Matérias / João Paulo II

A história do homem que tentou matar São João Paulo II

De Istambul ao crime Praça de São Pedro — a trajetória violenta e controversa de um dos mais infames assassinos do século XX

Papa João Paulo II sendo socorrido depois de ser baleado (1981) - Getty Images

Mehmet Ali Ağca ficou marcado na história como o homem que tentou assassinar o papa João Paulo II em 13 de maio de 1981, em um dos eventos mais dramáticos da década no Vaticano — episódio que abalou religiões, governos e despertou teorias da conspiração por décadas. No entanto, sua vida antes e depois daquele disparo é ainda mais complexa e cheia de reviravoltas, desde suas origens como criminoso em seu país natal até confrontos legais, declarações polêmicas e reencontros inesperados com o próprio papa que tentou matar.

Origens no crime

Mehmet Ali Ağca nasceu em 9 de janeiro de 1958 na cidade de Hekimhan, na província de Malatya, na Turquia. Cresceu em uma família pobre, marcada por dificuldades e problemas de saúde, o que acabou moldando boa parte de sua adolescência.

Ainda jovem, ele se envolveu no mundo do crime — primeiro nas ruas, com pequenos furtos e gangues, e depois, mais tarde, com atividades mais organizadas ligadas a grupos ultranacionalistas turcos. Entre esses grupos estava a organização Lobos Cinzentos (Grey Wolves), conhecida por sua ideologia extremista e violência na luta contra o que consideravam inimigos políticos e sociais.

Mehmet Ali Ağca, autor de atentado contra o Papa João Paulo II – Getty Images

Foi dentro desse ambiente que Ağca cometeu seu primeiro grande crime político-violento. Em 1º de fevereiro de 1979, ele assassinou o jornalista Abdi İpekçi, editor de um jornal liberal em Istambul — um crime que provocou comoção no país e colocou Mehmet no centro de uma investigação policial extensa.

Após ser preso em junho de 1979, Ağca conseguiu escapar da prisão militar em novembro do mesmo ano, em uma fuga que levantou suspeitas sobre possíveis conivências com membros de sua própria organização e agentes dentro das forças de segurança turcas.

De fugitivo a assassino frustrado

Após fugir da prisão, Mehmet Ali Ağca desapareceu por meses — até reaparecer em Roma, na Itália, no início de 1981. Meses depois, em 13 de maio de 1981, ele se posicionou na Praça de São Pedro, no Vaticano, enquanto o papa João Paulo II cumprimentava fieis e visitantes.

Em uma sequência rápida e violenta, Ağca sacou uma arma e disparou quatro vezes contra o pontífice, atingindo-o no abdômen, na mão esquerda e no braço direito. Por pouco o papa não foi fatalmente ferido — um dos projéteis passou muito próximo do coração, e João Paulo II precisou de cirurgia e semanas de recuperação, mas sobreviveu.

A prisão de Ağca foi imediata: ele foi dominado por seguranças e pessoas presentes no local, impedindo qualquer tentativa de fuga. Em sua carteira, foi encontrado um bilhete no qual dizia que mataria o papa “em protesto contra o imperialismo dos Estados Unidos e da União Soviética” e que queria chamar a atenção para conflitos internacionais.

Julgamento, prisão e perdão

Em julho de 1981, Mehmet Ali Ağca foi condenado à pena de prisão perpétua na Itália pelo ataque ao papa. Desde o início do processo, ele ofereceu versões contraditórias sobre seus motivos e possíveis cúmplices, incluindo alegações de que teria sido instruído por grupos estrangeiros — como serviços secretos da Bulgária, teorias jamais comprovadas.

No entanto, em 1983, em um gesto que surpreendeu o mundo, o próprio papa João Paulo II visitou Ağca na prisão italiana e lhe ofereceu perdão, incentivando rezas por sua redenção.

Em 2000, após quase 20 anos encarcerado, o papa chegou a solicitar formalmente à Itália que perdoasse Mehmet, e ele foi libertado no ano seguinte. Após sua saída da prisão italiana, Ağca foi extraditado para a Turquia para cumprir pena pelos crimes anteriores, incluindo o assassinato de İpekçi.

Vida após a prisão

Após ser liberado da prisão em 2010, Mehmet Ali Ağca continuou a ser uma figura controversa. Ele fez declarações públicas peculiares, chegando a afirmar que era o “Cristo eterno” e que o mundo terminaria naquele século — declarações vistas por muitos como sinais de instabilidade mental.

Ağca também expressou desejos improváveis, como escrever um livro com o autor Dan Brown ou até mesmo se tornar padre, e fez uma visita simbólica ao túmulo de João Paulo II no Vaticano em 2014, onde deixou flores — um gesto que, para o Vaticano, foi considerado suficiente representação de arrependimento.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.