Esforço da China para reduzir poluição gerou impacto inesperado no Ártico
Segundo novo estudo, esforço chinês para reduzir poluição do ar teria indiretamente acelerado o aquecimento global; entenda!

A expressiva redução da poluição do ar na China pode ter gerado efeitos inesperados no Ártico. Um novo estudo indica que a queda nos níveis de aerossóis diminuiu a intensidade de tempestades que contribuem para o derretimento do gelo marinho. Por outro lado, especialistas alertam que essa mesma redução pode ter acelerado o aquecimento global.
Segundo Bjørn Samset, do Centro CICERO de Pesquisa Internacional do Clima, a poluição enfrentada pela população chinesa ao longo de décadas acabou, de forma indireta, retardando temporariamente o aquecimento global.
“O povo chinês sofreu com a má qualidade do ar por décadas”, disse ele ao portal ao Live Science. “Essa poluição desacelerou temporariamente o aquecimento global e deu ao resto de nós um pouco mais de tempo para se adaptar a um clima mais quente. O que está acontecendo agora é que estamos vendo todos os efeitos do aquecimento movido a gases de efeito estufa, que mais cedo ou mais tarde teríamos que enfrentar de qualquer forma”, explicou.
Um exemplo extremo ocorreu no início de 2019, quando mudanças nos ventos sobre o Pacífico Norte levaram uma sequência de ciclones ao Mar de Bering. Esses sistemas trouxeram ar quente, fragmentaram o gelo e reduziram sua extensão em 82% em poucas semanas, o maior recuo já registrado por satélites para aquele período.
Embora já se soubesse que ciclones podem devastar o gelo do Ártico, a origem e o direcionamento dessas tempestades ainda eram pouco compreendidos. O novo estudo, publicado na revista npj Climate and Atmospheric Science, sugere que, entre 2000 e 2014, a poluição industrial do Leste Asiático ajudou a direcionar tempestades de inverno para o norte, aumentando sua incidência no Ártico.
O papel dos aerossóis
A explicação está no papel dos aerossóis no funcionamento das tempestades. Essas partículas alteram a formação de nuvens e a dinâmica da chuva, permitindo que mais umidade e calor sejam transportados para regiões específicas do sistema, favorecendo seu deslocamento em direção aos polos.
O estudo, liderado por Dianbin Cao, combinou quatro décadas de dados observacionais com simulações climáticas. Os resultados indicam que, em períodos com alta concentração de aerossóis, as trajetórias dos ciclones se deslocaram significativamente para o norte, quase dobrando o número de tempestades que atingiram o Ártico.
Para Alex Crawford, da Universidade de Manitoba, que não participou da pesquisa, o impacto dos aerossóis sobre os ciclones é ainda mais forte do que se imaginava.
Quando essas tempestades alcançam o Mar de Bering, seus efeitos são intensos: ventos empurram o gelo, ondas fragmentam placas e correntes de ar quente elevam as temperaturas, mesmo no inverno, acelerando o derretimento.
Efeito positivo
Há, porém, um possível efeito positivo. A redução da poluição na China, iniciada em 2013, diminuiu em cerca de 75% as emissões de aerossóis de sulfato. Isso pode reduzir o deslocamento de tempestades para o Ártico e, consequentemente, aliviar parte da pressão sobre o gelo marinho.
Ainda assim, o cenário é complexo. Os aerossóis também ajudam a resfriar o planeta ao refletir a radiação solar. Com sua redução, esse efeito desaparece, expondo o impacto acumulado dos gases de efeito estufa. Um estudo de 2025 liderado por Bjørn Samset apontou que a queda desses poluentes no Leste Asiático já contribuiu para acelerar o aquecimento global. Assim, enquanto a diminuição dos aerossóis pode reduzir a intensidade de tempestades no Ártico, ela também intensifica o aquecimento global.
Para Dan Westervelt, do Observatório Lamont-Doherty da Terra da Universidade Columbia, o impacto do aquecimento tende a prevalecer no longo prazo, por ser mais contínuo e abrangente do que as mudanças nas trajetórias das tempestades.
Ele destaca ainda que o estudo reforça o papel complexo dos aerossóis no sistema climático e chama atenção para a rapidez com que suas emissões estão sendo reduzidas no Leste Asiático. Segundo o pesquisador, compreender esses efeitos será essencial para orientar estratégias futuras de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
“As quedas de emissões que levaram três décadas na América do Norte e Europa estão levando uma década no Leste Asiático. O impacto disso sobre os ciclones e o aquecimento do Ártico será realmente interessante de estudar, e fundamental para a mitigação e adaptação climática”, destacou.