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Mosquitos já picavam hominídeos há pelo menos 1,8 milhão de anos, aponta estudo

Novo estudo publicado recentemente na revista Scientific Reports indica que relação problemática entre mosquitos e humanos é bem mais antiga do que se imaginava

Mosquito Aedes aegypti
Mosquito Aedes aegypti - Getty Images

Embora associemos muitas vezes os mosquitos a insetos de picadas incômodas, apenas uma pequena fração das cerca de 3.500 espécies conhecidas demonstra preferência pelo sangue humano. Mesmo assim, essas espécies são responsáveis por mais de 700 mil mortes anuais em todo o mundo, além de transmitirem diversas doenças, entre elas a malária, que em 2024 provocou mais de 600 mil mortes distribuídas por 80 países.

Um estudo conduzido por uma equipe internacional de cientistas e publicado nesta quinta-feira, 26, na revista Scientific Reports indica que essa relação problemática é muito mais antiga do que se imaginava. De acordo com a pesquisa, mosquitos já se alimentavam do sangue de ancestrais humanos desde a época da chegada dos primeiros hominídeos ao sudeste asiático, há cerca de 1,8 milhão de anos.

A equipe sequenciou o DNA de 11 espécies de mosquitos pertencentes ao grupo Leucosphyrus, o que permitiu reconstruir a trajetória evolutiva desses insetos e identificar quando surgiu a preferência por sangue humano. Como explica o portal Galileu, esse grupo faz parte do gênero Anopheles, que inclui tanto espécies que se alimentam de primatas não humanos, como orangotangos, quanto aquelas que passaram a preferir seres humanos.

Com base na análise de 38 exemplares coletados no sudeste asiático, os pesquisadores aplicaram modelos computacionais e estatísticos para rastrear o ponto de origem evolutivo das espécies mais associadas à alimentação em humanos. Os resultados indicaram que o comportamento ancestral desses mosquitos era se alimentar de outros primatas.

A mudança ocorreu entre 2,9 milhões e 1,6 milhão de anos atrás, em uma área conhecida como Sundalândia, que abrangia territórios hoje correspondentes à Península Malaia, Bornéu, Sumatra e Java. Nesse período, transformações evolutivas teriam alterado o padrão alimentar desses insetos.

Surgimento do Homo erectus

Essa fase coincide com o aparecimento do Homo erectus na mesma região, por volta de 1,8 milhão de anos atrás.

Atualmente, os mosquitos localizam seus hospedeiros graças a um conjunto amplo de genes ligados ao olfato. Em outras palavras, eles nos encontram pelo cheiro. A hipótese defendida pelos autores é que o processo evolutivo tenha atuado justamente sobre genes relacionados aos receptores olfativos, ajustando a preferência alimentar desses insetos à medida que novos hominídeos surgiam no ambiente.

Essa transformação, ocorrida antes mesmo do aparecimento do Homo sapiens, sugere que havia uma presença significativa de populações humanas ancestrais na Sundalândia. A descoberta pode contribuir para reconstruir aspectos ainda pouco conhecidos da história evolutiva dos hominídeos naquela região.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.