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André e Clara Malraux: o jovem casal francês que roubou antiguidades no Camboja

Em 1923, o jovem casal francês André e Clara Malraux planejou um audacioso furto de relíquias Khmer em um templo milenar no Camboja, desencadeando um grande escândalo diplomático

Fotografia no templo de Banteay Srei, no Camboja / Crédito: Getty Images

A historiografia do patrimônio cultural no Sudeste Asiático guarda episódios que envolvem a audácia da aventura juvenil e as tensões do sistema colonial. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em novembro de 1923, quando o jovem casal francês André e Clara Malraux desembarcou em Hanói, na Indochina — região que compreende ao que hoje estão principalmente Vietnã, Laos e Camboja —, com um plano meticulosamente traçado para subtrair antiguidades do Império Khmer.

O que começou como uma tentativa de financiar um estilo de vida luxuoso em Paris acabou se tornando um marco nas disputas sobre a propriedade de bens culturais e um divisor de águas na biografia de uma das figuras intelectuais mais influentes do século 20.

André e Clara Malraux

Ao chegarem à sede da École Française d’Extrême Orient (EFEO), André e Clara apresentaram-se ao diretor interino Léonard Aurousseau sob o disfarce de pesquisadores. Munidos de um laissez-passer obtido junto ao Escritório Colonial em Paris, alegaram que pretendiam explorar vestígios da antiga Estrada Real do Império Khmer para elaborar desenhos de antiguidades.

Apesar das advertências de Aurousseau sobre os perigos da selva e a obrigatoriedade de manter qualquer objeto encontrado in situ, o casal prosseguiu com a farsa. Eles contaram com o apoio inicial de Henri Parmentier, chefe de arqueologia da EFEO, que se encantou com o suposto interesse acadêmico dos jovens. Na realidade, os Malraux haviam passado meses estudando os levantamentos de Parmentier na Biblioteca Nacional da França em busca de uma brecha legal. Eles acreditavam que templos recém-descobertos e ainda não catalogados como patrimônio protegido poderiam ser explorados comercialmente.

O alvo escolhido foi Banteay Srei, um complexo de templos hindus do século 10, esculpido em arenito rosa e localizado na região de Angkor. Redescoberto em 1914 e descrito por Parmentier como uma “maravilha sem igual”, o local permanecia isolado e desprotegido em meio à densa vegetação cambojana.

A missão

Acompanhados por Louis Chevasson, amigo de infância de André, e uma equipe de guias e carregadores locais, os Malraux enfrentaram uma jornada de dois dias pela selva a partir de Siem Reap. O percurso foi marcado por condições adversas, incluindo lama profunda e densas nuvens de insetos.

Ao chegarem a Banteay Srei, o grupo concentrou-se em três templos em miniatura, ou prasats, cujas fachadas exibiam frisos de divindades conhecidas como devatas. Utilizando cinzéis e martelos, os homens removeram as esculturas das paredes de pedra. Clara Malraux recordaria mais tarde o momento da extração: “De repente… os golpes soavam diferentes. A pedra havia rachado! A luz do sol brilhava na fenda; a fachada esculpida havia se desprendido completamente e jazia no chão, como uma cabeça recém-decapitada.”

O espólio consistia em sete caixas contendo cinco deusas, duas placas votivas e quatro frisos esculpidos. Para mascarar o conteúdo, os caixotes foram marcados como “produtos químicos”. O plano era transportar o tesouro pelo Lago Tonlé Sap até o Rio Mekong, seguindo para Saigon, onde seria embarcado para a Europa. Estimava-se que as peças poderiam render até 500.000 francos no mercado de arte de Nova York, o suficiente para garantir o sustento do casal por vários anos.

Fotografia do templo de Banteay Srei, no Camboja / Crédito: Getty Images

Captura

A tentativa de fuga foi frustrada pela vigilância das autoridades coloniais locais. François Crémazy, administrador em Siem Reap, suspeitara do grupo desde o início e designara espiões para monitorar a expedição. Ao confirmar o saque, Crémazy alertou George Groslier, diretor do Museu Nacional do Camboja.

