Vítor Soares / Primeira Guerra Mundial

Tanque Tsar: o veículo gigante e absurdo criado pelos russos durante a Primeira Guerra Mundial

Enorme triciclo conhecido como Tanque Tsar deveria proporcionar aos russos vantagens na guerra, mas acabou falhando ainda durante da fase de testes

O Tanque Tsar, fotografado durante testes de campo, com soldados em pé na carruagem - Crédito: Domínio público

Entre 1914 e 1918, a Europa se transformou em um grande campo de batalha, onde milhares de soldados morriam para conquistar poucos metros de terreno na guerra de trincheiras. Diante desse cenário sangrento, estrategistas militares passaram a buscar soluções radicais capazes de romper as linhas inimigas e devolver mobilidade ao combate.

Foi nesse contexto que surgiu a ideia do tanque de guerra. Na época, diversas nações trabalharam simultaneamente em projetos semelhantes, tentando criar veículos blindados capazes de atravessar arame farpado, crateras e lama. O próprio termo “tanque”, vale destacar, nasceu como uma manobra dos britânicos para despistar inimigos: ao apresentar os protótipos como se fossem reservatórios de água, ocultava-se sua verdadeira função.

Os primeiros modelos seguiam uma lógica relativamente simples: uma carapaça de aço montada sobre esteiras, projetada para avançar lentamente enquanto protegia a tropa. Muitas dessas máquinas já traziam metralhadoras e canhões, oferecendo apoio ofensivo direto contra posições fortificadas. Algumas ideias eram práticas, outras extravagantes.

O tanque Tsar

Entre todos os experimentos concebidos naquele período, nenhum foi tão peculiar quanto o chamado “Tanque Tsar”, desenvolvido pelo Império Russo. Como aponta o portal All That’s Interesting, a máquina em questão media cerca de nove metros de altura, pesava aproximadamente 60 toneladas e contava com duas rodas gigantescas na dianteira, pensadas para simplesmente esmagar quaisquer obstáculos que aparecessem pela frente.

O projeto foi idealizado pelo engenheiro militar Nikolay Lebedenko, que trabalhou ao lado de especialistas como Nikolai Zhukovsky, Boris Stechkin e Alexander Mikulin. A estrutura lembrava um imenso triciclo blindado: na parte traseira havia uma roda menor destinada a dar equilíbrio, enquanto o corpo central sustentava uma cabine em forma de T equipada com armamentos. Torres e plataformas laterais receberam metralhadoras adicionais, permitindo que os soldados atirassem em várias direções.

Uma máquina colossal

Tratava-se de uma máquina verdadeiramente colossal, cuja operação exigia uma tripulação de pelo menos dez homens. O veículo tinha cerca de 18 metros de comprimento e quase nove de largura, sendo que cada roda dianteira era impulsionada por motores potentes adaptados de equipamentos capturados de um zepelim alemão. Em terreno firme, o tanque poderia atingir pouco mais de 17 km/h, uma velocidade considerável para um gigante metálico daquele porte.

O nome pelo qual a máquina se tornou famosa surgiu após chamar a atenção do czar Nicolau II. Em 1915, Lebedenko apresentou ao soberano um modelo reduzido funcional. O pequeno protótipo foi testado diante do governante e superou obstáculos improvisados com livros e objetos. Nicolau II, impressionado com a demonstração, autorizou financiamento substancial para transformar o conceito em realidade, apostando que a invenção poderia dar vantagem estratégica à Rússia. A construção, porém, se deu em absoluto sigilo.

Para despistar curiosos, as peças eram fabricadas como se fossem destinadas a navios de guerra ou máquinas industriais pesadas. Quando finalmente ficou pronto, o colosso representava uma das tentativas mais ambiciosas de inovação militar da época.

Testando a engenhoca

O primeiro teste de campo do novo invento ocorreu em 27 de agosto de 1915. Inicialmente, os resultados pareceram animadores: o Tanque Tsar avançou por uma estrada improvisada com troncos, atravessou terreno irregular e chegou até mesmo a esmagar uma árvore. Contudo, ao entrar em solo pantanoso, o experimento revelou uma grande falha: havia peso excessivo na parte traseira, o que fez com que a roda menor afundasse na lama. As rodas gigantes giravam sem conseguir tracionar o restante da estrutura e, apesar da potência dos motores, o veículo ficou imobilizado.

Diversas tentativas de resgate foram feitas, mas sem sucesso. Engenheiros chegaram a propor modificações no projeto, acreditando que ajustes poderiam torná-lo viável. Ainda assim, o entusiasmo inicial diminuiu rapidamente e, com a crise política e militar que culminaria na Revolução Russa, o programa acabou abandonado. O enorme tanque permaneceu esquecido no local até 1923, quando foi desmontado e vendido como sucata.

Desde então, historiadores militares discutem se a ideia poderia ter funcionado caso tivesse sido melhor equilibrada. Seu tamanho certamente teria intimidado soldados inimigos, em uma época em que veículos blindados ainda eram novidade. Por outro lado, a própria grandiosidade da estrutura era também sua fraqueza, uma vez que as rodas imensas eram alvos fáceis para a artilharia pesada e qualquer dano estrutural poderia imobilizar completamente o veículo.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.