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Arqueólogos descobrem ritual de decapitação entre grupos ibéricos da Idade do Ferro

Novas análises indicam que o ritual de decapitação era praticado tanto por comunidades costeiras quanto por grupos que viviam no interior da Península Ibérica

Caveira de Olèrdola. À esquerda, restos restos recuperados no campo. À direita, caveira limpa e reconstruída - Crédito: Divulgação/Marta Riba Vidal/De la Fuente Seoane et al., Trabajos de Prehistoria (2025)

Uma equipe de arqueólogos que analisa fragmentos de crânios da Idade do Ferro encontrados em dois sítios no nordeste da Península Ibérica ampliaram a área conhecida de um ritual que, até então, era associado apenas a comunidades costeiras ao norte do rio Llobregat. Novas análises indicam que a prática também envolvia grupos do interior, como os Cessetani e os Ilergetes. Os restos humanos provêm de Olèrdola, na província de Barcelona, e de El Molí d’Espígol, na província de Lleida, ambos assentamentos ocupados entre os séculos 6 e 2 a.C..

Ao todo, os pesquisadores examinaram cinco fragmentos cranianos de Olèrdola e dez de El Molí d’Espígol. Os primeiros pertencem a um jovem do sexo masculino, com idade estimada entre oito e quinze anos. Já o material de El Molí d’Espígol representa ao menos três indivíduos distintos, incluindo outro jovem do sexo masculino, de acordo com o portal Archaeology News.

Marcas de corte

Análises microscópicas revelaram marcas de corte produzidas próximo ao momento da morte, sendo que muitas lesões combinam impactos de instrumentos cortantes com lâminas retas. No crânio de Olèrdola, cortes mais profundos no osso frontal esquerdo contrastam com marcas anguladas no lado direito, que se sobrepõem em diversos pontos. Essa variação sugere múltiplos golpes e, possivelmente, a participação de mais de uma pessoa. A fonte destaca que a parte inferior posterior do crânio não foi preservada, o que impede a confirmação inequívoca da decapitação, mas os padrões de trauma indicam remoção da cabeça e posterior manuseio.

Os especialistas também identificaram incisões finas ao redor da testa e da mandíbula. Suas dimensões são compatíveis com ferramentas metálicas delicadas, semelhantes a agulhas encontradas em outros sítios ibéricos associados à exibição de cabeças. As marcas indicam a retirada de tecidos moles, incluindo partes do rosto. Procedimentos semelhantes foram documentados em contextos da Idade do Ferro na França e na Grã-Bretanha, o que reforça a interpretação de um preparo ritual, e não de violência aleatória isolada.

Análise química

Testes químicos realizados em resíduos aderidos ao osso de Olèrdola identificaram resinas vegetais de pinheiro, além de óleos e ceras de origem vegetal ou animal. Essas substâncias são adequadas para a conservação ou preparação de objetos destinados à exposição, sugerindo que a cabeça teria sido tratada antes de ser colocada em local visível.

Já a análise isotópica acrescentou uma nova dimensão à interpretação. Como os valores de estrôncio presentes nos dentes e ossos não correspondem à geologia local de Olèrdola, tudo indica que o indivíduo em questão passou a infância em uma região com formações rochosas mais antigas.

Contexto

O contexto arqueológico de cada assentamento reforça a hipótese de exibição pública. Em Olèrdola, os fragmentos foram encontrados na base de uma torre que flanqueava a entrada principal do povoado. A colocação de uma cabeça acima de um portal teria transmitido uma mensagem simbólica poderosa a visitantes e possíveis rivais. Já em El Molí d’Espígol, os restos estavam agrupados no interior de um grande edifício próximo a uma praça aberta, área identificada como socialmente relevante pela arquitetura e pela localização.

Descobertas anteriores associavam esse costume sobretudo a grupos da faixa costeira. Agora, as novas evidências ampliam o alcance geográfico da prática e a diversidade de grupos envolvidos.

+ Confira aqui o link para o estudo completo.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.