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Queixo humano pode ter surgido por um acidente evolutivo

Novo estudo sugere que o queixo humano surgiu por um acidente evolutivo; exclusiva da nossa espécie, a estrutura não é encontrada em outros primatas

Ilustração detalha os pontos cranianos e mandibulares analisados no estudo; linhas coloridas indicam as variações evolutivas da espécie / Créditos: N. von Cramon-Taubadel et al. / PLOS One (2026)

A origem do queixo em humanos pode ser, na verdade, parte de um acidente evolutivo. É isso que aponta um novo estudo publicado no dia 29 de janeiro na revista PLOS One.

O questionamento em volta da origem do queixo em humanos já é alvo de pesquisa por cientistas há muitos anos. Acontece que nenhuma outra espécie de primata viva possui essa protuberância óssea facial, além de ela não ter nenhuma função aparente.

Uma exclusividade

De acordo com informações da revista Smithsonian, até mesmo nossos parentes mais próximos extintos, como os neandertais e os denisovanos, não apresentavam queixo. Ao invés disso, eles possuíam mandíbulas inferiores planas ou retraídas.

Durante muito tempo, diversas teorias foram apresentadas sobre a evolução dessa característica. Entre as principais hipóteses estavam a seleção sexual — já que o Homo sapiens poderia se sentir atraído por parceiros com projeções na mandíbula — ou a evolução ligada à nossa capacidade de mastigar, ou falar. Outra vertente sugeria que o queixo serviria para proteger a garganta e o pescoço de lesões.

A “arquitetura”

Porém, com essa nova pesquisa, outra hipótese passou a ser defendida: o queixo surgiu provavelmente por um incidente envolvendo mudanças evolutivas no corpo. É o que os cientistas chamam de “enjuntas” (ou spandrels).

Esse termo é emprestado da arquitetura para se referir a espaços triangulares que sobram em uma construção, mas não possuem um propósito funcional. Na biologia, outros exemplos dessas “sobras” seriam o umbigo humano e a corcova no ombro do extinto cervo-gigante-irlandês.

O que os crânios revelam

O estudo contou com a análise de 532 crânios mantidos em coleções de museus na Europa e nos Estados Unidos. Parte deles pertencia a humanos, mas alguns eram de chimpanzés, gorilas, gibões, bonobos, orangotangos e outros tipos de primatas.

Os pesquisadores mapearam 32 pontos de referência e 46 distâncias em cada espécime, utilizando simulações computacionais para entender como essas diferenças surgiram na árvore genealógica. A análise revelou que, das nove características da mandíbula ligadas ao queixo, seis parecem ter surgido por puro acaso ou como subproduto de outras mudanças.

Segundo os especialistas, é muito provável que o queixo tenha aparecido como uma consequência de três fatores combinados: a adoção da postura ereta, o desenvolvimento de cabeças maiores e a redução no tamanho dos dentes e mandíbulas.

Como explicou a coautora do estudo, Noreen von Cramon-Taubadel, o queixo não evoluiu por seleção direta, mas “pegou carona” nas transformações de outras partes do nosso crânio ao longo dos milênios.


*Sob supervisão de Éric Moreira