Groslier, um defensor fervoroso da devolução da arte Khmer ao seu povo, obteve um mandado de busca e interceptou o navio onde os Malraux se encontravam antes que este deixasse as águas cambojanas. Na véspera de Natal de 1923, a polícia francesa subiu a bordo em Phnom Penh e descobriu as estatuetas escondidas. O episódio foi relatado pela imprensa local como “um ato de pilhagem de audácia inacreditável“.

Durante o processo, Clara tentou minimizar o ocorrido em suas memórias: “Eu não ia ficar chateada porque encontraram em nossos caixotes fragmentos de um templo quase em ruínas ao qual, durante anos, tão pouca atenção fora dada que poderia ter desabado, destruído pelas raízes das figueiras-de-bengala ou demolido pelas ferramentas de um camponês.”

O julgamento ocorreu em julho de 1924. A defesa argumentou que o templo estava abandonado e não possuía proteção oficial. No entanto, o tribunal criminal de Phnom Penh considerou André Malraux e Louis Chevasson culpados. Malraux foi condenado a três anos de prisão, enquanto Chevasson recebeu uma pena de 18 meses.

Consequências

A sentença causou divisão na França. Enquanto parte da imprensa condenava o saque, intelectuais parisienses como André Gide e André Breton mobilizaram-se em apoio a Malraux, enfatizando seu potencial literário e minimizando a gravidade do crime. Clara Malraux, libertada pelas autoridades devido ao seu estado de saúde, liderou essa campanha.

A pressão surtiu efeito. Em outubro de 1924, o Tribunal de Apelação de Saigon reduziu as penas e o governo francês suspendeu as execuções das sentenças, permitindo que os condenados retornassem à Europa sem cumprir tempo na prisão.

Para muitos que viviam na Indochina, como George Groslier, a ausência de uma punição severa foi recebida com indignação. Groslier referia-se a Malraux com desdém, apelidando-o de “le petit voleur” (“o pequeno ladrão”). Por outro lado, o episódio serviu como um catalisador para a transformação política de André Malraux. Durante os meses em que aguardou o julgamento, ele observou as engrenagens do colonialismo francês, o racismo e a corrupção administrativa.

Pouco tempo depois de sua libertação, Malraux retornou a Saigon para fundar o jornal L’Indochine, de cunho pró-independência, unindo-se ao Movimento Jovem Annam. O homem que havia saqueado o patrimônio cambojano tornava-se um crítico ferrenho da presença francesa na região.

Legado dos Malraux

André Malraux reconstruiu sua imagem nas décadas seguintes como um herói da Resistência Francesa e uma voz literária de renome mundial com obras como ‘A Condição Humana’. Em 1959, sob o governo de Charles de Gaulle, tornou-se o primeiro ministro da cultura da França, cargo que ocupou com eficácia, revitalizando instituições como o Louvre.

Apesar de sua ascensão ao topo do establishment francês, a mancha do saque em Banteay Srei permaneceu. O filho de George Groslier, Bernard Philippe, ameaçou renunciar ao seu cargo em Angkor em 1968 caso Malraux visitasse o local oficialmente, repercute a Smithsonian Magazine.

Fotografias de André e Clara Malraux / Crédito: Getty Images

No Camboja, a percepção sobre o ato de Malraux é complexa. Embora seja visto como um símbolo da arrogância colonial, o escândalo gerado pelo roubo acabou forçando as autoridades a voltarem seus olhos para a preservação de Banteay Srei. Logo após o crime, Henri Parmentier iniciou a limpeza e o inventário do templo, e, na década de 1930, o conservador Henri Marchal reconstruiu o complexo utilizando as pedras originais.

Hoje, Banteay Srei é um dos destinos turísticos mais visitados do país. Os frisos de arenito rosa, outrora ameaçados pela ganância, permanecem integrados à estrutura original. Como observa o arqueólogo Olivier Cunin: “Depois de esculpirem os olhos e terminarem a estátua, acreditavam que a essência do deus estava agora encarnada.”

Cinquenta anos após sua morte, André Malraux é lembrado como uma figura ambígua: o intelectual que defendeu os oprimidos, o ministro que democratizou a cultura e o jovem que viveu intensamente que, em busca de fortuna, tentou decapitar os deuses de Banteay Srei. O caso permanece como um dos primeiros capítulos das longas e ainda atuais disputas sobre o tráfico ilícito de bens culturais em todo o mundo.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.