O romance trágico por trás de ‘O Encontro na Escadaria da Torre’
Pintura de Frederic William Burton inspirada em balada medieval dinamarquesa mostra despedida de amantes e continua emocionando o público até hoje

No século 19, o artista irlandês Frederic William Burton produziu uma obra que, mais de um século depois, continua despertando forte emoção no público. A aquarela ‘Hellelil e Hildebrand, O Encontro na Escadaria da Torre’, pintada em 1864, retrata o instante derradeiro entre dois amantes condenados por circunstâncias trágicas.
Inspirada em uma balada medieval dinamarquesa, a pintura narra visualmente o último encontro de um príncipe e da mulher que ama, momentos antes de um desfecho fatal. Ao longo do tempo, a obra se tornou uma das mais admiradas da Irlanda e, recentemente, voltou a chamar atenção graças à popularidade nas redes sociais.
Nos últimos anos, vídeos publicados em plataformas como o TikTok contribuíram para apresentar a pintura a um público mais amplo. Muitos desses conteúdos mostram visitantes contemplando a obra ou descrevendo sua experiência ao vê-la, classificando o momento como “um momento de tirar o fôlego” e “transformador”. A repercussão digital fez com que novos espectadores passassem a procurar a pintura pessoalmente, redescobrindo uma obra que há décadas emociona quem a observa.
A aquarela de Burton apresenta um encontro silencioso e intenso entre Hellelil e Hildebrand. Na cena, o príncipe encontra a amada em uma escadaria de torre para um último abraço antes de enfrentar um destino cruel: a morte determinada pelo pai austero da jovem. A imagem não mostra violência ou conflito direto; em vez disso, concentra-se na intensidade emocional do instante. O casal aparece imerso em cores fortes — sobretudo tons de vermelho e azul — enquanto a postura dos dois revela a tensão entre amor, despedida e fatalidade.
A história que inspirou a obra tem raízes em uma balada medieval dinamarquesa traduzida em 1855 por Whitley Stokes, amigo de Burton. No poema, Hellelil relata a trajetória de seu relacionamento com Hildebrand antes de sucumbir ao próprio destino trágico. O enredo segue um motivo clássico da literatura: um guarda-costas se apaixona pela princesa que deveria proteger, mas o romance é proibido. Embora os espectadores da pintura nem sempre conheçam todos os detalhes da narrativa original, a expressão e a postura dos personagens sugerem que algo grave está prestes a acontecer.

Obra impactante
Frederic William Burton nasceu na Irlanda em 1816 e iniciou sua carreira artística produzindo retratos em miniatura e representações de monumentos antigos. Posteriormente mudou-se para Londres, onde passou a trabalhar com aquarelas e consolidou sua reputação como pintor. Mais tarde, ocuparia também o cargo de diretor da National Gallery. Burton admirava os pintores pré-rafaelitas, influência perceptível em sua obra mais famosa, tanto pela atenção ao detalhe quanto pelo dramatismo visual, conforme repercute a BBC.
Desde sua apresentação ao público, ‘O Encontro na Escadaria da Torre’ despertou fortes reações emocionais. A romancista George Eliot — pseudônimo de Mary Ann Evans —, amiga de Burton, expressou sua admiração pela obra com palavras que se tornaram frequentemente citadas: “[Ela] poderia ter se tornado a coisa mais vulgar do mundo, [mas] o artista a elevou ao mais alto nível de emoção refinada.” Para Eliot, o quadro transformava uma situação potencialmente melodramática em uma representação profundamente sensível do amor.
Hoje, a pintura integra o acervo da Galeria Nacional da Irlanda, em Dublin, onde continua a atrair visitantes de diferentes partes do mundo. O interesse pela obra permanece elevado: em 2012, ela foi eleita o quadro favorito da Irlanda. Apesar de sua fama, porém, observá-la pessoalmente exige certa preparação. Isso ocorre porque os materiais utilizados por Burton são particularmente sensíveis à luz.
Vale mencionar que a pintura foi executada com guache, uma tinta solúvel em água conhecida pela intensidade de suas cores. Esse material, no entanto, pode desbotar se permanecer exposto à luz solar direta ou a iluminação intensa por longos períodos. Por isso, os curadores adotam medidas rigorosas para preservar a obra. A aquarela é exibida ao público por apenas duas horas por semana, com níveis de iluminação cuidadosamente reduzidos; e, após o período de visitação, um funcionário recoloca a pintura em um armário especialmente projetado para protegê-la, em um procedimento conduzido com grande cuidado.
Mesmo com tais restrições, a experiência de ver a obra pessoalmente costuma ser marcante para os visitantes. O instante representado na pintura transmite uma mistura de intimidade e tragédia. Como observou George Eliot, “Hildebrand está a instantes da morte, mas neste momento, ele é para sempre dela – e ela dele”. A autora também comentou a expressão do personagem masculino, descrevendo-o como “um homem para quem o beijo é um sacramento”.
A composição da obra também inclui elementos simbólicos. Próximo ao pé esquerdo de Hellelil, Burton pintou o que parecem ser pétalas brancas amassadas. Segundo a Dra. Caroline Campbell, diretora da Galeria Nacional da Irlanda, rosas brancas representam pureza e lealdade, o que reforça a dimensão romântica da cena.

