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Anotações de Galileu Galilei são identificadas em manuscrito do século 16

Anotações encontradas em antigo tratado de astronomia sugerem que Galileu estudou modelos geocêntricos antes de apoiar o heliocentrismo; confira!

Exemplar de 1551 do 'Almagesto de Ptolomeu' em que foram encontradas anotações de Galileu Galilei, e antigo retrato do astrônomo / Crédito: Divulgação/Biblioteca Nacional Central de Florença / Domínio Público

Anotações manuscritas atribuídas a um jovem Galileu Galilei vieram à tona em um exemplar do século 16 do Almagesto, tratado astronômico do século 2 d.C. escrito por Ptolomeu. A descoberta, realizada na Biblioteca Nacional Central de Florença, na Itália, pode ampliar a compreensão sobre a formação intelectual do cientista e sobre as motivações que o levaram a se tornar um dos principais defensores do heliocentrismo.

O achado foi feito em janeiro pelo historiador Ivan Malara, que examinava uma edição de 1551 do Almagesto. A obra do polímata greco-romano sustenta o modelo geocêntrico, segundo o qual a Terra ocupa o centro do universo. Durante a análise do volume, Malara identificou uma página solta contendo a transcrição do Salmo 145. A caligrafia chamou sua atenção por se assemelhar à de Galileu, frequentemente descrito como o “pai da ciência moderna”. Outras anotações nas margens do livro também apresentavam características compatíveis com a escrita do astrônomo.

“A pesquisa em arquivos nem sempre recompensa os esforços de quem a realiza; com mais frequência, resulta em espera paciente, silêncios, pistas falsas”, escreve Malara para o Il Sole 24 Ore, segundo tradução do jornal italiano. “Às vezes, porém, acontece que a perseverança, aliada a um pouco de sorte, é recompensada com uma descoberta capaz de mudar a perspectiva de um olhar já acostumado.”

Após identificar os indícios, Malara entrou em contato com dois especialistas italianos em Galileu. Segundo relato publicado na revista Science, ambos confirmaram rapidamente a plausibilidade da atribuição. A identificação da caligrafia é reforçada por registros históricos que apontam o hábito de Galileu de rezar antes de estudar o Almagesto, o que poderia explicar a presença do versículo bíblico. Além disso, algumas das anotações encontradas guardam semelhança com trechos redigidos pelo cientista no mesmo período.

“Considero a atribuição das notas marginais a Galileu totalmente segura”, disse à revista Science Michele Camerota, historiador da Universidade de Cagliari e um dos primeiros acadêmicos contatados por Malara.

O que ele escreveu?

O conteúdo das anotações sugere que, por volta de 1590, Galileu dedicava atenção cuidadosa aos ensinamentos geocêntricos de Ptolomeu. Embora seja amplamente lembrado por defender o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico — segundo o qual a Terra e os demais planetas orbitam o Sol —, o astrônomo estudou de forma aprofundada as bases matemáticas e astronômicas da tradição anterior. A defesa pública do heliocentrismo colocaria Galileu em conflito com a Igreja Católica, resultando em ostracismo e, em 1633, na condenação à prisão domiciliar pelo restante de sua vida, conforme repercute a Smithsonian Magazine.

A redescoberta das anotações oferece uma perspectiva mais detalhada sobre a transição intelectual do cientista. Embora geocentrismo e heliocentrismo representem modelos opostos, ambos compartilham fundamentos matemáticos semelhantes, conforme destacou a biblioteca florentina em comunicado. O exame atento do Almagesto indica que Galileu não apenas conhecia essas estruturas, mas as dominava.

“[Galileu] tem sido apresentado como um cara que pensava no panorama geral — não interessado nos detalhes técnicos minuciosos da astronomia”, disse James Evans, historiador da astronomia da Universidade de Puget Sound, à revista Science. O estudo cuidadoso do Almagesto por Galileu, no entanto, indica que ele era “um profundo conhecedor das sofisticadas demonstrações matemáticas de Ptolomeu”, escreve Malara para o Il Sole 24 Ore.

Para Malara, o conjunto de evidências contribui para uma leitura mais complexa da trajetória de Galileu, revelando um período formativo marcado pelo engajamento com o pensamento geocêntrico antes da consolidação de sua defesa do sistema copernicano. O historiador pretende publicar uma análise detalhada das anotações no Journal for the History of Astronomy nos próximos meses, contextualizando o material à luz de pesquisas anteriores.

A descoberta reforça a importância dos acervos históricos e do exame minucioso de documentos antigos para a compreensão das origens intelectuais de figuras centrais da ciência moderna.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.