Vítor Soares / Curiosidades

A vida de Oxana Malaya, a menina que viveu entre cães na Ucrânia, em 5 curiosidades

Abandonada pelos pais na Ucrânia, Oxana Malaya passou quase cinco anos vivendo entre cães e desenvolveu comportamentos típicos dos animais

Oxana Malaya / Crédito: Divulgação

Casos de crianças que cresceram sem contato humano adequado, conhecidas como “crianças selvagens”, frequentemente despertam grande interesse entre pesquisadores e especialistas em desenvolvimento infantil. Essas histórias costumam revelar alguns dos impactos profundos que o ambiente, a socialização e o cuidado parental exercem sobre a formação da personalidade e das habilidades cognitivas.

Entre os exemplos mais conhecidos está o de Oxana Malaya, uma menina ucraniana que passou parte da infância vivendo com cães. Abandonada ainda muito jovem pelos pais, ela encontrou abrigo em um canil e acabou convivendo com uma matilha por vários anos. Durante esse período, desenvolveu comportamentos típicos dos animais com os quais cresceu. O caso se tornou um dos mais emblemáticos exemplos modernos de crianças privadas de interação social adequada.

Oxana Malaya, em 1991, na Ucrânia
Oxana Malaya, em 1991, na Ucrânia – Divulgação / Youtube / Positivo

1. Abandono

Oxana Oleksandrivna Malaya nasceu em 4 de novembro de 1983, na aldeia de Nova Blagovishchenka, na Ucrânia. Ela cresceu em um ambiente de extrema pobreza e negligência familiar, e seus pais enfrentavam problemas com alcoolismo; segundo relatos posteriores, eles davam pouca atenção à filha durante seus primeiros anos de vida.

Em uma noite particularmente fria da década de 1980, quando Oxana tinha apenas três anos de idade, ela acabou sendo deixada do lado de fora da casa da família. Sem acesso ao interior da residência e em busca de abrigo, a menina seguiu sua cadela, chamada Naida, até o canil da propriedade.

Foi ali que encontrou proteção contra o frio e passou a conviver com os cães. A situação, inicialmente temporária, acabou se prolongando por anos. Mais tarde, ao relembrar sua infância, Oxana comentou: “Minha mãe tinha filhos demais”. Ela também explicou a precariedade das condições em que vivia: “Não tínhamos camas suficientes.”


2. Vida entre cães

Após se refugiar no canil, Oxana passou a viver junto a uma matilha de cães de rua que frequentava o local. Durante aproximadamente cinco anos, ela dividiu o espaço com os animais e adaptou-se gradualmente ao ambiente em que vivia. Para sobreviver, alimentava-se de restos de comida e até de carne crua encontrada nas proximidades. Ao mesmo tempo, o contato quase exclusivo com os cães influenciou profundamente seu comportamento.

Com o passar do tempo, Oxana perdeu completamente a capacidade de falar. Em vez disso, passou a se comunicar por meio de latidos e rosnados, reproduzindo as vocalizações dos animais com os quais convivia. “Eu falava com eles, eles latiam e eu repetia”, disse ela. “Essa era a nossa forma de comunicação.”

Além disso, desenvolveu hábitos típicos dos cães, como andar de quatro e dormir no chão. Sua vida naquele ambiente permaneceu praticamente invisível para a comunidade local durante vários anos.

Registros de Oxana Malaya / Crédito: Reprodução/YouTube/Mark McDermott

3. Resgate

A situação de Oxana só veio à tona após quase cinco anos. O alerta surgiu quando a menina latiu para um vizinho, chamando a atenção de pessoas próximas que perceberam que algo incomum estava acontecendo. Quando as autoridades finalmente chegaram ao local, encontraram uma cena surpreendente: a menina vivia entre os cães e era tratada pela matilha como parte do grupo. Os animais demonstravam comportamento protetor e impediam que os policiais se aproximassem.

Para retirar Oxana dali, os agentes precisaram distrair os cães com comida. Somente assim conseguiram levar a menina para fora do canil. Após o resgate, Oxana foi encaminhada para um orfanato, onde passou a receber acompanhamento especializado, incluindo educação e terapia intensiva.

O diretor do instituto que a recebeu descreveu o estado em que a menina se encontrava: “Ela era mais parecida com um cachorrinho do que com uma criança humana”. Ele acrescentou: “Ela costumava mostrar a língua quando via água e comia com a língua, não com as mãos.”


4. Reabilitação e desafios

Embora tivesse passado grande parte da infância sem contato social humano adequado, Oxana demonstrou capacidade de aprendizado ao iniciar o processo de reabilitação. Mesmo sem ter falado nenhuma língua humana até quase os oito anos de idade, ela conseguiu adquirir linguagem e outras habilidades básicas relativamente rápido.

Apesar desse progresso, especialistas indicaram que uma recuperação completa seria improvável. O longo período de isolamento social durante a infância teve impactos duradouros em seu desenvolvimento cognitivo. De acordo com avaliações médicas posteriores, o nível de desenvolvimento e a capacidade intelectual de Oxana permaneceram comparáveis aos de uma criança de cerca de seis anos.

Hoje, já adulta, ela tem 42 anos e vive em um lar de cuidados especiais, onde passa boa parte do tempo trabalhando com animais, repercute o All That’s Interesting. Mesmo após décadas de tratamento e adaptação, alguns comportamentos associados ao período em que viveu entre cães ainda aparecem ocasionalmente.

Ao comentar essas situações, Oxana relatou: “Quando me sinto sozinha… eu rastejo de quatro. É assim que me sinto sozinha”. Ela também explicou como passa seus dias: “Como não tenho ninguém, passo meu tempo com cachorros, saio para caminhar e faço o que quero. Ninguém repara que eu ando de quatro.”

Oxana Malaya em documentário / Crédito: Divulgação

5. Impacto científico do caso

A história de Oxana Malaya tornou-se um exemplo frequentemente citado no debate científico conhecido como “natureza versus criação”. Essa discussão busca compreender até que ponto os comportamentos e traços de personalidade são determinados por fatores genéticos ou pelo ambiente em que uma pessoa cresce. No contexto dessa teoria, “natureza” refere-se às características inatas de um indivíduo, associadas principalmente à genética; enquanto “criação” envolve os fatores ambientais que influenciam o desenvolvimento humano, como experiências da infância, interação social e acesso às necessidades básicas.

O caso de Oxana costuma ser citado como uma demonstração de como o ambiente pode influenciar profundamente o comportamento humano. O fato de ela ter desenvolvido hábitos, vocalizações e modos de interação semelhantes aos dos cães reforça a importância da socialização nos primeiros anos de vida.

Pesquisas recentes na área de epigenética também têm contribuído para essa discussão. Esses estudos investigam como fatores ambientais podem alterar a forma como determinados genes se manifestam ao longo da vida.

Segundo a Dra. Caroline Leaf, eventos traumáticos na infância podem afetar significativamente o desenvolvimento emocional e social. “Estressores epigenéticos durante a primeira infância podem fazer com que certas características genéticas, como os sinais característicos da psicopatia, se voltem contra a pessoa de forma negativa”. Ela acrescenta que “o cortisol proveniente de abuso, trauma ou abandono pode moldar a forma como a pessoa interage com os outros, afetando o desenvolvimento de sua capacidade de socialização.”

Assim, a trajetória de Oxana Malaya permanece como um exemplo marcante de como experiências extremas na infância podem moldar profundamente o desenvolvimento humano.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.