A tartaruga que de tanto acasalar salvou sua espécie da extinção
Responsável por centenas de descendentes, tartaruga centenária simboliza sucesso de programa de conservação

Depois de décadas desempenhando um papel crucial na sobrevivência de sua espécie, a tartaruga gigante Diego finalmente se aposentou. Aos cerca de 100 anos, o animal, considerado um verdadeiro símbolo da conservação ambiental, deixou o programa de reprodução em cativeiro nas Ilhas Galápagos para retornar à natureza — justamente ao local de onde havia sido retirado décadas antes.
Diego pertence à espécie Chelonoidis hoodensis, uma variedade de tartaruga gigante encontrada exclusivamente na ilha Española, no arquipélago equatoriano de Galápagos. Sua história está diretamente ligada a um dos mais bem-sucedidos esforços de recuperação de uma espécie ameaçada já registrados.
Tartaruga em risco
Na década de 1960, a situação dessas tartarugas era crítica. Restavam apenas 14 indivíduos na natureza — dois machos e 12 fêmeas — número insuficiente para garantir a sobrevivência da espécie a longo prazo.
Diante desse cenário alarmante, autoridades ambientais iniciaram um programa de reprodução em cativeiro na ilha de Santa Cruz, com o objetivo de aumentar a população. Diego, que havia sido levado anos antes para o Zoológico de San Diego, nos Estados Unidos, foi identificado como um dos poucos exemplares geneticamente compatíveis e trazido de volta ao arquipélago na década de 1970 para participar da iniciativa.
Foi nesse contexto que o animal ganhou notoriedade. Com uma capacidade reprodutiva extraordinária, Diego tornou-se um dos principais responsáveis pelo sucesso do programa. Estima-se que ele tenha gerado cerca de 800 filhotes ao longo das décadas — uma contribuição tão significativa que aproximadamente 40% da população atual da espécie descende diretamente dele.
No total, o projeto de conservação produziu mais de 2 mil tartarugas gigantes desde seu início, número suficiente para afastar o risco imediato de extinção e permitir a reintrodução dos animais em seu habitat natural.
Superando a extinção
Com o sucesso da iniciativa, as autoridades do Parque Nacional de Galápagos decidiram encerrar o programa e devolver os animais à natureza. Diego, assim como outros exemplares envolvidos, foi levado de volta à ilha Española, onde passou a integrar uma população que já ultrapassa 1.800 indivíduos — um contraste impressionante em relação ao cenário de quase extinção enfrentado décadas atrás.
A trajetória de Diego também reflete mudanças históricas no ecossistema das ilhas. Durante o século XIX, a população de tartarugas gigantes foi drasticamente reduzida devido à ação humana. Piratas, baleeiros e pescadores capturavam os animais como fonte de alimento, enquanto espécies invasoras, como cabras introduzidas pelos colonizadores, competiam por recursos e degradavam o habitat natural.
Esses fatores contribuíram para o colapso populacional que tornou necessário o programa de reprodução. A recuperação da espécie, portanto, não é apenas resultado da reprodução em cativeiro, mas também de esforços paralelos de controle ambiental e restauração do ecossistema local.
Além de seu impacto biológico, Diego se tornou uma espécie de símbolo midiático da conservação. Sua fama, frequentemente associada à sua “alta libido”, ajudou a atrair atenção global para a importância de programas de preservação e para a biodiversidade única de Galápagos — região que ficou mundialmente conhecida pelos estudos de Charles Darwin e pela formulação da teoria da evolução.