Leilão com itens de Oscar Wilde revela detalhes da vida vitoriana
Coleção inédita de 148 itens ligados ao escritor Oscar Wilde resgata intimidade, lutas e contradições do criador de Dorian Gray

Um conjunto de 148 objetos — cartas, fotografias, manuscritos, primeira edições e itens pessoais — relacionados ao escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) vai a leilão no próximo dia 18 pela tradicional casa londrina Bonhams, num evento que promete reconectar a obra e a vida do autor com o público contemporâneo de forma inédita.
Amplamente lembrado por seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, publicado em 1891 e celebrado como marco da literatura do século XIX, Wilde foi também um personagem cuja trajetória foi marcada por excessos, genialidade e um sistema social rígido e intolerante. A coleção que será leiloada pertence ao britânico Jeremy Mason, um reconhecido colecionador de memorabilia do escritor, que reuniu objetos desde a infância de Wilde até seus anos de declínio e exílio em Paris, onde morreu aos 46 anos.
Coleção Oscar Wilde
Entre os destaques estão primeiras edições raras como Salomé (1893), avaliadas entre 20 000 e 33 000 dólares, e cartas trocadas com figuras centrais de sua vida, como o poeta nova-iorquino Stuart Merrill, que chegou a organizar uma petição pública em favor do autor durante seu período na prisão (1895-1897) — tempo em que Wilde foi condenado por “indecência grave” simplesmente por ser homossexual.
O contexto do julgamento de Wilde ilustra de forma crua o preconceito legislativo e social vigente no fim da era vitoriana, quando a homossexualidade masculina era considerada crime no Reino Unido e perseguida com base em normas rígidas (inclusive sob a antiga seção 61 da Lei de Crimes Contra a Pessoa de 1861).

Especialistas apontam que, mais que itens de valor histórico, o leilão proporciona uma oportunidade de humanizar o autor além de sua imagem caricatural e controversa. Para o crítico literário Fábio Waki, da USP, a mostra desses documentos permite ver Wilde “como pessoa completa — com medos, relações e conflitos — e não apenas como ícone da genialidade ou vítima de escândalos”, disse em entyrevista à Veja.
As fotografias expostas, por exemplo, mostram um Wilde estiloso e provocador nos Estados Unidos, poucos anos antes de sua derrocada, vestido com casacos de veludo, lenços de seda e um cravo na lapela, num visual que desafiava as expectativas rígidas da sociedade vitoriana e muitas vezes lhe rendia críticas ácidas.
Ao recuperar cartas íntimas e páginas manuscritas, o leilão ilustra também a complexidade das relações pessoais de Wilde, sua rede de amizades e rivalidades, e o contexto cultural que o cercava — oferecendo, segundo historiadores, um espelho que revela tanto o homem quanto os valores de seu tempo.