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A tartaruga que de tanto acasalar salvou sua espécie da extinção

Responsável por centenas de descendentes, tartaruga centenária simboliza sucesso de programa de conservação

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Imagem de uma tartaruga-gigante (Aldabrachelys gigantea) - Yulia Kolosova via Wikimedia Commons

Depois de décadas desempenhando um papel crucial na sobrevivência de sua espécie, a tartaruga gigante Diego finalmente se aposentou. Aos cerca de 100 anos, o animal, considerado um verdadeiro símbolo da conservação ambiental, deixou o programa de reprodução em cativeiro nas Ilhas Galápagos para retornar à natureza — justamente ao local de onde havia sido retirado décadas antes.

Diego pertence à espécie Chelonoidis hoodensis, uma variedade de tartaruga gigante encontrada exclusivamente na ilha Española, no arquipélago equatoriano de Galápagos. Sua história está diretamente ligada a um dos mais bem-sucedidos esforços de recuperação de uma espécie ameaçada já registrados.

Tartaruga em risco

Na década de 1960, a situação dessas tartarugas era crítica. Restavam apenas 14 indivíduos na natureza — dois machos e 12 fêmeas — número insuficiente para garantir a sobrevivência da espécie a longo prazo.

Diante desse cenário alarmante, autoridades ambientais iniciaram um programa de reprodução em cativeiro na ilha de Santa Cruz, com o objetivo de aumentar a população. Diego, que havia sido levado anos antes para o Zoológico de San Diego, nos Estados Unidos, foi identificado como um dos poucos exemplares geneticamente compatíveis e trazido de volta ao arquipélago na década de 1970 para participar da iniciativa.

Foi nesse contexto que o animal ganhou notoriedade. Com uma capacidade reprodutiva extraordinária, Diego tornou-se um dos principais responsáveis pelo sucesso do programa. Estima-se que ele tenha gerado cerca de 800 filhotes ao longo das décadas — uma contribuição tão significativa que aproximadamente 40% da população atual da espécie descende diretamente dele.

No total, o projeto de conservação produziu mais de 2 mil tartarugas gigantes desde seu início, número suficiente para afastar o risco imediato de extinção e permitir a reintrodução dos animais em seu habitat natural.

Superando a extinção

Com o sucesso da iniciativa, as autoridades do Parque Nacional de Galápagos decidiram encerrar o programa e devolver os animais à natureza. Diego, assim como outros exemplares envolvidos, foi levado de volta à ilha Española, onde passou a integrar uma população que já ultrapassa 1.800 indivíduos — um contraste impressionante em relação ao cenário de quase extinção enfrentado décadas atrás.

A trajetória de Diego também reflete mudanças históricas no ecossistema das ilhas. Durante o século XIX, a população de tartarugas gigantes foi drasticamente reduzida devido à ação humana. Piratas, baleeiros e pescadores capturavam os animais como fonte de alimento, enquanto espécies invasoras, como cabras introduzidas pelos colonizadores, competiam por recursos e degradavam o habitat natural.

Esses fatores contribuíram para o colapso populacional que tornou necessário o programa de reprodução. A recuperação da espécie, portanto, não é apenas resultado da reprodução em cativeiro, mas também de esforços paralelos de controle ambiental e restauração do ecossistema local.

Além de seu impacto biológico, Diego se tornou uma espécie de símbolo midiático da conservação. Sua fama, frequentemente associada à sua “alta libido”, ajudou a atrair atenção global para a importância de programas de preservação e para a biodiversidade única de Galápagos — região que ficou mundialmente conhecida pelos estudos de Charles Darwin e pela formulação da teoria da evolução.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.