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Caso de mulher que teve células imortalizadas sem consentimento ganha novo desdobramento

Mulher que morreu em 1951 nos EUA teve as células imortalizadas por cientistas que, desde então, vêm utilizando o material em experimentos científicos

Células HeLa destacadas por meio de processos químicos em laboratório - Crédito: Wikimedia Commons/TenOfAllTrades

Em 4 de outubro de 1951, Henrietta Lacks morreu aos 31 anos no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, após um câncer agressivo no colo do útero. Décadas depois, ela passaria a ser conhecida como uma “doadora involuntária“, uma vez que durante o tratamento, médicos coletaram amostras de suas células tumorais sem que ela soubesse ou autorizasse o procedimento.

Essas células, posteriormente batizadas de “HeLa” em referência às iniciais de seu nome, apresentaram uma característica inédita: conseguiam sobreviver e se multiplicar indefinidamente em laboratório. Assim, enquanto a maioria das células humanas cultivadas fora do corpo morre em poucos dias, a linhagem HeLa continuava a se replicar. Essa propriedade transformou as células em uma ferramenta essencial da pesquisa biomédica moderna.

Desde então, as células HeLa têm sido usadas em estudos sobre HPV, poliomielite, HIV, diferentes tipos de câncer e, mais recentemente, Covid-19. Como aponta o portal Galileu, elas contribuíram para o desenvolvimento de vacinas, medicamentos e avanços fundamentais na compreensão de doenças que afetam milhões de pessoas.

Controvérsias

Apesar do impacto científico, a história por trás das células HeLa é marcada por controvérsias éticas. Por muitos anos, a identidade de Henrietta e sua origem afro-americana foram mantidas em sigilo pela comunidade científica. A família só descobriu, em 1973, que células retiradas do corpo de sua parente estavam sendo amplamente distribuídas e comercializadas para pesquisa. A revelação deu início a um debate profundo sobre consentimento informado, exploração racial e os direitos dos pacientes na ciência.

A autora Rebecca Skloot, que contou a trajetória da família no livro “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, destacou em entrevista à BBC a dimensão impressionante da disseminação das células. Segundo ela, um pesquisador estimou que, se todas as células HeLa já cultivadas fossem reunidas, poderiam pesar dezenas de milhões de toneladas, um número simbólico para ilustrar a escala de sua multiplicação, já que cada célula individual pesa quase nada.

Ações na Justiça

Nos últimos anos, os herdeiros de Henrietta intensificaram ações judiciais contra empresas do setor biomédico. Eles argumentam que companhias lucraram bilhões de dólares com a comercialização da linhagem celular HeLa sem que a família jamais tivesse sido consultada ou compensada.

Em 2021, foi aberto um processo contra a Thermo Fisher Scientific, pleiteando indenização com base no “valor total dos lucros líquidos” obtidos com produtos relacionados às células HeLa. A empresa tentou arquivar o caso alegando prescrição, mas os advogados da família sustentaram que o prazo não deveria ser aplicado, uma vez que os lucros continuaram a ser gerados ao longo do tempo. As partes chegaram a um acordo extrajudicial alguns anos depois.

Mais recentemente, a farmacêutica Novartis também firmou um acordo com o espólio de Henrietta Lacks. O processo foi aberto em 2024 e concluído neste mês de março em tribunal federal no estado de Maryland. Os termos financeiros não foram divulgados. Em comunicado conjunto, a empresa e a família afirmaram estar satisfeitas por terem resolvido a disputa fora dos tribunais.

As células HeLa continuam a ser utilizadas em laboratórios ao redor do mundo, desempenhando papel central em pesquisas que salvam vidas. Paralelamente, os familiares de Henrietta seguem buscando reconhecimento e reparações legais pelo uso não consentido das células. Há, inclusive, ações ainda em andamento contra outras empresas do setor, como a Ultragenyx e a Viatris.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.