Kanzi, o bonobo, era capaz de brincar de faz de conta, diz novo estudo
Bonobo era capaz de brincar de faz de conta, algo que, até a presente pesquisa, era considerado uma característica única dos seres humanos

Pesquisadores demonstraram de forma experimental que os bonobos (Pan paniscus) são capazes de participar de brincadeiras de faz de conta, uma habilidade que, até então, era considerada exclusiva dos seres humanos.
Assim como crianças por volta dos 2 anos de idade, o bonobo Kanzi, conhecido por compreender o inglês falado, foi capaz de acompanhar situações imaginárias, como beber suco inexistente e “comer” uvas fictícias durante encenações semelhantes a festas de chá. As observações fazem parte de um estudo publicado nesta quinta-feira, 5, na revista Science.
Embora Kanzi, que morreu em março de 2025, não tenha iniciado espontaneamente esse tipo de brincadeira, sua capacidade de acompanhar a situação simulada indica que ele possuía alguns dos mecanismos cognitivos necessários para imaginar objetos e cenários que não existem de fato.
“Ficamos realmente impressionados com essa descoberta”, afirmou Christopher Krupenye, coautor do estudo e professor assistente de ciências psicológicas e do cérebro na Universidade Johns Hopkins, em entrevista ao Live Science. “O que estamos vendo neste caso é que… algo que parece ser fundamentalmente humano e que está emergindo no início do nosso desenvolvimento humano também é compartilhado com nossos parentes mais próximos”, completou.
Capacidade de imaginar
Segundo Krupenye, os resultados sugerem que a capacidade de imaginar objetos inexistentes pode ter surgido antes da separação evolutiva entre humanos e bonobos, ocorrida há mais de 6 milhões de anos.
Relatos anteriores já indicavam, que grandes símios — tanto em cativeiro quanto na natureza — poderiam se engajar em brincadeiras simbólicas. Um exemplo citado é o de um chimpanzé selvagem de cerca de 3 anos, na Guiné, observado colocando sobre a cabeça uma almofada de folhas feita por humanos. Em outro caso, um bonobo em cativeiro foi visto “colhendo” e “comendo” mirtilos a partir de uma fotografia da fruta.
No entanto, essas observações isoladas sempre deixaram margem para interpretações alternativas, como a possibilidade de os animais acreditarem que os objetos imaginários eram reais. Para esclarecer essa questão, Krupenye e sua colega Amalia Bastos, psicóloga comparativa da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, decidiram investigar experimentalmente se os animais realmente conseguem fingir.
Como Kanzi compreendia e respondia a comandos em inglês, ele foi o candidato ideal para o experimento. Na fase inicial, o bonobo foi treinado a identificar a presença de suco em recipientes. Diante de duas garrafas transparentes — uma com suco e outra vazia —, ele deveria apontar para a que continha o líquido. A cada acerto, era recompensado com um pouco de suco. Kanzi acertou todas as 18 tentativas dessa etapa.
Fase seguinte
Na fase seguinte, os pesquisadores colocaram dois copos vazios e transparentes sobre a mesa. Em seguida, fingiram despejar suco de uma jarra vazia em ambos os copos e, depois, simularam devolver o “suco” de apenas um deles à jarra. Kanzi então precisava apontar qual copo ainda continha o suco imaginário, sem receber qualquer recompensa ou confirmação de acerto. Ele escolheu corretamente em 68% das tentativas, sugerindo que conseguia acompanhar o líquido fictício.
Ainda assim, os pesquisadores consideraram a possibilidade de que Kanzi simplesmente acreditasse que o copo vazio continha suco de verdade. Para testar essa hipótese, realizaram um segundo experimento: colocaram um copo com suco real e outro vazio sobre a mesa, fingiram despejar suco no copo vazio e, em seguida, apenas posicionaram a jarra vazia sobre o copo cheio, sem simular o despejo.
“Se Kanzi realmente acreditasse que ambos os copos continham suco, ele escolheria os dois com a mesma frequência”, explicou Krupenye. No entanto, quando solicitado a escolher, o bonobo apontou para o copo com suco verdadeiro em 77,8% das vezes, indicando que distinguia claramente entre o real e o imaginário.
“Isso meio que nos deu confiança de que estávamos realmente olhando para alguma habilidade de rastrear objetos imaginários ou de mentira”, disse o pesquisador.
Mesmo assim, Bastos manteve certo ceticismo e considerou que o desempenho poderia ter ocorrido por acaso. Para eliminar essa possibilidade, a equipe repetiu o procedimento usando uma uva imaginária. Novamente, Kanzi identificou corretamente a localização do objeto fictício em 68,9% dos testes.
“Quando terminamos o experimento três, eu estava muito confiante de que o que vimos era o que vimos”, afirmou Bastos.
Limitações
O estudo tem limitações, já que envolveu apenas um bonobo. Ainda assim, representa a primeira evidência experimental sólida de que grandes símios podem participar de brincadeiras de faz de conta, segundo Laura Simone Lewis, antropóloga evolutiva e psicóloga da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, que não participou da pesquisa.
Embora se trate de um grande avanço, os pesquisadores ressaltam que o estudo mostra que Kanzi conseguia compreender uma situação de fingimento criada por humanos — e não que ele próprio fosse capaz de inventar cenários imaginários de forma independente.
“Acho que seria um grande salto dizer que, por causa disso, de certa forma estamos vendo algo comparável ao que vemos em crianças de 2 anos, onde normalmente vemos produção de fingimento, incluindo coisas como beber de copos vazios e assim por diante”, afirmou Paul Harris, psicólogo da Universidade de Harvard, também em entrevista ao Live Science.
Krupenye e Bastos esperam agora ampliar esse tipo de investigação para outros grandes símios. “Se as anedotas estiverem certas, deveria ser que outros macacos também compartilhem essa capacidade”, concluiu Krupenye.