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Estudo controverso sugere que erupções solares provocam terremotos na Terra

Novo estudo propõe que mudanças na ionosfera da Terra provocadas por erupções solares podem impulsionar atividade sísmica em áreas frágeis da crosta terrestre; outros pesquisadores questionam

Imagem ilustrativa de uma erupção solar / Crédito: Getty Images

Erupções solares, conhecidas por provocar auroras e perturbar a atmosfera superior da Terra, podem também influenciar a ocorrência de terremotos. É o que sugere um estudo recente que propõe uma conexão entre o chamado “clima espacial” e a estabilidade das falhas geológicas. A hipótese, no entanto, divide especialistas e é considerada controversa.

De acordo com a pesquisa, quando uma erupção solar atinge o planeta, ela pode reorganizar partículas carregadas na ionosfera — camada da alta atmosfera rica em gases ionizados. Essa reorganização alteraria sutilmente o equilíbrio elétrico entre a ionosfera e a crosta terrestre. Os autores argumentam que tais mudanças poderiam modificar forças elétricas atuantes em regiões frágeis da crosta, afetando a estabilidade de falhas geológicas onde terremotos costumam se originar.

O estudo, publicado em 3 de fevereiro no International Journal of Plasma Environmental Science and Technology, apresenta um modelo teórico para explicar o mecanismo. Nele, a crosta terrestre e a ionosfera são tratadas como as extremidades de uma espécie de bateria gigante com vazamento. Fissuras profundas e altamente tensionadas na crosta conteriam fluidos supercríticos ricos em íons, capazes de armazenar energia elétrica, funcionando como um “capacitor”. Essas fissuras coincidem com falhas tectônicas, onde placas se movem e acumulam energia mecânica.

Segundo o modelo, partículas carregadas provenientes de erupções solares deslocariam elétrons na ionosfera para altitudes mais baixas, formando uma camada de carga negativa. Esse rearranjo aumentaria a força eletrostática exercida sobre cargas presentes na crosta, gerando alterações de pressão. Os pesquisadores afirmam que essas variações seriam comparáveis a outras forças que influenciam falhas geológicas, como gravidade e marés. O aumento da pressão poderia, em tese, impulsionar uma falha a se mover e desencadear um terremoto.

Como exemplo, os autores citam o terremoto de 2024 na Península de Noto, no Japão, que ocorreu durante um período de intensa atividade solar. Para eles, a coincidência reforçaria a plausibilidade do modelo.

Controvérsias

Ainda assim, a hipótese enfrenta críticas. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) sustenta há décadas que não há evidência clara de que terremotos sigam o ciclo solar de 11 anos de maneira consistente. Além disso, tanto erupções solares quanto terremotos são eventos relativamente frequentes, o que aumenta a probabilidade de coincidências ocasionais sem relação causal direta.

Especialistas também questionam a simplicidade do modelo teórico. “O modelo proposto é bastante simplificado”, afirmou Victor Novikov, geofísico da Academia Russa de Ciências, que não participou do estudo, em e-mail ao Live Science. Ele observou que os autores não consideraram plenamente a resistência de diversas camadas rochosas à condução elétrica, fator que poderia enfraquecer significativamente o campo elétrico antes que ele influenciasse uma falha tectônica. “Os resultados das observações não corroboram a ideia proposta”, acrescentou Novikov.

Os próprios pesquisadores reconhecem que a validação empírica da conexão entre ionosfera e crosta é um desafio. Medir com precisão as interações elétricas em escalas tão amplas e complexas exige dados mais detalhados e análises adicionais.

Por enquanto, a proposta deve ser encarada como uma hipótese a ser testada. A ideia de que o Sol poderia influenciar diretamente a tectônica terrestre permanece em aberto — e reforça um princípio fundamental da ciência: correlação não implica causalidade.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.