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“Todos nós já sentimos o isolamento”: atores detalham contexto de Família de Aluguel

Em entrevistas, Brendan Fraser e Mari Yamamoto refletem sobre pertencimento, trauma e os limites da vida conjunta em "Família de Aluguel"

Família de Aluguel capa
Imagem promocional de Família de Aluguel - Divulgação

A premissa de Família de Aluguel poderia facilmente ser reduzida a uma curiosidade cultural: a existência, no Japão, de serviços que permitem contratar parentes temporários. Mas, nas palavras de seus protagonistas, o filme se afasta da excentricidade para mergulhar em algo mais universal — e mais desconfortável: a solidão.

Família de Aluguel e o drama do solitário

Para Brendan Fraser, o projeto surgiu em um momento particularmente simbólico de sua carreira. Após o retorno e o reconhecimento recente da indústria, ele se viu diante de uma escolha que, embora não fosse “intimidante”, exigia precisão. “Há olhares curiosos querendo saber como você vai dar continuidade àquilo”, afirma. “A suposição é de que você pode fazer o que quiser, mas a realidade não é bem essa.”

Foi justamente essa necessidade de ruptura que o levou ao roteiro. Fraser descreve sua atração pelo filme de forma quase afetiva, comparando o projeto a um “filhote estranho” — algo único, potencialmente negligenciado, mas que revela seu valor a quem se dispõe a olhar com atenção. “Quis fazer amizade com ele”, resume.

Esse vínculo inicial se fortaleceu ao conhecer a diretora Hikari, cuja abordagem sensível e pessoal ao trabalho o marcou profundamente. Para o ator, integrar-se ao universo da cineasta foi mais do que um passo profissional: tornou-se uma experiência emocionalmente significativa. Soma-se a isso a oportunidade de viver e filmar em Tóquio, algo que ele descreve como um sonho.

Imagem promocional de Família de Aluguel – Divulgação

Mas é no tema central da obra que Fraser encontra sua maior conexão. “Todos nós já sentimos uma sensação de isolamento”, afirma. A fala ecoa uma das ideias mais fortes do filme: a solidão não necessariamente como um problema a ser resolvido, mas como uma condição humana a ser compreendida.

Seu personagem, Phillip, encarna esse estado de deslocamento. Um estrangeiro vivendo há anos no Japão, ele carrega uma espécie de suspensão emocional — alguém que não foge de algo específico, mas também não se reconecta com o que deixou para trás. Fraser sugere que essa distância pode estar ligada a traumas e a uma formação emocional marcada pela ausência de afeto. “Ele é produto de uma geração de homens que não abraçavam seus filhos”, observa.

É nesse vazio que surge a possibilidade de transformação. Ao se relacionar com uma criança e com outra figura paterna improvável, Phillip é confrontado com um tipo de afeto que ele não sabia que precisava. O vínculo, segundo Fraser, é inevitável: “Ele se apaixona por ela de forma dolorosa e automática”. Trata-se de uma necessidade antiga, finalmente reconhecida — ainda que tardiamente.

Cena de Família de Aluguel – Divulgação

Uma realidade social

Se Fraser aborda o filme a partir da experiência íntima do personagem, Mari Yamamoto amplia a discussão ao contextualizar a realidade social que inspira a narrativa. Com experiência como jornalista, ela descreve um Japão onde relações transacionais não são incomuns e, em certos contextos, funcionam como válvulas de escape emocional.

Ela cita, por exemplo, a popularidade dos hostess clubs, espaços onde clientes pagam para conversar e beber com acompanhantes. Mais do que entretenimento, esses ambientes funcionam como locais de desabafo — especialmente em uma sociedade onde questões de saúde mental ainda são fortemente estigmatizadas. “Muitas pessoas sentem que não devem sobrecarregar seus amigos”, explica.

Mari Yamamoto e Brandon Fraser em Família de Aluguel – Divulgação

Nesse cenário, os serviços de “família de aluguel” surgem como uma alternativa pragmática. Yamamoto reconhece o paradoxo: trata-se de uma solução que não enfrenta diretamente o problema, mas que, ainda assim, pode oferecer alívio. “Você paga uma quantia e resolve seus problemas, mesmo que temporariamente.”

A atriz também aponta para um fator contemporâneo que intensifica esse quadro: a tecnologia. Em sua visão, há uma ironia intrínseca na forma como nos conectamos hoje. “Estamos todos sozinhos com nossos aparelhos, mas olhando para os outros”, diz. A interação mediada por telas, especialmente entre os mais jovens, tende a amplificar a ansiedade e a sensação de inadequação.

Nesse contexto, o olhar da diretora se destaca justamente por evitar julgamentos. Em vez de tratar essas relações como artificiais ou moralmente questionáveis, o filme busca compreender o que leva as pessoas a elas — e o que pode emergir desse encontro. “Se você considera alguém como sua família, então essa pessoa é sua família”, afirma Yamamoto.

A ideia ressoa como a tese central de Família de Aluguel: o afeto não se limita à biologia ou à convenção social. Ele pode surgir de circunstâncias improváveis, atravessar barreiras culturais e até mesmo nascer de relações inicialmente mediadas pelo dinheiro.

Ao deslocar o foco da estranheza para o significado, o filme propõe uma reflexão mais ampla sobre pertencimento. Em um mundo cada vez mais conectado — e, paradoxalmente, mais solitário —, talvez a pergunta não seja o quão “real” é uma relação, mas o quanto ela é capaz de preencher um vazio.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.