Vítor Soares / A Conexão Sueca

A história real por trás de ‘A Conexão Sueca’, da Netflix

Novo filme na Netflix, 'A Conexão Sueca' transporta o espectador para a Suécia na Segunda Guerra Mundial; conheça sua história real!

Cena de 'A Conexão Sueca' / Crédito: Divulgação/Netflix

Nesta quinta-feira, 19 de fevereiro, chegou ao catálogo da Netflix o novo filme ‘A Conexão Sueca’, uma produção baseada em fatos reais ambientada na Segunda Guerra Mundial. Com 1h40 de duração, o longa transporta os espectadores em uma narrativa intensa que acompanha um burocrata que aproveita de brechas legais para salvar refugiados judeus nesse momento sombrio da história recente.

A sinopse oficial descreve: “Henrik Dorsin, Sissela Benn e Johan Glans se tornam heróis desconhecidos quando a burocracia sueca enfrenta a máquina de guerra nazista e ajuda a salvar judeus do Holocausto… Armados com papelada, brechas legais e uma polidez discreta, um regime implacável é confrontado neste drama envolvente e de ritmo acelerado, baseado em fatos reais.”

Dirigido e escrito por Thérèse Ahlbeck e Marcus Olsson, o filme é estrelado por Henrik Dorsin, Sissela Benn e Johan Glans. A produção é assinada por Julia Gebauer, com fotografia de Joachim Heden, montagem de Michal Leszcylowski e Joakim Pietras, e trilha composta por Johan Testad e Kaspar Kaae.

Cena de ‘A Conexão Sueca’ / Crédito: Divulgação/Netflix

Gösta Engzell

Ambientada em 1942, a narrativa acompanha os bastidores do Ministério das Relações Exteriores da Suécia em um momento delicado do conflito. O país buscava manter um perfil discreto para evitar provocar a Alemanha e correr o risco de ocupação. Nesse contexto, o departamento jurídico da chancelaria, chefiado por Gösta Engzell, inicialmente deixa intocados a maioria dos pedidos de visto de cidadãos judeus, preservando a política de neutralidade.

É nesse cenário que surge o protagonista retratado no filme: Gösta Engzell, funcionário público real que atuou no ministério durante a guerra. Interpretado por Henrik Dorsin como um homem atrapalhado e paternal, de cardigãs confortáveis e gravatas borboleta, Engzell é apresentado como um burocrata improvável que, a partir de seu escritório, passa a desempenhar um papel decisivo no resgate de judeus ameaçados pelo regime nazista.

No filme, Engzell é retratado como um funcionário pouco prestigiado dentro da estrutura ministerial. Sua equipe trabalha em um pequeno escritório no porão, enquanto os superiores procuram manter boas relações com os alemães e tratam relatos de genocídio como “rumores”. A regra não escrita é que pedidos de judeus sejam arquivados, classificados como um “problema menor”.

A mudança começa com a chegada de Rut Vogl, vivida por Sissela Benn. A nova funcionária questiona os procedimentos adotados pelo departamento justamente quando rumores sobre campos de extermínio passam a circular com mais força. A partir daí, o que era rotina administrativa transforma-se em ação deliberada: vistos passam a ser concedidos a judeus noruegueses e a qualquer pessoa com algum vínculo com a Suécia.

Os arquitetos finlandeses Alvar Aalto e Elissa Aalto (à esquerda) cumprimentando Gösta Engzell (à direita) em 1959 / Crédito: Domínio Público

Burocracia como resistência

A crítica destaca que o heroísmo de Engzell se deu essencialmente no âmbito burocrático, explorando brechas legais e utilizando notas verbais diplomáticas. O tom do filme, no entanto, não é exclusivamente sombrio. Em um dos momentos citados, após uma vitória administrativa, um funcionário exclama: “é um milagre!”, ao que outro responde: “não”, corrige-o um colega radiante: “é burocracia”. A cena sintetiza a proposta da obra: transformar a papelada em instrumento de resistência.

A abordagem escolhida pelos diretores aposta em um retrato afável e levemente cômico do protagonista, mostrando diplomatas correndo pelos corredores do poder, o que cria um contraste entre leveza narrativa e gravidade histórica. Ainda assim, o longa se insere na tradição dos dramas europeus que revisitam atos individuais de resistência durante a guerra, deslocando o foco do campo de batalha para as engrenagens da administração pública, destaca Cath Clarke em artigo no The Guardian.

Ao revisitar um episódio por muito tempo pouco conhecido, ‘A Conexão Sueca’ questiona a ideia de neutralidade e examina as responsabilidades individuais diante de crimes em massa. Ao enfatizar a atuação de um funcionário civil que utilizou instrumentos burocráticos para salvar vidas, o filme propõe uma reflexão sobre o papel do indivíduo dentro das estruturas do Estado.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.