Notícias / Astronomia

Nasa revela falhas que deixaram astronautas ‘presos’ na Estação Espacial Internacional

Recém-divulgado, o relatório de investigação sobre a missão durante a qual dois astronautas ficaram presos no espaço apontou uma série de falhas

Starliner deixando a ISS em setembro de 2024 - Crédito: Divulgação/NASA/JSC

No ano de 2024, o mundo voltou sua atenção para a situação de dois astronautas da NASA, Suni Williams e Butch Wilmore. Em seu primeiro voo de teste tripulado com destino à Estação Espacial Internacional, a espaçonave Starliner, construída pela Boeing, apresentou anomalias no sistema de propulsão logo após o lançamento, em 5 de junho daquele ano. Diante das incertezas técnicas, a agência concluiu que seria mais prudente que os astronautas retornassem à Terra em outro veículo.

O Starliner acabou regressando sozinho, em setembro, operando de forma autônoma, enquanto Williams e Wilmore permaneceram na estação orbital por vários meses além do previsto. De acordo com o portal Smithsonian, o retorno da dupla só aconteceu em março de 2025, quando eles vieram à Terra integrando a missão Crew-9, operada pela SpaceX. Pouco tempo depois, no fim de 2025, Williams anunciou sua aposentadoria.

Agora, foi divulgada uma versão censurada do relatório de investigação sobre a missão, documento que distribui responsabilidades tanto à agência espacial quanto à empresa contratada. O texto aponta problemas que vão além de falhas técnicas isoladas, abrangendo também questões de gestão, qualificação e cultura organizacional, embora ressalte que as análises detalhadas das causas tecnológicas ainda estão em andamento.

“A espaçonave Boeing Starliner enfrentou desafios ao longo de suas missões não tripuladas e as mais recentes”, afirmou o administrador da agência, Jared Isaacman, em comunicado. Segundo ele, enquanto o veículo era desenvolvido, a decisão de seguir com o lançamento tripulado acabou sendo mantida.

O episódio foi classificado como um acidente do Tipo A, o nível mais alto de gravidade dentro da escala da própria agência, reservado a ocorrências com grande risco à missão ou à vida humana. Tragédias históricas do programa de ônibus espaciais também receberam essa classificação, como lembrou o jornalista Kenneth Chang, do The New York Times.

Falhas constatadas

De acordo com os investigadores, houve “uma complexa interação de falhas de hardware, lacunas de qualificação, erros de liderança e colapsos culturais que, coletivamente, representavam riscos inaceitáveis para a segurança da tripulação”. A conclusão sugere que o problema não se limitou a componentes defeituosos, mas envolveu decisões tomadas ao longo de todo o programa.

Em coletiva, Isaacman reforçou esse diagnóstico ao afirmar que, embora existam deficiências de design e engenharia que precisam ser corrigidas, a questão mais preocupante revelada pela investigação está na forma como decisões foram conduzidas. Para ele, se não forem tratadas, essas falhas podem consolidar uma cultura incompatível com as exigências do voo espacial tripulado.

Como resposta, mudanças já começaram a ser implementadas. “Esses são programas muito complexos, e programas complexos como este falham de maneiras complexas”, explicou Don Platt, diretor do Centro de Educação do Espaçoporto do Florida Institute of Technology e ex-engenheiro ligado à estação, em entrevista à NPR. Segundo ele, questões organizacionais muitas vezes podem ser tão ou mais decisivas do que os próprios desafios técnicos.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.