Campbell relata ainda sua própria reação ao ver a obra pela primeira vez: “Quando a vi pela primeira vez, fiquei impressionada com o azul deslumbrante do vestido de Hellelil, as cores vibrantes e a intensidade do momento retratado, embora Hildebrand e Hellelil não se olhem”. Ela acrescenta: “Hildebrand parece beijar o braço de Hellelil, mas ela se afasta porque não consegue controlar a forte emoção que sente. Também adorei o aspecto teatral da espera pela abertura do armário e a ‘grande revelação’, quando vi a aquarela original pela primeira vez.”
Inspiração
A balada medieval que inspirou Burton apresenta um desfecho ainda mais dramático do que a cena mostrada na pintura. No poema, o pai de Hellelil ordena que seus sete filhos matem Hildebrand. O príncipe enfrenta os irmãos e acaba matando o pai da jovem e seis deles. Burton, no entanto, optou por não retratar o conflito violento. Em vez disso, escolheu representar um momento íntimo entre os amantes, destacando a dimensão emocional da história.
O final do poema é particularmente trágico. Durante o confronto, Hellelil intervém para salvar a vida do último irmão. No processo, acaba distraindo Hildebrand por tempo suficiente para que o sobrevivente consiga golpeá-lo mortalmente. O príncipe morre devido aos ferimentos, e Hellelil também acaba falecendo posteriormente, após relatar a história de seu amor.
Apesar desse desfecho devastador, a pintura de Burton é frequentemente interpretada como uma poderosa representação do amor romântico. Segundo Campbell, muitas pessoas na Irlanda associam a obra a ideias de união e compromisso. “Muitos casais ficaram noivos diante dela”, afirma. “Há um exemplar no cartório principal da cidade, então, na mente de muitas pessoas, ela está associada ao amor e ao casamento.”
O historiador da arte Tim Barringer, professor da Universidade Yale, descreveu a pintura à BBC como atemporal: “Visualmente cativante e com um forte componente narrativo, [O Encontro na Escadaria da Torre] é vitoriana, medieval e moderna.” Para ele, a obra consegue reunir elementos de diferentes períodos históricos em uma imagem única e memorável.
Ao congelar visualmente o último encontro de Hellelil e Hildebrand, Burton criou uma representação duradoura de um amor condenado. Na pintura, os dois permanecem presos em um instante eterno — um momento de despedida que antecede a tragédia, mas que também preserva o vínculo entre eles.
Mais de um século após sua criação, ‘O Encontro na Escadaria da Torre’ continua fascinando espectadores e historiadores da arte. A obra atravessou gerações, consolidando-se como um símbolo de romance intenso e de emoção artística. Agora, impulsionada novamente pela atenção nas redes sociais, ela passa a ser descoberta por uma nova geração de admiradores, que encontram na pintura do século 19 uma história capaz de emocionar ainda no presente.