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Entre fadas e desejos: as origens da fantasia romântica

A fantasia romântica pode parecer uma tendência recente, mas suas raízes atravessam séculos de mitologia, folclore e literatura ocidental

Fantasia capa
Hilas e as Ninfas, de John William Waterhouse - Manchester Art Gallery

O sucesso recente da fantasia romântica protagonizada por seres feéricos, popularmente apelidada nas redes como fairy smut, tem sido tratado por muitos como uma novidade editorial típica do século XXI. Impulsionado pelo crescimento do gênero romantasia, pela força do TikTok e pela consolidação de séries best-sellers, o fenômeno parece dialogar diretamente com sensibilidades contemporâneas: heroínas em jornadas emocionais intensas, mundos mágicos e personagens masculinos ambíguos, ao mesmo tempo sedutores e ameaçadores. No entanto, por trás da aparente novidade, há uma longa tradição literária e mitológica que remonta a séculos de imaginação cultural.

A ascensão do gênero tem como um de seus principais marcos o enorme sucesso da série A Court of Thorns and Roses, da escritora Sarah J. Maas, cuja repercussão ultrapassou o circuito literário e alcançou o mercado editorial como um todo. A mistura de romance, erotismo e fantasia épica ajudou a consolidar uma estética narrativa que rapidamente se espalhou por outras obras e autoras. Mas, como apontam estudiosos da história das fadas e do folclore europeu, o componente sensual e até sexual dessas figuras não é invenção contemporânea.

As origens da Fantasia

Muito antes de serem transformadas em criaturas delicadas, cintilantes e associadas ao universo infantil, as fadas ocupavam um espaço muito mais sombrio no imaginário popular. Nas tradições folclóricas da Europa medieval e renascentista, esses seres eram frequentemente descritos como entidades ambivalentes: belas, irresistíveis e, ao mesmo tempo, perigosas. Atraíam humanos para florestas, colinas e reinos paralelos, muitas vezes por meio da sedução. Nessas histórias, o encontro amoroso com o sobrenatural raramente era inocente; ele implicava risco, transformação e perda de controle.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa tradição é a balada escocesa Tam Lin, cuja origem remonta ao século XVI. Na narrativa, uma jovem chamada Janet encontra um homem misterioso em uma floresta encantada, dando início a uma relação marcada por desejo, magia e perigo. A estrutura da história — mulher humana, ser feérico sedutor, obstáculos sobrenaturais e forte carga erótica — antecipa muitos dos elementos que hoje definem a fantasia romântica contemporânea.

Gravura representando Hérmia e Lisandro, de “Um Sonho de Uma Noite de Verão” – John Simmons/Sotheby’s via Wikimedia Commons

A literatura clássica também consolidou essa ligação entre o feérico e a sexualidade. Em Um Sonho de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare, o universo das fadas é um espaço de confusão amorosa, desejo instável e manipulação afetiva. O sobrenatural interfere diretamente nos impulsos românticos e sexuais dos personagens humanos, sugerindo que a fantasia, desde cedo, serviu como metáfora para as pulsões mais irracionais do desejo.

Um olhar repaginado

O que muda, portanto, não é a essência do tema, mas sua embalagem cultural. Ao longo do século XIX, especialmente sob influência vitoriana, as fadas passaram a ser ressignificadas como criaturas benignas, frequentemente associadas à infância, à pureza e à imaginação lúdica. Ilustrações delicadas, histórias infantis e adaptações moralizantes suavizaram a natureza ambígua e sensual dessas figuras. O romantasy atual, nesse sentido, não cria algo novo: ele recupera uma camada mais antiga e menos domesticada do mito.

Essa retomada também ajuda a explicar por que o gênero encontra tanta ressonância no presente. Em um mercado literário cada vez mais orientado por nichos e comunidades online, histórias que combinam fantasia escapista com intensidade emocional e erotismo ganham forte apelo entre leitores jovens adultos. Plataformas digitais transformaram essas obras em experiências coletivas de leitura, com debates sobre “níveis de picância”, triângulos amorosos e arquétipos masculinos sombrios.

Há, ainda, um componente simbólico importante: a figura da fada perigosa representa um desejo que não se submete à lógica cotidiana. Ela encarna o fascínio pelo desconhecido, pelo proibido e pelo limiar entre prazer e ameaça.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.