Notícias / Astronomia

Análise de rochas lunares soluciona mistério sobre campo magnético da Lua

Estudo com amostras da Lua das missões Apollo indica que episódios de forte magnetismo foram raros e temporários, resolvendo debate que durava décadas

Registro do astronauta Charles M. Duke Jr. coletando amostras de rochas lunares durante a missão Apollo 16 / Crédito: Divulgação/NASA

Uma nova análise de rochas lunares coletadas durante as missões Apollo pode encerrar um debate que se arrasta há décadas sobre a intensidade do campo magnético da Lua. Embora amostras analisadas anteriormente indicassem que o satélite natural da Terra teria abrigado um campo magnético forte, o novo estudo sugere que essa não foi a regra ao longo de sua história.

A pesquisa, publicada na quinta-feira, 26 de fevereiro, na revista Nature Geoscience, aponta que o campo magnético lunar foi predominantemente fraco durante a maior parte de seus 4,5 bilhões de anos. Segundo os autores, houve apenas episódios breves de magnetismo intenso, concentrados no início da história da Lua, entre cerca de 3,5 e 4 bilhões de anos atrás.

“Por períodos muito curtos — não mais do que 5.000 anos, mas possivelmente tão curtos quanto algumas décadas — o derretimento de rochas ricas em titânio no limite entre o núcleo e o manto da Lua resultou na geração de um campo muito forte”, disse em comunicado a autora principal, Claire Nichols, professora associada de geologia de processos planetários da Universidade de Oxford.

O debate em torno do magnetismo lunar sempre esteve ligado à limitação das amostras disponíveis, repercute o Live Science. Entre 1969 e 1972, seis missões Apollo pousaram em regiões próximas ao equador da Lua. As áreas escolhidas eram grandes planícies de basalto conhecidas como mares lunares — superfícies relativamente planas formadas após impactos antigos que derreteram a rocha original. Essas regiões são particularmente ricas em basaltos com alta concentração de titânio.

Novos dados

A nova investigação cruzou dados sobre a quantidade de titânio presente nas amostras com a intensidade do campo magnético registrado nas rochas. Os resultados indicam que amostras com menos de 6% de titânio apresentavam magnetismo fraco, enquanto aquelas com concentrações mais elevadas exibiam sinais mais intensos. A conclusão é que a formação de rochas ricas em titânio e os episódios de campo magnético forte estariam interligados, ambos decorrentes da fusão de material rico nesse elemento no interior lunar.

O conjunto de rochas trazidas pelas missões Apollo representa parcela significativa do material lunar disponível na Terra. Segundo a NASA, cerca de 382 quilos fazem parte do acervo Apollo, enquanto a casa de leilões Christie’s estima que aproximadamente 650 quilos de rochas lunares presentes no planeta sejam provenientes de meteoritos. Ainda assim, a concentração das coletas em áreas similares pode ter influenciado a percepção científica ao longo do tempo.

Amostra de rocha lunar coletada durante a missão Apollo 12 / Crédito: Divulgação/NASA/AccuSoft Inc.

Pesquisadores já questionavam se o pequeno núcleo da Lua — com raio equivalente a apenas um sétimo do raio total do satélite — seria capaz de sustentar um campo magnético forte por períodos prolongados. Modelagens realizadas pela equipe reforçam a hipótese de viés de amostragem, indicando que, em um conjunto aleatório de rochas, apenas poucas exibiriam magnetismo intenso.

“Se fôssemos alienígenas explorando a Terra e tivéssemos pousado aqui apenas seis vezes, provavelmente teríamos um viés de amostragem semelhante — especialmente se estivéssemos selecionando uma superfície plana para pousar”, disse Jon Wade, coautor do estudo e professor associado de materiais planetários em Oxford, em um comunicado. “Foi apenas por acaso que as missões Apollo se concentraram tanto na região dos mares lunares — se tivessem pousado em outro lugar, provavelmente teríamos concluído que a Lua sempre teve apenas um campo magnético fraco e teríamos perdido completamente essa importante parte da história lunar inicial.”

A expectativa é que futuras missões Artemis, lideradas pela NASA, ampliem a diversidade de locais de pouso e ofereçam uma visão mais abrangente da evolução magnética da Lua ao longo de bilhões de anos.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.