no calor intenso; Foi muito desconfortável. E com isso, o Sr. Baird veio correndo do lado receptor com os braços para o alto e disse: ‘Eu te vi, William, eu já te vi. Finalmente tenho televisão, o primeiro filme de televisão de verdade.'”

Um rosto distorcido

Curioso, o jovem trocou de lugar com o inventor e observou o resultado do experimento. Na pequena tela, viu “uma foto minúscula do tamanho de 2 x 3 polegadas (5cm x 8cm)”. Ele disse:

De repente, o rosto de Baird apareceu na tela. Você podia ver os olhos dele se fechando, a boca dele e os movimentos que fazia. Não foi bom, veja bem. Não havia definição ali; Você só viu a sombra e as linhas todas descendo. Mas era uma imagem, e também comovente, e isso foi o principal que Baird conquistou. Ele havia alcançado um verdadeiro filme de televisão.”

Quando Baird perguntou o que ele achava da invenção, Taynton respondeu honestamente que parecia algo muito primitivo. O inventor discordou, dizendo que era apenas o começo.

Essa é a primeira televisão e você vai ver que estará em todas as casas do país. Na verdade, em todo o mundo”, teria dito.

Poucos meses depois, em janeiro de 1926, Baird realizaria a primeira demonstração pública de televisão da história. Embora sua tecnologia mecânica acabasse sendo superada por sistemas mais modernos desenvolvidos por grandes empresas, seu trabalho abriu caminho para toda a indústria televisiva.

Anos depois, já após a morte de Baird, William Taynton retornou ao prédio da Frith Street para a inauguração de uma placa comemorativa em homenagem ao inventor. Àquela altura, a televisão já havia deixado de ser uma curiosidade experimental para, como previra Baird, se tornar parte integrante de milhões de lares ao redor do mundo.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.