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Religião e política: até que ponto somos influenciados?

Entenda como a interferência de religiões na política criou, ao longo da História, guerras e intolerância

Capa do livro O Sagrado Profano - Divulgação

A humanidade precisa conhecer a história do entrelaçamento entre religião e política e como essa aliança, na construção do poder, transformou o mundo em um local perigoso de se viver, cheio de conflitos, guerras e intolerâncias.

Precisamos expor de forma acessível, mas não superficial; profunda, mas não difícil, todo o mal que a interferência das religiões na política fez e faz à humanidade.

Pois, somente conhecendo o passado, entenderemos como esse mal está entranhado no pensamento coletivo e, a cada dia, mais polarizando, extremando e fanatizando a política, que se afasta de sua razão de existir — o bem comum por meio dos serviços públicos — e se torna uma arma de dominação e exploração por meio das ideologias religiosas.

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O Deus irado que mata através da política

Ao longo da história, as religiões agiram tanto como legitimadoras do poder quanto como contestadoras, quando este não lhes apraz. Criaram a imagem de um Deus irado, que castiga e mata quem não obedece aos dogmas religiosos.

Esse “Deus irado” molda o poder mundial desde a teocracia na antiguidade até a atual formação de bancadas religiosas que, em vez de apenas representarem politicamente seus segmentos, passam, por meio da fé, a organizar a vida social e a direcionar as políticas públicas de acordo com os preceitos de sua religião.

Laicidade de direito e não de fato

Até a laicidade, enraizada na Revolução Francesa (1789–1799), a maioria dos líderes eclesiásticos dominava a política por meio da religião. Em impérios que dominaram o mundo em suas épocas, como o Babilônico, Medo-Persa, Egípcio, Grego e Romano, os “reis”, “imperadores” e “faraós” eram vistos como deuses ou, no mínimo, como representantes dos deuses; portanto, obedecê-los era acatar a vontade divina. Os sacerdotes legitimavam esse poder dos “líderes políticos” e eram considerados guardiões do saber, atuando como astrônomos e astrólogos e interpretando a vontade divina.

Mesmo com a criação do Estado laico, essa aliança de poder entre o “altar” e o “trono” nunca esteve tão forte como atualmente. Durante séculos, religiões como o Catolicismo, coroaram e destituíram imperadores, mediaram conflitos, conquistaram territórios (como nas Cruzadas) e mantiveram sob domínio a ordem social. No Brasil colonial, o catolicismo foi consolidado como instrumento da colonização, do racismo estrutural e de intolerâncias.

O Estado laico ainda é defendido apenas em países chamados democráticos, pois, em países sob ditaduras e demais regimes totalitários, são os princípios teocráticos que têm a autoridade final sobre o Estado.

Religião como instrumento político

Por meio da política secular, as religiões moldam leis e políticas públicas a partir de suas ideologias em temas como casamento, educação, sexualidade, aborto e liberação de drogas. Sempre em “nome” de Deus. Quem discorda, é considerado inimigo e deve ser eliminado.

A política tem sido utilizada como instrumento da religião para definir quem é do bem e quem é do mal, quem são os inimigos que precisam ser eliminados, polarizando os debates com argumentos que sacralizam a política pública como uma missão divina.

Esse entrelaçamento entre religião e política precisa ser regulamentado. Um exemplo são as “profissões” de pastores e demais líderes religiosos no Brasil, que não possuem legislação, abrindo espaço para “falsos profetas” que transformam a fé em comércio, explorando principalmente os necessitados. O Estado tem o dever não apenas de atender essas pessoas, mas também de protegê-las.

Essa associação entre religião e política traz rigidez institucional ao Estado, além de prejudicar diretamente igrejas que atuam nas causas de justiça social e direitos humanos, sem interesses no poder estatal.

É necessário conhecer a história da relação entre religião e política na construção do poder e compreender como essa aliança fomentou o fascismo, o nazismo, o comunismo e outros modelos de poder que causaram danos à humanidade por meio da intolerância, na contramão dos ensinamentos cristãos e de outras religiões, como a tolerância, a fraternidade, a paz e o amor.

Pois o povo que não conhece sua história repete os mesmos erros do passado como se fossem novos.


Sobre o autor: Dione Caruzo é teólogo e gestor público com três décadas de experiência no ensino bíblico e teológico. Atua há mais de 14 anos no serviço público, onde exerceu funções de secretário em áreas estratégicas de Administração, Assistência Social, Planejamento Econômico e Saúde. O Sagrado no Profano é o primeiro livro publicado do autor.