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A história por trás de ‘Confie em Mim: o falso profeta’, nova série da Netflix

Nova produção acompanha a ascensão de Samuel Rappylee Bateman, que se autoproclamou profeta, além da investigação federal que expôs uma rede de abusos sexuais contra menores

Christine Marie e Julia Johnson - Crédito: Divulgação/Netflix

Confie em Mim: o falso profeta‘, nova série documental da Netflix, adota uma abordagem pouco convencional dentro do gênero true crime ao se estruturar como uma reconstrução baseada em fontes primárias. Em vez de depender exclusivamente de entrevistas retrospectivas, a produção se apoia em centenas de horas de gravações em vídeo, áudios e depoimentos em primeira mão, muitos deles registrados enquanto os fatos ainda estavam em curso. Ao longo de quatro episódios, a obra acompanha a ascensão de Samuel Rappylee Bateman, que se autoproclamou profeta e consolidou poder dentro de uma comunidade ligada à Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (FLDS), além da investigação federal que expôs uma rede de abusos sexuais contra menores.

O acesso raro ao cotidiano do grupo foi possível graças à atuação da pesquisadora Christine Marie e de seu marido, o documentarista Tolga Katas. Inicialmente envolvidos em ações humanitárias na região, eles conquistaram a confiança de integrantes da comunidade, o que permitiu o registro de imagens e conversas que mais tarde se tornariam peças-chave para as autoridades.

A ascensão de Bateman

Como destaca o portal Time, a ascensão de Bateman está diretamente ligada ao cenário que se formou após a queda de Warren Jeffs, condenado em 2011 à prisão perpétua por abuso sexual de menores. Embora a região de Short Creek, que abrange Hildale e Colorado City, tenha permanecido marcada por práticas como o casamento plural, a ausência de uma liderança central abriu espaço para disputas internas e o surgimento de novas figuras de autoridade. Nesse contexto, Bateman se apresentou como sucessor espiritual de Jeffs, alegando que o antigo líder estaria morto ou em um estado elevado, e que qualquer comunicação passaria por ele.

Sem uma sucessão formal, Bateman construiu sua legitimidade por meio de discursos religiosos e de uma estrutura rígida de controle. Por volta de 2019, já liderava um grupo próprio dentro da FLDS, conhecido informalmente como “Samuelitas“. Segundo a série, ele utilizava isolamento social, pressão psicológica e exigências financeiras para consolidar poder. Seguidores eram incentivados, ou coagidos, a demonstrar lealdade por meio de doações, declarações públicas de fé e, em casos mais extremos, entregando suas filhas para integrarem seu sistema de “casamento plural“. Algumas das vítimas tinham apenas nove anos.

A dinâmica interna do grupo envolvia mecanismos sistemáticos de controle. Famílias eram separadas ou realocadas, o contato com o mundo exterior era limitado e qualquer discordância era interpretada como falha espiritual. Mulheres e meninas viviam sob vigilância constante, muitas vezes em residências coletivas organizadas por Bateman. Entre os locais mais recorrentes nas imagens estão a chamada “Casa Azul”, onde ele permanecia com algumas de suas esposas, e a “Casa Verde”, um espaço mais movimentado que chamou a atenção dos cineastas por concentrar sinais recorrentes de sofrimento entre as moradoras.

Samuel Bateman – Crédito: Divulgação/netflix

A investigação se desenvolve

Christine Marie chegou à região em 2015, inicialmente para auxiliar vítimas de uma enchente devastadora. Posteriormente, fundou a organização Voices for Dignity, voltada ao apoio de pessoas afetadas por tráfico humano, e decidiu permanecer em Short Creek ao lado de Katas. O envolvimento do casal não começou como investigação, mas evoluiu gradualmente à medida que construíam vínculos com a comunidade. Katas, que já trabalhava em um documentário sobre a vida na FLDS, passou a registrar o cotidiano do grupo, inclusive com o conhecimento de Bateman, que demonstrava interesse em participar das filmagens.

A partir de 2021, o casal intensificou as visitas às propriedades do líder religioso. As gravações iniciais mostravam encontros cotidianos, como refeições e reuniões informais, mas com o tempo passaram a revelar aspectos mais estruturados da dinâmica interna do grupo. Os registros começaram a evidenciar padrões de controle e abuso, incluindo a forma como Bateman interagia com suas esposas e seguidores.

Entre os materiais mais relevantes coletados está o registro de uma suposta cerimônia chamada “Expiação”, descrita por Bateman como um ritual no qual suas “esposas” seriam entregues a outros homens do grupo para relações sexuais sob sua supervisão. Segundo o documentário, esse tipo de evidência levou Marie a procurar as autoridades locais no final de 2021.

Diante da gravidade das denúncias e da limitação de recursos municipais, o caso foi encaminhado ao FBI. Marie passou a atuar como informante, enquanto Katas fornecia imagens e auxiliava no mapeamento das propriedades ligadas ao grupo. O envolvimento dos dois se intensificou, tornando-se praticamente integral durante a investigação.

A primeira prisão

Bateman foi preso pela primeira vez em agosto de 2022, após uma abordagem policial no Arizona. Autoridades haviam recebido denúncias de motoristas que notaram a presença de crianças dentro de um trailer fechado que ele rebocava. Três meninas foram resgatadas na ocasião. Apesar disso, ele chegou a ser liberado sob fiança, e imagens posteriores mostram tentativas de discutir a eliminação de provas digitais.

Pouco tempo depois, mandados federais foram emitidos com acusações de abuso sexual infantil e sequestro. Em setembro de 2022, uma operação coordenada pelo FBI resultou na prisão definitiva de Bateman, realizada durante um encontro previamente marcado com Katas sob o pretexto de uma entrevista. A ação se estendeu a outras propriedades, resultando também na prisão de seguidores.

Em abril de 2024, Bateman se declarou culpado por conspiração para transporte de menores com fins sexuais e sequestro. As investigações demonstraram que as atividades do grupo se estendiam por diversos estados, incluindo Arizona, Utah, Colorado e Nebraska, com participação ativa de vários membros adultos.

Sobre a sentença

A sentença final foi proferida em dezembro de 2024: 50 anos de prisão, além de liberdade condicional supervisionada por toda a vida. Outros envolvidos também foram condenados. Após a prisão, as vítimas foram retiradas do convívio do grupo e colocadas sob proteção do sistema de assistência infantil do Arizona.

Mesmo após a detenção, porém, seguidores ainda leais a Bateman tentaram resgatar algumas das meninas, transportando-as por diferentes estados antes de serem localizadas pelas autoridades.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.